Oceanos - O Preço da Destruição

Página - 2. Julho, 2009

Nas últimas décadas, temos assistido à devastação rápida da vida marinha do nosso Planeta - ¾ dos stocks mundiais de peixe já estão explorados, sobreexplorados ou esgotados; 88% dos peixes de águas comunitárias são vítimas da sobrepesca e aproximadamente 90% dos stocks de peixes predadores de grande dimensão, como o atum, peixe espada, bacalhau e linguado, já foram capturados.
A exploração desenfreada e insustentável dos mares e oceanos poderá conduzir, dentro de pouco anos, a uma subida inigualável do preço do peixe e transformar este recurso, tão mais valioso quanto mais escasso, numa relíquia rara a que poucos vão poder aceder.
O preço desta destruição sem precedentes é alto. Milhões de pessoas em todo o mundo correm o risco de ver desaparecer os recursos de que dependem - e os portugueses não são excepção. Mas ainda é possível inverter esta tendência. Os estudos científicos mostram que, através de uma gestão sustentável, os stocks de peixe considerados hoje sobreexplorados ou quase esgotados, têm capaciadade de recuperar.

Há séculos atrás, os portugueses navegaram os mares, enfrentaram os fantasmas míticos das águas desconhecidas e descobriram o caminho para novos mundos. Hoje, o monstro das águas é conhecido e real - são as grandes indústrias da pesca que ameaçam a sobrevivência dos oceanos. Se um dia fomos pioneiros na descoberta das maravilhas marinhas, temos agora a oportunidade de sermos líderes na sua preservação.

Jerónimo Martins - Líder de Mercado, Não de Soluções   

Todos os anos são gastos, em Portugal, mais de 1.047 milhões de euros em peixe, dos quais mais 70% são gastos nas grandes superfícies. A Greenpeace defende que o poder económico das grandes cadeias de supermercados lhes confere a responsabilidade de proteger os recursos naturais que comercializam. Estes grupos têm o poder para alterar a lógica de uma indústria que se está pescar à extinção, defendendo assim as pequenas indústrias de pesca locais e sustentáveis.

Enquanto os grupos Lidl, Sonae, Os Mosqueteiros e Aunchan já estão a dar passos para uma adoptar uma postura responsável em relação aos produtos que vendem, o grupo Jerónimo Martins, considerado líder da distribuição alimentar em Portugal - com mais de 350 lojas de pequena, média e grande dimensão por todo o país - continua a ignorar a sua responsabilidade. Em Maio deste ano, a Greenpeace lançou o segundo ranking de supermercados portugueses que coloca o grupo Jerónimo Martins em último lugar, com o Pingo Doce e Feira Nova a registarem a piores resultados.

Contrariando o princípio de transparência do grupo, o Jerónimo Martins não disponibiliza publicamente nem responde aos pedidos para disponibilizar a sua política de compra e venda de peixe. Face à ausência de informações públicas, a Greenpeace investigou os supermercados do grupo e concluiu que:

  • os supermercados Pingo Doce e Feira Nova vendem espécies de peixe presentes na Lista Vermelha da Greenpeace, que estão ameaçadas de extinção e/ou são capturadas através de métodos destrutivos. Entre elas, Bacalhau do Atlântico, Linguado, Tamboril, Salmão, Pescadas, Camarões, Peixe Espada Branco, Solha, Atum, Peixe Vermelho, Raia e Tubarão.
  • as etiquetas dos produtos de peixe (congelados, enlatados e fresco) têm pouca ou nenhuma informação que possibilite o consumidor de fazer uma escolha responsável. Algumas informações indispensáveis para uma compra consciente são: os nomes da espécie (comum e científico), zona FAO e stock de proveniência (data, navio e método de captura).

Também contrariando o mesmo princípio de transparência e informação ao consumidor, nenhum balcão de peixe dos supermercados do grupo soube fornecer informações sobre as espécies de peixe à venda, a sua origem e método de captura, quando inquirido por voluntários e consumidores interessados.
Por fim, a Greenpeace considera irónico que o grupo que diz apostar mais na formação dos seus funcionários e programas de responsabilidade social acreditando que “a prática deste modelo de gestão é a única maneira das empresas garantirem o seu lugar no futuro (2)” seja precisamente o que se negou até hoje a entrar em diálogo e ainda não se comprometeu em adoptar práticas de comercialização de peixe que garantam a sustentabilidade dos recursos marinhos. 

Pedidos da Greenpeace ao grupo Jerónimo Martins  

O grupo de distribuição alimentar Jerónimo Martins deve reconhecer de imediato e por escrito a sua responsabilidade na preservação dos oceanos. O presidente do grupo Jerónimo Martins, Luís Palha da Silva, deve ainda concordar em reunir com a Greenpeace e passar das palavras à acção, através:

  • do compromisso em subscrever a 5 princípios de uma política sustentável de compra e venda de peixe(3) Entre eles, o suspender a venda de espécies de peixe ameçadas, apoiar a comercialização das espécies mais sustentáveis, melhorar a rastreabilidade e etiquetagem dos produtos, promover e implementar práticas sustentáveis.
  • do retirar imediato das prateleiras de 3 espécies da Lista Vermelha de Peixes da Greenpeace (4);
  • do compromisso em rever todas as espécies de peixe que comercializa, de acordo com os princípios adoptados para uma política sustentável de compra e venda de peixe sustentável, até meados de 2010. 

