Três anos de campanha por um mercado de peixe sustentável em Portugal

Página - 18. Outubro, 2010
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Quando, em finais de 2007, a Greenpeace analisou a realidade do mercado de peixe em Portugal, nenhuma das grandes cadeias de distribuição alimentar - responsáveis pela venda de mais de 70% do peixe no país - possuía uma política de compra e venda de pescado. Hoje em dia, a publicação do terceiro Ranking dos Supermercados revela um mercado e práticas de negócio substancialmente alterados.

Impactos da pesca industrial largamente desconhecidos em 2007


As estatísticas colocam os portugueses entre os povos com maior consumo de peixe per capita - em média 57 quilos por pessoa por ano. No entanto, apesar do declínio crescente dos stocks de peixe a nível global estar no centro dos debates científicos, poucos consumidores estavam conscientes da destruição e desperdícios associados às grandes indústrias de pesca e do impacto do seu consumo de peixe no ecossistema marinho.

Pressão progressiva para mudar o mercado peixe


Como primeiro passo, a Greenpeace lançou a Lista Vermelha nacional de espécies de peixe, onde constam as espécies de peixe mais vendidas e com elevada probabilidade de provir de pescarias insustentáveis. Pouco depois, foi apresentado ao público o primeiro Ranking dos Retalhistas, onde os principais retalhistas são avaliados nas suas práticas de comercialização de pescado segundo critérios de sustentabilidade predefinidos.

A Lista Vermelha e os resultados dos Rankings anuais foram, nos anos seguintes, amplamente difundidos entre os consumidores portugueses, denunciando as piores práticas de venda, divulgando as alternativas mais sustentáveis e fomentando o debate sobre a sustentabilidade dos produtos de pescado à venda no mercado português.

O retalho responde e a sociedade civil abraça o tema


Actualmente, dos seis retalhistas alvo da campanha da Greenpeace, quatro já adoptaram uma política de pescado responsável. Para além disso, três deles lançaram, inclusive, campanhas de sensibilização dirigidas aos seus clientes alertando para a problemática da pesca. Também a sociedade civil interiorizou a relação entre o consumo de peixe e a saúde dos oceanos:

  • O crescimento exponencial do número de apoiantes da campanha da Greenpeace (actualmente perto de 80 mil cidadãos) ilustra a crescente consciencialização dos consumidores para os impactos negativos de práticas de pesca destrutivas e/ou ilegais e para as consequências alarmantes de um consumo de peixe desmedido e descuidado.
  • Outras organizações não governamentais de ambiente (ONGA) incluíram o tema da pesca e do peixe nas suas agendas. A Quercus dedicou vários programas Minuto Verde ao tema e a LPN lançou um site informativo sobre o peixe consumido em Portugal. Paralelamente estas ONGA juntaram-se a outras três numa plataforma para a pesca (PONG-PESCA) que participa activamente no diálogo sobre uma nova Política Comum das Pescas para a Europa e na discussão sobre a pesca nacional.
  • Os meios de comunicação estiveram atentos ao debate e, hoje em dia, sempre que se fala dos oceanos a problemática da pesca é destacada. Os retalhistas mais progressistas, como o Lidl e a Sonae, são frequentemente convidados a comentar a sua política de pescado responsável e/ou a apoiar eventos em torno dos oceanos.

Primeiros passos dados pela indústria da pesca nacional


Com a sociedade civil empenhada em inverter a lógica de negócio que tem conduzido ao colapso de várias pescarias mundiais, a indústria de pesca não quis ficar para trás. Hoje, também as associações de pescarias tradicionais lançam iniciativas para sustentar, proteger e promover a sua actividade. Os casos mais recentes são a certificação da pesca a sardinha e o requerimento para classificar o peixe-espada preto como produto de Denominação de Origem Protegida.

Pesca e pescado sustentáveis são hoje palavras de ordem


Três anos após o início da campanha para mercados de peixe sustentável em Portugal, os conceitos de pesca e pescado sustentáveis são amplamente reconhecidos, colocando-se como a máxima a seguir para todos os que se preocupam com o futuro dos nossos oceanos. Com a evidenciação clara dos problemas associados à pesca industrial e ao iminente colapso dos stocks de peixe mundiais, o movimento pela sustentabilidade no sector do peixe é agora imparável.

