Greenpeace alerta para os perigos da pesca de profundidade com apoio de ONGA portuguesas

Comunicado de imprensa - 16. Outubro, 2009
Organizações não-governamentais de ambiente (ONGA) em Portugal lançaram hoje, em conferência de imprensa, um apelo conjunto ao Governo português para apoiar o fim da pesca destrutiva em águas internacionais. Ao mesmo tempo, a Greenpeace deu início à campanha de sensibilização Oceanos em Perigo que vai correr o país, entre 16 e 29 de Outubro.

A pesca de profundidade em alto mar é uma das práticas mais destrutivas que existe e representa, hoje em dia, a maior ameaça à biodiversidade dos oceanos profundos. Aproximandamente 98% da vida dos oceanos vive nas suas profundezas. No entanto, basta uma passagem de uma rede de arrasto para deixar um monte marinho praticamente destituído de vida.

“A pesca em alto mar é uma indústria pequena, que emprega cerca de 1.000 a 2.000 pessoas a nível mundial e que fornece um mercado muito restrito. É impossível justificar tamanha destruição para alimentar um sector que não representa mais de 0,1% do valor global da pesca”, afirmou Lanka Horstink, coordenadora da campanha de oceanos da Greenpeace em Portugal.

A Greenpeace e outras dez ONGA portuguesas apelaram, num comunicado conjunto entregue ao Governo, a que Portugal subscreva medidas que assegurem a protecção efectiva dos ecossistemas marinhos vulneráveis (e.o. montes submarinos, corais de água fria e fontes hidrotermais) dos efeitos de artes de pesca de profundidade destrutivas em águas internacionais. Este é um dos tópicos em discussão na próxima sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, que irá a decorrer em Novembro (1).

Portugal é o oitavo país do mundo mais activo nesta prática de pesca, mas é também um dos mais bem posicionados estrategicamente para liderar a preservação dos oceanos. Desde 2006, que organizações não-governamentais de ambiente e cientistas de todo o mundo alertam para as consequências dramáticas da devastação associada à pesca de profundidade em alto mar (2).

“Se continuarmos a este ritmo, nas próximas décadas poderemos ver desaparecer a maior parte dos habitats do mar profundo. Esta situação não só ditaria o fim da indústria de pesca global, como representaria um golpe terrível para a humanidade”, continuou Lanka Horsink.

Este alerta conjunto, dá assim início à campanha de sensibilização “Oceanos em Perigo: No fundo do mar, nem tudo o que vem à rede é peixe” da organização ambientalista Greenpeace (3). A campanha, que visa agitar o mercado de peixe português e informar os consumidores sobre a destruição associada ao consumo de espécies de peixe de profundidade, vai correr Portugal de norte a sul do país com actividades de sensibilização e uma exposição com imagens das criaturas misteriosas que habitatam as profundezas dos oceanos.

“Quando os políticos e a indústria permanecem superficiais ao problema, é necessário pressionar outras  vozes influentes a usar o seu poder económico para defender os nossos oceanos, neste caso os retalhistas”, conclui Lanka Horstink.

A Greenpeace está em Portugal a fazer campanha para que as grandes superfícies, responsáveis por 70% do peixe que se vende em Portugal, assumam um papel relevante na protecção dos oceanos. Durante a tour a Greenpeace pede aos retalhistas que retirem das suas prateleiras as espécies de peixe de profundidade que se encontram à venda no mercado português (4).

Comunicado conjunto das ONGA para o Governo:
http://www.greenpeace.org/portugal/comunicados/proteccao-ecossistemas-mar-profundo

Roadtour Oceanos em Perigo da Greenpeace em Portugal:
http://www.greenpeace.org/portugal/participa/oceanos-em-perigo/

Notas ao editor:


(1) Em 2006, a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) acordou uma resolução para que fossem dados, até Dezembro de 2008, passos concretos para proteger os ecossistemas marinhos vulneráveis, inclusive promover avaliações de impacto ambiental e fechar áreas de alto mar para evitar impactos significativos. O documento, conhecido como a Resolução 61/105, pede aos governos com frotas de alto mar e Organizações de Adminstração Regional de Pescas (RFMOs) para tomarem medidas imediatas de forma a administrar os stocks de peixe de maneira sustentável, proteger os ecossistemas marinhos vulneráveis de práticas de pesca destrutivas - incluindo montes submarinos, fontes hidrotermais e corais de água fria - e assegurar a sustentabilidade a longo prazo dos stocks de peixe de águas profundas. Quase três anos depois, estes países continuam sem implementar devidamente as medidas contidas na resolução: não foram feitas avaliações reais dos impactos ambientais, como requisitado pelo documento, e continuam sem ser tomadas medidas efectivas para evitar impactos adversos em ecossistemas vulneráveis ou espécies de águas profundas.

Resolução 61/105 da Assembleia Geral das Nações Unidas:
http://daccessdds.un.org/doc/UNDOC/GEN/N06/500/73/PDF/N0650073.pdf?OpenElement

Relatório da DSCC sobre a implementação das cláusulas da Resolução 61/105 da AGNU para a gestão da pesca de profundidade em alto mar: http://www.savethehighseas.org/publicdocs/DSCC_report_12June09_web.pdf

(2) A Coligação de Conservação dos Mares Profundos (Deep Sea Conservation Coalition - DSCC), fundada em 2004 por um grupo de organizações não-governamentais (ONGs), tem feito campanha para assegurar uma moratória sobre o arrasto de profundidade em alto mar através das Nações Unidas.

Em 2006, 1.452 cientistas marinhos de 69 países assinaram uma declaração a expressar profunda preocupação pelo facto de “actividades humanas, em particular o arrasto de profundidade, estarem a causar danos sem precedentes às comunidades de corais e esponjas de profundidade em plateaus e às  encostas continentais, montanhas e cristas médio-oceânicas”. Nunca antes um número tão grande de cientistas marinhos se havia debruçado sobre um assunto ambiental tão específico.

Deep Seas Conservation Coalition:
http://www.savethehighseas.org/

(3) Esta iniciativa da Greenpeace foi lançada em Paris no passado dia 30 de Setembro e passou já por diversas cidades em França, antes de chegar a Portugal e Espanha - os três países europeus mais activos na pesca de profundidade em alto mar.

AFP - 30 de Setembro de 2009 (em francês)
http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5h_E90_OqWLv7PezUf9pvlakAXZ-g

(4) Espécies de peixe de profundidade prioritárias à venda no mercado português:

  • Tamboril - Tamboril preto/ibérico (Lophius budegassa), Lophius piscatorius
  • Alabote da Gronelândia - Reinhardtius hippoglossoides
  • Peixes Vermelhos - e.o. Cantarilho do Norte (Sebastes marinus), Peixe-vermelho-da-fundura (Sebastes mentella), Peixe-vermelho do Atlântico Noroeste (Sebastes fasciatus)
  • Peixe Espada Preto - Aphanopus carbo
  • Merluza Negra/Marlonga Negra - Dissostichus eleginoides
  • Tubarões de profundidade - e.o. Lixa de escama (Centrophorus squamosus), Xara preta/Cação galhudo/Tubarão português (Centroscymnus coelolepis), Quelme/Lixa-de-rei (Centrophorus granulosus)

Contactos para mais informações:


Lanka Horstink, coordenadora da campanha dos oceanos da Greenpeace em Portugal, 910 631 664
Lara Teunissen, coordenadora de comunicação da Greenpeace em Portugal, 917 216 829 ou +31 6 4616 2041,  

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