Adversários unidos contra a Bayer

Notícia - 19 - mar - 2009
O antes improvável consenso entre ambientalistas, produtores rurais e técnicos da Embrapa contra a variedade geneticamente modificada de arroz da Bayer coloca CTNBio em xeque e votação é adiada.

O arroz transgênico da Bayer ameaça a biodiversidade brasileira e também o mercado do país, que tem planos de exportar o produto.

Quando o perigo é grande e iminente, até mesmos velhos adversários se juntam para evitar o pior. É o que vem acontecendo no caso do arroz transgênico da Bayer, em discussão na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). O improvável consenso de opinião entre entidades ambientalistas, de agricultura familiar e defesa do consumidor com grandes produtores rurais e técnicos da Embrapa - históricos antagonistas quando o assunto são organismos geneticamente modificados - fez os membros da Comissão agirem com mais prudência na discussão sobre o arroz da Bayer.

Em menos de 15 minutos de discussão durante a reunião plenária da CTNBio, realizada dia 19, dia seguinte à audiência pública em Brasília, os membros da CTNBio decidiram adiar a votação do pedido de liberação do arroz transgênico até que mais pareceres técnicos sejam apresentados. Esse cuidado contrasta com a atuação da CTNBio nos últimos anos, em que aceitou todos os pedidos de liberação de transgênicos feitos pela indústria, carimbando aprovações sem levar em conta as muitas evidências negativas levantadas contra os transgênicos. Segundo o presidente da Comissão, Walter Colli, o arroz transgênico da Bayer só entrará novamente na pauta de votação no segundo semestre do ano.

O ponto de união entre entidades tão diversas como Greenpeace, Embrapa e Federarroz (que representa arrozeiros do Rio Grande do Sul, maior produtor de arroz do Brasil) é o perigo de contaminação das lavouras convencionais e/ou orgânicas de arroz pela variedade transgênica. Além disso, há o risco de surgimento de ervas daninhas mais resistentes. Isso tudo coloca em xeque tanto a produção agrícola como a agrobiodiversidade da região.

"O debate feito na audiência pública deixou evidente que a tecnologia aplicada pela Bayer no arroz tem mais potencial de gerar novos e irreversíveis problemas do que resolver os atuais problemas enfrentados pelos produtores", afirma Gabriel Fernandes, da AS-PTA.

Em pouco mais de uma semana, o Greenpeace reuniu mais de 15 mil assinaturas de pessoas contrárias à liberação do arroz transgênico da Bayer no país. Participe também, assine aqui a nossa petição.

Nós acompanhamos tanto a audiência pública como a sessão plenária da CTNBio e relatamos ao vivo o que aconteceu nessas reuniões pelo  Twitter. Clique aqui e saiba mais detalhes.

Mesmo tendo a CTNBio se manifestado contra a análise de aspectos de mercado, seus membros devem levar em consideração em seus votos o fato de que a liberação do arroz transgênico pode trazer incontáveis prejuízos aos agricultores brasileiros, que estão de olho no comércio exterior. E quando um técnico da Embrapa admite publicamente, como fez Flávio Braseghello na audiência pública de quarta-feira, que o arroz geneticamente modificado representa uma ameaça à segurança alimentar do país e que, "uma vez liberado no meio ambiente, não há controle, não há possibilidade de se fazer recall", certamente cada membro da CTNBio deve estar pensando neste momento: "a quem interessa a liberação desse arroz?"

O caso de contaminação ocorrida nos Estados Unidos em 2006 é emblemático do que pode acontecer no Brasil. Se lá os arrozeiros perderam muito dinheiro e tempo por conta de problemas ocorridos em campos experimentais de arroz da Bayer - teoricamente áreas com monitoramento rigoroso -, os produtores brasileiros têm razões de sobra para estarem preocupados já que uma vez liberado para plantio comercial, o arroz transgênico pode causar um estrago ainda maior.

"Não há como separar a biossegurança da realidade no campo. A CTNBio deve levar em consideração casos passados de contaminação, e não fechar os olhos para os efeitos da eventual liberação comercial do arroz transgênico", afirma Rafael Cruz, coordenador da campanha de Transgênicos do Greenpeace.