O que mudou nas prateleiras dos supermercados


Um dos principais objectivos da campanha da Greenpeace por mercados de peixe sustentável era promover os retalhistas como parceiros chave para gerar mudanças no sector de peixe. Estas grandes superfícies dominam o mercado, escoando, na maioria dos países ocidentais, 70% do peixe vendido. Contrariamente aos políticos e à indústria que insistem em atrasar a adopção de medidas que protejam efectivamente as reservas de peixe actuais, os supermercados são sensíveis aos desejos dos consumidores e têm uma capacidade de resposta extremamente célere. Graças à motivação e actuação rápida de algumas das maiores cadeias de supermercados em Portugal, as bancas de peixe do país apresentam hoje um panorama bastante diferente daquele que a Greenpeace encontrou em 2007.

Supermercados assumem a responsabilidade pelo peixe que vendem


Em 2010, quatro dos seis retalhistas visados no Ranking anual dos Retalhistas da Greenpeace (Lidl, Sonae, Auchan, Dia) adoptaram uma política de compra e venda de peixe responsável, abraçando o compromisso de eliminar o pior pescado das suas prateleiras e de apoiar as melhores práticas.

Lidl - um processo de selecção do pescado com critérios sustentáveis

Lidl foi o primeiro retalhista a desenvolver um processo de decisão para o pescado que vende, garantindo assim que o peixe comercializado nas suas lojas respeita os critérios incluídos na nova política do grupo, como:

  • a rastreabilidade a 100% (até ao barco de captura)
  • a exclusão de pescado proveniente do arrasto de fundo ou de técnicas de pesca com uma taxa de bycatch (captura acidental) superior a 20%
  • a exclusão de espécies de peixe de profundidade
  • a exclusão de peixe de viveiro alimentado com peixe selvagem de stocks ameaçados ou com cereais transgénicos

Lidl já adoptou 10 dos 19 criterios para a sustentabilidade (1) (2) do pescado recomendados pela Greenpeace, o que permitiu ao grupo atingir 60% de pontuação no último Ranking dos Retalhistas, publicado em Maio de 2010.

Sonae - desenvolvendo um sistema de classificação do pescado

Sonae está a criar um sistema de selecção de pescado que classifica o peixe em categorias segundo os critérios de sustentabilidade adoptados na sua política, revendo assim as fontes de abastecimento e dando preferência às alternativas mais responsáveis. Este sistema garantirá também uma elevada rastreabilidade do pescado, sendo os fornecedores obrigados a apresentar dados completos sobre o peixe que comercializam. Com objectivos ambiciosos e trabalhando a um passo acelerado, a Sonae entrou este ano na gama laranja do Ranking dos Retalhistas.

Fornecedores obrigados a cumprir com os critérios

Tanto Lidl como Sonae obrigam contratualmente os seus fornecedores a respeitar a sua política de pescado responsável.  Adicionalmente, o Lidl audita todos os anos os seus fornecedores para verificar o cumprimento das directrizes de rastreabilidade. Já a Sonae aumentou em 50% o número de fornecedores com certificado de captura.

Auchan - horizonte de 5 anos para a implementação da política de pescado sustentável

O grupo Auchan deu este ano os primeiros passos no sentido de fazer reger a sua gama de peixe por práticas de sustentabilidade. A sua política de pescado responsável foi tornada pública em 2010, estando disponível online e no relatório de sustentabilidade. Neste relatório, a empresa assume o compromisso de apresentar anualmente um conjunto de indicadores e práticas que monitorizem a política, permitindo assim à Auchan prestar contas sobre os compromissos assumidos.

O peixe não sustentável tem cada vez menos lugar nas prateleiras


Peixe sustentável é aquele que provém de uma pescaria que preserva a capacidade da espécie de repor a sua população e não causa impactos negativos nas outras espécies que integram o ecossistema. Apesar das mudanças positivas sentidas no sector de retalho, ainda existem dezenas de espécies de peixe à venda em Portugal não correspondem a estes critérios. A Greenpeace recomenda dois passos principais para reduzir o pescado insustentável: dar prioridade ao retirar das espécies mais vulneráveis e evitar o peixe ilegal.

Retirar as espécies vulneráveis

Para facilitar a mudança nas práticas de comercialização do pescado, a Greenpeace criou uma Lista Vermelha das espécies de peixe prioritárias para exclusão. Estas são, na sua maioria, espécies para as quais não existem alternativas de abastecimento mais sustentáveis, como os tubarões, o espadarte, os peixes-vermelhos e o camarão. Lidl deu ouvidos a este apelo, estando a eliminar das suas prateleiras todas as espécies capturadas exclusivamente através do arrasto de fundo e ainda todas as espécies de profundidade (peixe-espada, peixes-vermelhos, tamboril, solhas,..). Também a Sonae iniciou este processo ao eliminar o cação e o alabote da Gronelândia. Para além disso, a empresa está agora a equacionar eliminar todos os tubarões vulneráveis da sua oferta, como o caso da tintureira. A Auchan já deu este passo, ao anunciar o fim da venda de todas as espécies de tubarão ameaçadas, em Janeiro deste ano.

