Debate e protesto nas audiências públicas sobre a usina nuclear Angra 3

Notícia - 24 - mar - 2008
Série de reuniões para discutir a retomada do programa nuclear brasileiro começou nesta segunda-feira em Angra dos Reis (RJ).

Ativistas protestam contra a construção de Angra 3 durante audiência pública realizada na cidade de Angra dos Reis (RJ).

Depois desta semana, ninguém olhará para Angra 3 com os mesmos olhos. A usina, símbolo da retomada do programa nuclear brasileiro, será debatida à exaustão em uma série de audiências públicas que discutirão seu licenciamento ambiental. O Greenpeace estará presente em todas elas, a começar pelo encontro desta terça-feira (25/03) em Angra dos Reis. Na quarta-feira (26/03), a audiência será em Paraty (RJ); quinta-feira (27/03), Rio Claro (SP); e na sexta-feira, em Ubatuba (SP) - sempre às 18 horas.

Assista ao vídeo:

Na audiência desta terça-feira, além de colaborar com dados e questionamentos, nós promoveremos um ato para lembrar vítimas de acidentes nucleares, com a presença de Odesson Alves Ferreira, presidente da Associação de Vítimas do Acidente com o Césio -137, de Goiânia.

Acreditamos que as audiências são fundamentais para ampliar o debate sobre a construção de Angra 3, que já custou cerca de R$ 20 bilhões aos cofres públicos e custará pelo menos outros R$ 7,2 bilhões. E também para discutir questões cruciais como a falta de depósitos definitivos para o armazenamento de rejeitos radioativos de média e alta atividade e os riscos de acidentes, que ainda não foram respondidas a contento pelo governo brasileiro.

Veja asfotos da audiência em Angra dos Reis:

"Vamos levantar estas e outras perguntas que seguem sem resposta nas audiências. A Eletronuclear deve cumprir todos os preceitos legais e se responsabilizar pelos passivos da usina", afirma Beatriz Carvalho, coordenadora da campanha antinuclear do Greenpeace. "E a participação do Odesson, que sentiu na pele os terríveis impactos de um acidente radioativo, é uma oportunidade de refletir sobre os perigos da energia nuclear."

Beatriz cita ainda estudo realizado pela Universidade de Mainz, na Alemanha, que comprova que o risco de câncer em crianças é muito superior em áreas próximas a usinas nucleares. O pior acidente nuclear da história, ocorrido em 1986 na usina de Chernobyl, na ex-URSS, afetou milhões de pessoas na Ucrânia e também Polônia, Escandinávia, Finlândia e Suécia. A totalidade das conseqüências sobre a saúde humana nunca será conhecida, mas é possível estimar que entre 5 e 8 milhões de pessoas tenham sido afetadas pela explosão do reator, e sofram com câncer de tireóide, leucemia e outros tipos de câncer, além de problemas respiratórios, digestivos, reprodutivos, etc.

"Antes que a construção de outra usina nuclear no Brasil seja cogitada, é imprescindível que sejam realizados estudos independentes para avaliar as reais condições de saúde dos trabalhadores e da população que mora na região de Angra dos Reis", continua Beatriz.

Este novo ciclo de audiências públicas foi marcado por força judicial. As audiências realizadas em 2007 pela Eletronuclear foram suspensas por determinação da Justiça Federal de Angra dos Reis que aceitou denúncias de ilegalidades apontadas pelo Ministério Público Federal. Foi constatada a falta de convocação popular com antecedência mínima de 45 dias após a publicação do edital sobre as audiências no Diário Oficial da União. Reuniões desta natureza também necessitam da publicação do edital de convocação em jornais de grande circulação e que o Estudo de Impacto Ambiental e seu respectivo Relatório (EIA/RIMA) estejam previamente disponíveis para consulta pública nos escritórios do IBAMA. Nenhuma dessas exigências foi cumprida.

"Também vamos aproveitar as audiências públicas para divulgar dados que comprovam a inviabilidade econômica do empreendimento", avisa Beatriz Carvalho.

Divulgado na segunda-feira com um protesto na sede da Eletrobrás (no Rio de Janeiro), o relatório Elefante Branco: os verdadeiros custos da energia nuclear, traz uma análise técnica da ginástica financeira utilizada pelo governo federal para apresentar Angra 3 como um projeto economicamente viável. O relatório revela que Angra 3 custará, além dos R$ 7,2 bilhões oficialmente divulgados pelo governo, pelo menos mais R$ 2,372 bilhões por conta dos juros sobre o capital imobilizado para a obra. O detalhamento dos números mostrou que o governo, para obter a tarifa de R$ 138, 20/MWh para a energia gerada por Angra 3, aplicou taxas de retorno para o investimento entre 8% e 10%, muito abaixo da prática de mercado (12%-18%), transferindo o prejuízo para o Tesouro Nacional. As baixas taxas de retorno assumidas para o projeto podem acarretar perdas financeiras médias de até R$ 4 bilhões, valor dos subsídios não declarados de Angra 3.

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