Greenpeace denuncia presença de substâncias tóxicas em produtos infantis

Notícia - 6 - jun - 2001

O Greenpeace lançou hoje o relatório "PVC no mundo infantil" (1), com dados que acusam a presença de uma gama de aditivos tóxicos em produtos de uso infantil e doméstico. Laboratórios independentes (2) realizaram análises em 54 produtos de plástico PVC (policloreto de vinila) (3) - como acessórios, mobiliários e pisos - em 20 nacionalidades diferentes, incluindo o Brasil.

A variedade de produtos de PVC com aditivos tóxicos presente nas residências expõe as famílias, diariamente, a múltiplas fontes de contaminação. Propostas para limitar a exposição aos componentes tóxicos começam a ser apresentadas em todo o mundo, mas estão baseadas na tentativa de calcular o grau de exposição que seria "seguro" para as crianças.

"Calcular o risco de exposição de crianças aos aditivos perigosos do PVC é uma estratégia de grande risco. Todas as tentativas de formular regulamentações neste sentido falharam e é impossível repetir as técnicas utilizadas de forma confiável", diz Ruth Stringer, cientista do Greenpeace. "A exposição de crianças e adultos a estas substâncias é totalmente desnecessária e pode ser evitada. O bom-senso e a precaução recomendam a eliminação total destes compostos como única forma de proteger nossas crianças".

Os compostos encontrados nos produtos testados são extremamente tóxicos, incluindo ftalatos, compostos organo- estanhos, bisfenol-A e metais pesados, como chumbo e cádmio. Alguns dos ftalatos são apontados como causadores de câncer de fígado, danos ao rim e ao sistema reprodutivo em animais. A exposição aos organo-estanhos foram relacionadas com deficiências imunológicas e reprodutivas em animais. O bisfenol-A é uma substância química que interfere no sistema endócrino.

Amostra comprada no Brasil de garrafa térmica para mamadeiras apresentou 20% do seu peso do ftalato DEHP (4) , ou seja, a cada 100 gramas do plástico PVC contido na térmica, 20 gramas eram desta substância altamente tóxica. Por norma da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), este composto é proibido de ser empregado na fabricação de brinquedos para crianças, mas a legislação não inclui outros produtos de uso infantil. Amostras de cortinas protetoras solares para veículos apresentaram 24% do seu peso de DEHP. Foram encontrados níveis de chumbo, usados como aditivos para PVC, em brinquedos de crianças que ultrapassam o máximo permitido pela ABNT.

A maioria dos produtos testados estão disponíveis e podem ser adquiridos em lojas populares. Os testes foram realizados em uma pequena amostra das centenas de produtos de PVC, apresentando aditivos perigosos em produtos de marcas conhecidas, como a brasileira Neopan, e outras como Armstrong, Gerber, Disney, Toys 'R Us e Safety 1st.

Apenas duas empresas produzem resina de PVC no País: a belga Solvay Indupa do Brasil (5), que detém 40% do mercado, e a Trikem S.A., controlada pelo grupo empresarial brasileiro Odebrecht, que domina os outros 60%. A resina de PVC é a matéria-prima para a fabricação de todos os produtos plásticos de PVC. O que difere uma calça plástica para bebês de uma escova de dentes são as quantidades de aditivos perigosos. Para evitar danos ao meio ambiente e à saúde humana, o Greenpeace exige um plano de eliminação do plástico PVC. No Brasil, o Projeto de Lei 4290 da Câmara Federal (6) proíbe a utilização de PVC em brinquedos, produtos e artigos destinados ao público infantil.

"As evidências contra esse plástico nocivo são avassaladoras. Da produção, passando pelo uso até a disposição final, o PVC causa sérios danos ambientais e apresenta riscos para a saúde pública", diz Karen Suassuna, coordenadora da campanha de Substâncias Tóxicas do Greenpeace. "A responsabilidade de eliminar esse material compete aos produtores e fabricantes do PVC. No entanto, o governo brasileiro precisa implementar medidas eficazes para banir esse plástico imediatamente".

 (1) Relatório: "Compostostóxicos no mundo infantil: uma investigação sobre os produtos de plástico PVC", por Ruth Stringer, Paul Johnston e Bea Erry, Laboratórios de Pesquisa do Greenpeace, Universidade de Exeter, Maio de 2001.

(2) Os produtos de PVC foram testados pelos laboratórios STAT, nos EUA, e GALAB, na Alemanha. As amostras dos produtos foram obtidas em vinte países: Áustria, Brasil, Canadá, Chile, China, Dinamarca, Espanha, EUA, Filipinas, França, Holanda, Hungria, Itália, Japão, México, Nova Zelândia, Reino Unido, República Tcheca, Rússia e Tailândia. As amostras representam produtos desenvolvidos especificamente para o público infantil ou produtos domésticos com os quais as crianças provavelmente têm contato regular e, possivelmente, prolongado.

(3) O PVC necessita de aditivos para conferir as características físicas do plástico, como maleabilidade e "maciez". A toxicidade destes aditivos perigosos é apenas parte do perigo gerado pelo PVC. O ciclo de vida deste produto tem sérias conseqüências ambientais e para a saúde. Juntas, a fabricação e disposição do PVC representam uma das principais fontes de dioxina, uma substância que comprovadamente causa câncer e uma das toxinas mais perigosas conhecidas pelo homem.

(4) O ftalato DEHP é tóxico para o sistema reprodutivo masculino, classificado pelo IARC (International Agency for Research on Cancer) e pela EPA (Environment Protection Agency-EUA) como suspeito causador de cancêr em humanos.

(5) No Brasil, o Greenpeace denunciou a Solvay por contaminar o meio ambiente com mercúrio e organoclorados. Amostras foram coletadas nos efluentes de Rio Grande, adjacente à unidade que a empresa mantém em Santo André (SP). A organização ambientalista também denunciou que a planta da Solvay no Brasil foi responsável pelas dioxinas encontradas no leite alemão, em março de 1998. As investigações conduzidas pelo Ministério Público brasileiro terminaram com a assinatura de um acordo através do qual a empresa se comprometeu com a descontaminação do leito do rio e de seu depósito de resíduos tóxicos.

(6) Deputada Iara Bernardi, autora do Projeto de Lei 4290, que proíbe o uso de PVC em brinquedos e artigos infantis - (61) 318.5360

(7) Veja também as alternativas de uso de PVC: www.greenpeace.org/~toxics/pvcdatabase

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