{"id":16020,"date":"2020-04-17T17:38:40","date_gmt":"2020-04-17T20:38:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/?p=16020"},"modified":"2021-12-01T09:30:52","modified_gmt":"2021-12-01T12:30:52","slug":"covid-19-acentua-traumas-vividos-pelos-povos-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/blog\/covid-19-acentua-traumas-vividos-pelos-povos-indigenas\/","title":{"rendered":"Covid-19 acentua traumas vividos pelos povos ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Com alguns dos piores indicadores de sa\u00fade do pa\u00eds, \u00e9 preciso que o Estado dialogue com estas popula\u00e7\u00f5es para evitar o agravamento de uma realidade, em muitos casos, j\u00e1 dram\u00e1tica<\/h4>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large  caption-style-blue-overlay caption-alignment-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/04\/8213da0f-abre_tiago-miotto_cimi-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16021\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/04\/8213da0f-abre_tiago-miotto_cimi-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/04\/8213da0f-abre_tiago-miotto_cimi-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/04\/8213da0f-abre_tiago-miotto_cimi-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/04\/8213da0f-abre_tiago-miotto_cimi-510x340.jpg 510w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/04\/8213da0f-abre_tiago-miotto_cimi.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Os povos ind\u00edgenas apresentam alguns dos piores indicadores de sa\u00fade do pa\u00eds, agravados pelo racismo hist\u00f3rico e descaso das autoridades<div class=\"credit icon-left\"> \u00a9 Tiago Miotto\/Cimi<\/div><\/figcaption><\/figure>\n\n<p>\u201cOs povos ind\u00edgenas j\u00e1 passaram in\u00fameras vezes por isso que estamos passando agora. Ao longo dos \u00faltimos s\u00e9culos eles enfrentaram diversas epidemias e testemunharam centenas de milhares de mortes, al\u00e9m de outros impactos inimagin\u00e1veis para n\u00f3s, j\u00e1 que eles t\u00eam outras cosmovis\u00f5es, outros modos de experienciar a vida e a morte. Neste momento, diante da possibilidade de contamina\u00e7\u00e3o com a Covid, muitos destes traumas est\u00e3o sendo vivenciados em suas mem\u00f3rias. Por isso, \u00e9 preciso dialogar com os ind\u00edgenas, de modo a n\u00e3o tornar os atuais desafios ainda mais devastadores\u201d.<\/p>\n\n<p>O alerta da antrop\u00f3loga S\u00edlvia Guimar\u00e3es, professora da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e especialista em sa\u00fade ind\u00edgena, revela que o coronav\u00edrus potencializa ainda mais diversas vulnerabilidades impostas aos povos origin\u00e1rios do Brasil desde o violento processo de coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n<p>Segundo ela, os ind\u00edgenas vivem permanentemente em estado de alerta, n\u00e3o s\u00f3 pelo que enfrentaram no passado mas tamb\u00e9m pelas adversidades presentes nos seus cotidianos: \u201cEstes povos apresentam alguns dos piores indicadores de sa\u00fade do pa\u00eds. Chama aten\u00e7\u00e3o, especialmente, a curva de suic\u00eddio, os \u00edndices de diabetes, doen\u00e7as respirat\u00f3rias e mortalidade infantil, que \u00e9 a mais letal do Brasil\u201d. De acordo com dados preliminares da Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Sesai), considerados subestimados pelo pr\u00f3prio \u00f3rg\u00e3o, pelo menos 591 crian\u00e7as ind\u00edgenas com idade entre 0 e 5 anos foram a \u00f3bito em 2018. Esta precariedade das condi\u00e7\u00f5es de vida e do acesso \u00e0 sa\u00fade \u00e9 ainda agravada por um racismo hist\u00f3rico e pelo severo descaso das autoridades em todas as esferas p\u00fablicas com os ind\u00edgenas.