Árctico sob pressão

Uma corrida contra o tempo para salvar um dos locais mais inóspitos e fascinantes do nosso planeta

Página - 7. Julho, 2010
As alterações climáticas estão a causar o degelo das calotas polares e a tornar vulneráveis à exploração industrial áreas que antes estavam inacessíveis. O Oceano Árctico está agora à mercê dos impactos causados pela extracção de combustíveis fósseis, actividade mineira, perfurações subaquáticas e pesca industrial. Com o recuo da linha de gelo, navios de pesca de arrasto começaram a operar nesta zona sensível e a colocar em perigo os habitats do fundo do oceano.

Os impactos da pesca na região podem ter consequências imprevisíveis e catastróficas em ecossistemas dos quais sabemos ainda muito pouco. A invasão de navios de pesca que utilizam o arrasto para capturar espécies como o bacalhau ou a arinca podem destruir corais de água fria e campos de esponjas e perturbar o equilíbrio natural que torna possível a vida neste ambiente inóspito.

Uma expedição para documentar a vulnerabilidade do Árctico

O navio da Greenpeace “Esperanza” está no Árctico ao serviço de uma expedição científica que tem por objectivo analisar e documentar as maiores ameaças aos ecossistemas da região: a acidifcação dos oceanos, o degelo da capota polar e as actividades extractivas, entre elas a pesca destrutiva.

Para estudar a acidificação dos oceanos, a Greenpeace está a colaborar com o Instituto Alemão para a Pesquisa Marinha - IFM-GEOMAR (Institut fur Meereskunde (IFM) e o Research Center for Marine Geosciences) na colocação de nove ”mesocosmos”.  Estas estruturas tubulares servem para criar colunas de água independentes do resto do mar, as quais serão expostas aos níveis de CO2 previstos para meados do próximo século, produzindo diferentes níveis de acidificação na água. Os cientistas irão depois analisar os efeitos químicos e biológicos da acidificação da água destas colunas e tentar prever as consequências do aumento do nível de  CO2 na atmosfera no delicado ecossistema da região.

Mapa da expedição Árctico sob Pressão
Expedição Árctico Sob Rressão - Rota do Esperanza

A outra vertente do trabalho no navio vai centrar-se nos impactos da pesca no Árctico. A pesca de arrasto é uma técnica altamente destrutiva para os habitats do fundo dos oceanos e já é bastante utilizada no Mar de Barents,  cujas pescarias são geridas pela Comissão Conjunta para a Pesca da Noruega e Rússia e fiscalizadas pela Noruega. No Mar de Barents encontra-se o maior stock de bacalhau do Atlântico e um dos últimos em bom estado. Anualmente são pescadas nestas águas aproximadamente 500.000 toneladas de bacalhau e 200.000 toneladas de arinca.  No entanto, alguns dos arrastões que pescam neste mar estão a aproveitar o crescente recuo do gelo para venturar-se a Norte de Svalbard, uma área sem qualquer tipo de gestão, para pescar bacalhau e arinca. O Esperanza vai recolher informação sobre estes navios, documentar a biodiversidade marinha da região e os efeitos da pesca de arrasto na mesma. A expedição utilizará um veículo submarino operado remotamente para recolher imagens do fundo do mar e para procurar habitats vulneráveis tal como habitats danificados pela pesca de arrasto. A informação recolhida nesta expedição será entregue a cientistas que estão a trabalhar no mapeamento do Oceano Árctico.

 

O Bacalhau no Árctico

O bacalhau do stock do Nordeste Árctico e o mais consumido em Portugal vive principalmente no Mar de Barents, migrando entre as zonas costeiras e as águas mais frias a norte, perto da ilha de Svalbard. Este é o último dos grandes bancos de bacalhau do Atlântico dos tempos glórios da pesca e comércio desta espécie quando os descobridores de terras longínquas como a Terra Nova no Canadá ainda podiam afirmar que bastava introduzir um cesto na água para recolher dezenas de quilos de bacalhau.

Com a maioria dos 16 stocks de bacalhau do Atlântico esgotados ou à beira do esgotamento, só no Mar de Barents é que o bacalhau ainda é um negócio florescente.

Mas nem tudo está bem nestas águas, apesar das quotas enormes que a Noruega e a Rússia têm conseguido fixar nos últimos anos. Por um lado, o Mar de Barents sofre da pressão dos arrastões, que constituem 30 a 40% das pescarias na zona e que causam a destruição continuada do fundo marinho par além de uma elevada captura acidental de outras espécies ameaçadas como o bacalhau costeiro da Noruega, o alabote da Gronelândia e os peixes-vermelhos. Por outro lado, as alterações climáticas estão a provocar o aquecimento das águas dos oceanos, a mudança de correntes e o gradual degelo da calota polar, incentivando o bacalhau do Mar de Barents a venturar-se mais a norte. Com o Mar do Árctico mais navegável do que nunca e sem regulamentação que os impeça, arrastões da Rússia e de outros países estão a seguir os passos do bacalhau, ameaçando com o seu equipamento altamente destrutivo um ecossistema até agora mantido pristino e espécies nunca antes pescadas como o bacalhau polar.

Mapa do oceano Árctico
Oceano Árctico

Qual é a solução para o Árctico?

Até que seja negociado e implementado um tratado multilateral que garanta a protecção do Oceano Árctico, em particular das áreas que historicamente estavam  protegidas pelo gelo, os oito países envolvidos (Conselho do Árctico) devem por fim à destruição dos habitats estabelecendo uma moratória que impeça a expansão da actividade industrial na area.

Portugal tem a sua quota  parte de responsabilidade na protecção do futuro desta região, uma vez que existem 8 navios portugueses a pescar na região. Por outro lado, o nosso país é o maior consumidor per capita de bacalhau do mundo.

Em Portugal os supermercados são responsáveis pela comercialização de 70% do pescado. A sua grande capacidade de influenciar o mercado confere-lhes a responsabilidade de garantir que não estão a incentivar a pesca destrutiva, recusando-se a comprar e a vender bacalhau capturado através da pesca de arrasto, neste momento o único método de pesca utilizado na região do Árctico.

A pesca excessiva já foi responsável noutras partes do mundo pelo desaparecimento não só de ecossistemas como de indústrias pesqueiras. Ainda estamos a tempo de impedir que aconteça o mesmo a norte do Mar de Barents. Pois o que quer que aconteça nos mares polares terá consequências que se farão sentir em todo o planeta.

A Greenpeace está a fazer campanha para que 40% dos oceanos sejam declaradas reservas marinhas e que as actividades de pesca sejam  sustentáveis. Uma rede de zonas protegidas é o primeiro passo para recuperar a saúde dos oceanos e das reservas de peixe.

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Será que ainda podemos comer bacalhau?

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