Recusar peixe ilegal

Conseguir verfificar a origem do peixe que vendem é uma das principais preocupações para a maioria dos retalhistas que adoptam políticas de pescado responsáveis. Lidl e Sonae instituíram como prática comum a exclusão de fornecedores que trabalhem com armadores ou navios listados nas Listas Negras oficiais e da Greenpeace. Estes retalhistas exigem a garantia da legalidade do peixe que vendem e pretendem verificar anualmente o cumprimento deste critério. A Auchan inaugurou uma plataforma de pescado em Peniche, que permite aumentar significativamente o controlo da origem do peixe. O grupo Dia também assumiu o combate à pesca ilegal como prioridade na sua política, pretendendo levar a cabo um rastreio completo da sua gama de pescado.

Alguns exemplos de peixe mais sustentável hoje nas prateleiras:

  • Dois retalhistas (Sonae e Auchan) passaram a comercializar peixe local com certificado de compra em lota (CCL).
  • A maioria dos retalhistas que possuem uma política está empenhada em aumentar a percentagem de bacalhau do Atlântico apanhado à linha.
  • Estes retalhistas comprometem-se também a favorecer o bacalhau proveniente do Mar de Barents (Noruega), onde se encontra o último grande stock sustentável de bacalhau.
  • A Sonae anunciou a pretensão de introduzir produtos de peixe biológicos ainda este ano.

 

Retalhistas promovem pesca e pescado sustentáveis


Três dos retalhistas - Lidl, Sonae e Auchan - estão empenhados em assegurar aos seus clientes mais informação sobre o pescado à venda nas suas lojas. Estas cadeias de supermercados têm demonstrado também maior transparência na discussão sobre a sua política com organizações não-governamentais, com o público e ainda com a indústria da pesca.

Auchan - em defesa do tubarão

Auchan abraçou a causa do tubarão, uma das espécies comerciais mais ameaçadas nos oceanos, por ser alvo directo de várias pescarias e por ser vítima de capturas acidentais (principalmente na pesca do atum). Durante o ano de 2010, a Auchan organizou várias campanhas de informação sobre a espécie, explicando em detalhe no seu site as razões para descontinuar a venda de todos os tubarões ameaçados.

Sonae - promotor do peixe sustentável

Sonae assumiu um papel activo no movimento pela sustentabilidade no sector de peixe, fazendo diligências a nível burocrático e incentivando outras empresas do sector a seguir o rumo inevitável da sustentabilidade. A equipa do negócio do peixe da Sonae partilha regularmente, tanto com o público como com a indústria, o enquadramento da sua política de pescado responsável e as metas que pretende atingir a curto e médio prazo. A Sonae incorporou ainda na sua escola de perecíveis um módulo relativo à política de sustentabilidade no pescado e já formou mais de 900 funcionários segundo o novo modelo.

Lidl - nova etiqueta para todo o peixe

Muito recentemente, numa atitude pioneira no mercado, o grupo Lidl adoptou novas exigências para a rotulagem dos seus produtos de peixe, que inclui quase todos os pedidos da Greenpeace a este respeito, faltando apenas o nome do stock:

  • nome comum do peixe
  • nome científico do peixe
  • método de pesca
  • zona FAO e subzona quando disponível

Apesar de ainda não existir uma exigência legal nesse sentido, este modelo de etiqueta vai ser aplicado também nos produtos enlatados e processados.

Etiqueta para peixe fresco local

Sonae foi o primeiro retalhista a lançar a etiqueta CCL (certificado de compra em lota) para o peixe fresco local, numa parceria com a Docapesca. Esta etiqueta informa melhor o cliente sobre o método de pesca utilizado e identifica o peixe capturado localmente. Recentemente a Auchan também se juntou a esta iniciativa.

 

Os consumidores encontram a sua voz


Longe vão os tempos em que o consumidor era apenas um actor passivo na compra de produtos e serviços. Hoje em dia, o consumidor consciente acrescenta à sua preocupação sobre a qualidade dos produtos, outros critérios como a origem e impacto ambiental, exigindo estas informações no acto da compra e influenciando assim os mercados a seguir práticas de negócio mais justas e sustentáveis.

Nos últimos três anos, a Greenpeace fez campanha junto dos consumidores portugueses alertando para a destruição e desperdícios associados às práticas de pesca insustentáveis.  

Aqui podes rever alguns momentos chave na mobilização dos consumidores por um mercado de peixe que não contribua para o desaparecimento de espécies e habitats marinhos.

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