<\/p>\n\n<p><strong>Muito al\u00e9m das vulnerabilidades<\/strong><\/p>\n\n<p>Uma pandemia como esta causada pela covid-19 provoca uma brusca ruptura na vida de toda a humanidade. No entanto, ela ser\u00e1 experienciada de modo particular pelos diversos grupos sociais, dependendo de um amplo leque de fatores. As medidas de preven\u00e7\u00e3o para as classes m\u00e9dias \u201cbrancas\u201d, urbanas, que podem fazer <em>home office,<\/em> por exemplo<em>,<\/em> s\u00e3o completamente diferentes das que s\u00e3o necess\u00e1rias para os mundos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n<p>Estes congregam fragilidades <a href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/pt-br\/noticias-socioambientais\/se-coronavirus-entrar-nas-aldeias-e-possivel-que-aumento-de-casos-seja-explosivo-alerta-especialista\">comuns \u00e0s popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis<\/a>, em diversos aspectos, como o social (falta de saneamento, de \u00e1gua &#8211; tratada ou n\u00e3o), <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/ecoa\/colunas\/opiniao\/2020\/04\/15\/por-que-a-covid-19-e-perigosa-para-os-povos-indigenas.htm\">o econ\u00f4mico<\/a> (impossibilidade de vender artesanato e produtos que extraem, como castanha, pimentas, cogumelos, ou que fabricam, como chocolates, e dificuldade em acessar benef\u00edcios sociais) e o geogr\u00e1fico (habitar \u00e1reas extremamente distantes e sem acesso a hospitais; e, nas cidades, morar nas periferias, tamb\u00e9m sem acesso \u00e0 rede de atendimento \u00e0 sa\u00fade).<\/p>\n\n<p>Mas al\u00e9m destes, h\u00e1 que se considerar aspectos culturais e at\u00e9 mesmo espirituais. O povo Yanomami, por exemplo, que possui um ritual funer\u00e1rio bastante espec\u00edfico,<a href=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/coronavirus-povo-yanomami-ira-questionar-na-justica-enterro-de-jovem-sem-autorizacao-dos-pais-em-roraima\/\"> decidiu questionar na Justi\u00e7a<\/a> o fato de um adolescente, v\u00edtima da Covid, ter sido enterrado sem que os pais fossem sequer informados. \u201cEsta \u00e9 a cerim\u00f4nia mais elaborada dos Yanomami. Um morto n\u00e3o pode ser enterrado, e s\u00f3 pode ser tocado pelos familiares. Ele \u00e9 cremado, suas cinzas s\u00e3o consumidas. Ele precisa alcan\u00e7ar o mundo dos mortos, onde somente os xam\u00e3s conseguem circular. Enquanto este corpo estiver pairando no mundo, porque n\u00e3o foi feita esta consuma\u00e7\u00e3o, ele estar\u00e1 perto dos seus parentes e pode levar outros com ele\u201d, explica S\u00edlvia, nos revelando uma percep\u00e7\u00e3o especial de morte, que quando desconsiderada traz consequ\u00eancias para todo o povo.<\/p>\n\n<p>Uma outra situa\u00e7\u00e3o que revela a necessidade de tratar os povos ind\u00edgenas com aten\u00e7\u00e3o especial \u00e9 apresentada em um artigo escrito pela antrop\u00f3loga e professora do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Aparecida Vila\u00e7a. Ela conta que os Wari\u2019, tamb\u00e9m chamados de Pakaa Nova, que vivem em Rond\u00f4nia, n\u00e3o compreendem, ou<a href=\"https:\/\/www.revistaserrote.com.br\/2020\/04\/a-dupla-ameaca-aos-povos-indigenas-por-aparecida-vilaca\/?fbclid=IwAR1iW-l7xu8HZ_43d3upFFzPeNTMc4okcmZ8MfsyU1JJGs6e2VgtbvcCuZo\"> n\u00e3o suportam, a ideia do distanciamento social<\/a>. Para eles, os corpos continuam se comunicando mesmo sem contato direto entre eles. Entre as d\u00e9cadas de 1950 e 1960, quando epidemias de gripe e pneumonia, dentre outras, dizimaram mais da metade da popula\u00e7\u00e3o, os Wari\u2019 consideravam que \u201cum doente abandonado, sem aten\u00e7\u00e3o, seria mais rapidamente levado para o mundo dos mortos, pois, aborrecidos com os vivos por n\u00e3o cuidarem de seus parentes, os mortos chegam para busc\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n\n<p><strong>\u201cO Estado precisa ouvir os ind\u00edgenas\u201d<\/strong><\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large  caption-style-blue-overlay caption-alignment-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/04\/5a98f1c9-guilherme-santos_sul-21.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16022\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/04\/5a98f1c9-guilherme-santos_sul-21.jpg 800w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/04\/5a98f1c9-guilherme-santos_sul-21-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/04\/5a98f1c9-guilherme-santos_sul-21-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/04\/5a98f1c9-guilherme-santos_sul-21-510x340.jpg 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>S\u00e3o muitas as vulnerabilidades impostas aos ind\u00edgenas desde o processo de coloniza\u00e7\u00e3o, dentre elas est\u00e3o a social, econ\u00f4mica e territorial<div class=\"credit