Histórico de contactos da Greenpeace com o grupo Jerónimo Martins

No lançamento do 2º ranking de supermercados da Greenpeace, em Maio deste ano, o grupo Jerónimo Martins declarou à imprensa estar disponível para dialogar com qualquer organização não-governamental. No entanto, o grupo continua sem responder às diversas tentativas de contacto por parte da responsável pela campanha de mercados para peixe sustentável da Greenpeace em Portugal.

Maio - Junho 2008 :Greenpeace contacta superrmercados portugueses
Greenpeace entra em contacto com as cinco principais cadeias de distribuição alimentar portuguesas - Auchan, Jerónimo Martins, Lidl, Os Mosqueteiros e Sonae - para obter informações sobre as políticas de compra e venda de peixe dos supermercados. O grupo Jerónimo Martins não responde.

Julho - Agosto 2008: Greenpeace convida supermercados para workshop sobre Peixe Sustentável
Greenpeace desenvolve workshop sobre Peixe Sustentável em que apresenta as ameaças que os oceanos enfrentam e oferece soluções para garantir o futuro dos recursos marinhos do nosso planeta. Os cinco principais grupos de distribuição alimentar são convidados a participar. O grupo Jerónimo Martins não responde ao convite. Lidl entra em contacto com a organização.

Agosto 2008: Greenpeace lança 1º Ranking de Supermercados em Portugal
Nenhum supermercado português apresenta uma política de peixe sustentável. O grupo Jerónimo Martins fica em segundo lugar no ranking, embora com uma cotação muito fraca - 3,12% - e muito longe dos níveis mínimos de sustentabilidade.

Novembro 2008: Greenpeace questiona origem do peixe vendido nos supermercados
Greenpeace inquere supermercados do ranking sobre a proveniência do peixe que comercializam. Os supermercados dos grupos Auchan, Sonae e Lidl respondem que não compram peixe de nenhum barco ou empresa presente na lista negra de navios da Greenpeace ou na lista oficial da Comissão Europeia. O grupo Jerónimo Martins permanece em silêncio.

Janeiro 2009: Greenpeace entra novamente em contacto com os supermercados
A Greenpeace volta a contactar os supermercados portugueses para agendar uma reunião e debater formas de desenvolver políticas de peixe sustentáveis. Os supermercados do grupo Jerónimo Martins - Pingo Doce e Feira Nova - não respondem.

Fevereiro – Abril 2009: Greenpeace analisa desenvolvimentos dos supermercados
A Greenpeace volta a inquirir os supermercados do ranking para actualizar informações sobre as políticas de compra e venda de peixe. Todos os supermercados são informados que depois de analisados, os dados recolhidos vão ser usados para o segundo ranking.

Fevereiro 2009: Greenpeace contacta Jerónimo Martins
A Greenpeace entra em contacto com a responsável pelo departmento de comunicação do grupo Jerónimo Martins, que promete analisar e responder ao inquérito enviado. A Greenpeace nunca obteve resposta.

Março 2009: Ciberactivistas contactam Jerónimo Martins e Os Mosqueteiros
Ciberactivistas da Greenpeace expressam preocupação aos grupos Jerónimo Martins e Os Mosqueteiros pelo facto das suas políticas de compra e venda de peixe continuarem insustentáveis. Pedem ainda aos dois grupos transparência (tornar públicas as suas políticas de compra e venda de peixe) e compromisso em assumir um papel activo na proteção dos oceanos.

Março 2009: Greenpeace contacta responsável por compra de peixe do Jerónimo Martins
A Greenpeace tenta contactar responsável pela compra de peixe do grupo Jerónimo Martins para obter respostas ao inquérito que lhes foi enviado, mas sem êxito.

Abril de 2009: Nova tentativa em contactar responsável pela compra de peixe do grupo
A Greenpeace volta a contactar responsável pela compra de peixe no grupo Jerónimo Martins - mais uma vez sem êxito.

Maio de 2009: 2º Ranking de Supermercados da Greenpeace
A Greenpeace lança o 2º Ranking de Supermercados. Pingo Doce (grupo Jerónimo Martins) desce de segundo para último lugar no ranking, com uma classificação de 6%.

Notas:

(1) Segundo Ranking de Supermercados da Greenpeace (Maio 2009): http://www.greenpeace.org/portugal/ranking2
(2) Em apresentação institucional do grupo Jerónimo Martins, disponível aqui: http://www.jeronimomartins.com/pt/grupo/responsabilidade_social.html
(3) Modelo de Política de Peixe Sustentável: http://www.greenpeace.org/portugal/ranking2/modelo-politica-retalhistas
(4) Lista Vermelha de Peixes da Greenpeace: http://www.greenpeace.org/portugal/lista-vermelha