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A tripulação do navio Phyllis Cormack, a caminho das Ilhas Aleutas 
(Amchitka), para protestar contra os testes nucleares dos EUA na 
região. O protesto marcou a fundação do Greenpeace.

A tripulação do navio Phyllis Cormack, a caminho das Ilhas Aleutas (Amchitka), para protestar contra os testes nucleares dos EUA na região. O protesto marcou a fundação do Greenpeace.

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Em 15 de setembro de 1971, um pequeno grupo de ecologistas e jornalistas levantou âncora no porto da cidade de Vancouver, no Canadá. A Guerra do Vietnã ocupava as manchetes de todos os veículos de comunicação, jovens pacifistas atravessavam todos os dias a fronteira dos Estados Unidos para engrossar a legião de desertores no Canadá, o rock invadia as rádios, o hippismo ditava a moda.

Tudo isso era visível nos tripulantes do "Phyllis Cormack", o pequeno barco de pesca (24 metros) alugado que rumava para Amchitka, nas Ilhas Aleutas, no Pacífico Norte, local de mais um teste nuclear dos Estados Unidos. No mastro da embarcação tremulavam duas bandeiras: a da ONU - para marcar o internacionalismo da tripulação - e outra que unia as palavras "green" e "peace" numa única idéia: a da defesa do meio ambiente e da paz a qualquer preço. O que os movia, mais do que a coragem, era uma convicção: a destruição do planeta pelo ser humano havia chegado ao ponto de ameaçar o presente e o futuro de todos os seres vivos. Era preciso fazer algo para impedir o teste nuclear - porque as ações falam mais alto do que as palavras.

A expectativa era grande. Em 1969, um teste nuclear americano em Amchitka havia gerado enorme controvérsia. A região tem uma das estruturas geológicas mais instáveis do planeta e sofre com freqüentes terremotos e maremotos. Cerca de 10 mil pessoas tentaram impedir esse primeiro teste bloqueando o maior posto de fronteira entre o Canadá e os EUA, carregando faixas que diziam: "Não faça onda!", em referência aos maremotos. O governo americano desprezou os protestos e realizou o teste programado. Não houve terremotos ou maremotos - o único abalo foi provocado pelo anúncio de um novo teste no mesmo local, dois anos depois. O teste seria cinco vezes mais potente. Era preciso fazer algo mais, além de colocar faixas na fronteira, pensavam dois dos envolvidos nos protestos - Jim Bohlen e Irving Stowe.

O nova-iorquino Jim Bohlen era um ex-mergulhador e operador de radar da Marinha Americana durante a Segunda Guerra Mundial que havia trabalhado no programa de mísseis nucleares "Minuteman". Em 1966, quando percebeu que o envolvimento norte-americano no Vietnã era irreversível, deixou a Marinha e mudou-se para Vancouver com a mulher, Maria. Lá, durante uma passeata contra a guerra, o casal conheceu Irving e Dorothy Stowe, que também havia abandonado os Estados Unidos por convicção religiosa - eram quackers e profundamente anti-violência.

Irving Stowe, advogado formado em Yale, trabalhava num jornal underground contrário à guerra - o "Georgia Straight". Juntos com um jovem estudante de direito da Universidade da Colúmbia Britânica, Paul Cote, eles fundariam um movimento pacifista e ecologista - o "Comitê Não Faça Onda" - para lutar contra os testes nucleares americanos. Rapidamente descobriram que o nome não tinha grande apelo.

Os quakers acreditam numa forma de resistência pacífica - "bearing witness", em inglês (a tradução mais próxima para isso seria "testemunha envolvida") - que consiste em estar fisicamente presente na cena de um acontecimento maléfico, como forma de impedi-lo. Foi inspirado nele que os membros do "Comitê Não Faça Onda" decidiram alugar um barco para ir ao local previsto para o teste nuclear de 1971. Surgia assim a "ação direta", que viria a ser a forma mais conhecida de atuação do Greenpeace, organização que sucederia o "Não Faça Onda".

O nome da nova organização é fruto do acaso: isoladas, as palavras "green" e "peace", que expressavam a idéia de pacifismo e defesa do meio ambiente que animava seus fundadores, não cabiam num buttom vendido para ajudar a arrecadar fundos para a viagem. Foi necessário juntá-las. Nascia o Greenpeace. Ao zarpar, a tripulação do "Cormack" incluía alguns jornalistas, entre eles Robert Hunter, do jornal canadense "The Vancouver Sun"; Ben Metcalfe, da "Canadian Broadcasting Corporation (CBC); e Bob Cummings, repórter do "Georgia Straight", além de um fotógrafo do próprio Greenpeace.

Robert Hunter enfrentou a viagem lendo um livro sobre mitos e lendas indígenas. Um trecho do livro impressionou a tripulação. Narrava a previsão feita 200 anos antes por uma velha índia Cree, chamada Olhos de Fogo, sobre o futuro do planeta:

"Um dia a terra vai adoecer. Os pássaros cairão do céu, os mares vão escurecer e os peixes aparecerão mortos nas correntezas dos rios. Quando esse dia chegar, os índios perderão o seu espírito. Mas vão recuperá-lo para ensinar ao homem branco a reverência pela sagrada terra. Aí, então, todas as raças vão se unir sob o símbolo do arco-íris para terminar com a destruição. Será o tempo dos Guerreiros do Arco -Íris."

Alguns anos depois, o nome "Guerreiro do Arco-Íris" (Rainbow Warrior, em inglês) estaria orgulhosamente pintado no casco do mais famoso navio do Greenpeace e terminaria por virar sinônimo de ativismo ambiental. O "Phyllis Cormack", porém, não chegou a seu destino: em 20 de outubro, a tripulação foi presa pela Guarda Costeira dos Estados Unidos, e expulsa da região. Ao voltar para Vancouver, os pioneiros do Greenpeace estavam nas manchetes de jornais em toda a América do Norte. O teste nuclear havia sido adiado em mais de um mês. Mas seria o último: após ele, Amchitka nunca mais foi usada como local de provas atômicas.