icon-left\"> \u00a9 Guilherme Santos\/Sul21<\/div><\/figcaption><\/figure>\n\n<p>\u00c9 neste sentido que S\u00edlvia afirma que: \u201c\u00c9 claro que esta maneira \u2018branca\u2019 de se prevenir e as pr\u00e1ticas cotidianas de lidar com a nova realidade que esta pandemia imp\u00f5e exigem di\u00e1logo, exigem negocia\u00e7\u00e3o com os povos ind\u00edgenas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desconsiderar estas outras epistemologias [conhecimentos]. Eles precisam ser ouvidos pelo Estado brasileiro, pela Sesai. At\u00e9 mesmo porque eles podem nos apontar solu\u00e7\u00f5es e medidas de preven\u00e7\u00e3o e terap\u00eauticas, baseadas em cuidados e numa rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica com o corpo que j\u00e1 praticam, como o isolamento mesmo, praticado em diversos rituais de resguardo. A pr\u00f3pria OMS [Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade] afirma que as medidas de preven\u00e7\u00e3o e cuidados &#8211; inclusive a portaria que determina o que fazer com os corpos &#8211; devem ser ajustadas em lugares como a Am\u00e9rica Latina, em que \u00e9 sabido que as rela\u00e7\u00f5es sociais ind\u00edgenas s\u00e3o impens\u00e1veis sem a proximidade f\u00edsica, a partilha de comida e os cuidados di\u00e1rios compartilhados\u201d.<\/p>\n\n<p>Pela sua experi\u00eancia, S\u00edlvia considera que a l\u00f3gica biom\u00e9dica deve incorporar aos seus protocolos a intermedia\u00e7\u00e3o, a escuta qualificada, o acolhimento. N\u00e3o pode ser compuls\u00f3ria, violenta. \u201cOs ind\u00edgenas t\u00eam abertura para nos ouvir, para o di\u00e1logo. O mundo branco \u00e9 que acha que det\u00e9m a verdade universal. Eles, ao contr\u00e1rio, ouvem a sama\u00fama, o peixe, o rio&#8230; \u00c9 preciso levar os povos ind\u00edgenas a s\u00e9rio. \u00c9 justamente porque n\u00e3o os escutamos que estas trag\u00e9dias acontecem. As consequ\u00eancias deste nosso perverso modo de vida s\u00e3o graves\u201d, conclui S\u00edlvia.<\/p>\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 qualquer d\u00favida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 delicadeza deste momento que toda a sociedade brasileira atravessa. Neste sentido, cabe considerar a d\u00edvida hist\u00f3rica que o Estado tem com os povos origin\u00e1rios deste pa\u00eds e n\u00e3o medir esfor\u00e7os para cuidar efetivamente destas popula\u00e7\u00f5es (e de todas as popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis), com&nbsp; o respeito que elas merecem, garantindo sua sobreviv\u00eancia e bem-estar.<\/p>\n<div class=\"EmptyMessage\">Block content is empty. Check the block&#8217;s settings or remove it.<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com alguns dos piores indicadores de sa\u00fade do pa\u00eds, \u00e9 preciso que o Estado dialogue com estas popula\u00e7\u00f5es para evitar o agravamento de uma realidade, em muitos casos, j\u00e1 dram\u00e1tica<\/p>\n","protected":false},"author":28,"featured_media":16022,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ep_exclude_from_search":false,"p4_og_title":"","p4_og_description":"","p4_og_image":"","p4_og_image_id":"","p4_seo_canonical_url":"","p4_campaign_name":"Covid-19 Response","p4_local_project":"not set","p4_basket_name":"not set","p4_department":"","footnotes":""},"categories":[3],"tags":[22],"p4-page-type":[16],"class_list":["post-16020","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-proteja-a-natureza","tag-florestas","p4-page-type-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16020","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/28"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16020"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16020\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35281,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16020\/revisions\/35281"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16022"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16020"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16020"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16020"},{"taxonomy":"p4-page-type","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/p4-page-type?post=16020"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}