{"id":25586,"date":"2020-08-03T18:00:23","date_gmt":"2020-08-03T21:00:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/?p=25586"},"modified":"2021-12-01T09:30:34","modified_gmt":"2021-12-01T12:30:34","slug":"vidas-indigenas-para-muito-alem-da-estatistica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/blog\/vidas-indigenas-para-muito-alem-da-estatistica\/","title":{"rendered":"Vidas ind\u00edgenas: para muito al\u00e9m da estat\u00edstica"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Muito mais do que n\u00fameros, os povos ind\u00edgenas atingidos pela Covid-19 est\u00e3o enterrando seu passado, presente e futuro<\/h4>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large  caption-style-blue-overlay caption-alignment-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"684\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/08\/65360c3e-gp1su2n6_pressmedia-1024x684.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-25595\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/08\/65360c3e-gp1su2n6_pressmedia-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/08\/65360c3e-gp1su2n6_pressmedia-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/08\/65360c3e-gp1su2n6_pressmedia-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/08\/65360c3e-gp1su2n6_pressmedia-1536x1025.jpg 1536w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/08\/65360c3e-gp1su2n6_pressmedia-2048x1367.jpg 2048w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/08\/65360c3e-gp1su2n6_pressmedia-2046x1366.jpg 2046w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2020\/08\/65360c3e-gp1su2n6_pressmedia-510x340.jpg 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Somente na cidade mais ind\u00edgena do Brasil, S\u00e3o Gabriel da Cachoeira, j\u00e1 s\u00e3o mais de 3.300 casos confirmados da Covid-19<div class=\"credit icon-left\"> \u00a9 Christian Braga \/ Greenpeace<\/div><\/figcaption><\/figure>\n\n<p>Entre os mais de 90 mil brasileiros mortos, a Covid-19 j\u00e1 levou mais de 612 vidas ind\u00edgenas, infectou por volta de 21.200 e atingiu cerca de 145 povos. Tal como no Brasil n\u00e3o ind\u00edgena, o que est\u00e1 acontecendo no Brasil ind\u00edgena \u00e9 e deve ser reconhecido como um negacionismo ideol\u00f3gico, contaminado pelo vi\u00e9s ditatorial do colonizador, que de forma irrespons\u00e1vel coloca em risco a vida de milhares de ind\u00edgenas, e reaviva os muitos momentos de genoc\u00eddio impostos aos povos origin\u00e1rios ao longo da hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n\n<p>Precisamos ir al\u00e9m dos n\u00fameros frios da estat\u00edstica, haja vista que, muito mais do que n\u00fameros, os povos ind\u00edgenas atingidos pela Covid-19 est\u00e3o enterrando seu passado, presente e futuro. Para al\u00e9m do luto imposto \u00e0s fam\u00edlias, as perdas ind\u00edgenas geram um conjunto de consequ\u00eancias para a organiza\u00e7\u00e3o social dos povos e para o conjunto das rela\u00e7\u00f5es deles com seus territ\u00f3rios e os demais segmentos da sociedade brasileira.<\/p>\n\n<p>Para os Munduruku, um dos povos mais pressionados da bacia amaz\u00f4nica, a perda dos caciques Martinho Bor\u00f5 e Vicente Saw, por exemplo, colocou em risco n\u00e3o s\u00f3 a hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m o presente e o futuro desta popula\u00e7\u00e3o. Como l\u00edderes da luta ind\u00edgena que culminou na demarca\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio munduruku, em 2001, esses dois caciques &#8211; junto a outros idosos que tamb\u00e9m faleceram &#8211; guardavam, al\u00e9m de conhecimentos ancestrais, a mem\u00f3ria de uma gera\u00e7\u00e3o. Era deles que os mais jovens recebiam informa\u00e7\u00e3o e inspira\u00e7\u00e3o para o enfrentamento das amea\u00e7as que hoje colocam em risco a sobreviv\u00eancia f\u00edsica e cultural dos Munduruku, como o garimpo ilegal e grandes empreendimentos representados pelo complexo hidrel\u00e9trico que se quer construir no rio Tapaj\u00f3s.<\/p>\n\n<p>\u00c9 fundamental que o Brasil n\u00e3o ind\u00edgena perceba que tamb\u00e9m sofrer\u00e1 com as perdas desses povos, seja por toda a influ\u00eancia da cultura ind\u00edgena na forma\u00e7\u00e3o da cultura nacional, seja pela relevante contribui\u00e7\u00e3o que o modo de vida dessas popula\u00e7\u00f5es oferece \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio ambiental do pa\u00eds. Afinal, em todos os biomas, e em especial na Amaz\u00f4nia, as terras ind\u00edgenas s\u00e3o palco da mais genu\u00edna resist\u00eancia \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente, o que os posiciona como verdadeiros guardi\u00f5es das florestas. Na concep\u00e7\u00e3o ind\u00edgena n\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o. Eles s\u00e3o a floresta. N\u00e3o \u00e0 toa, na Amaz\u00f4nia, o desmatamento nas terras ind\u00edgenas \u00e9 11 vezes menor do que nas \u00e1reas privadas, e segue assim, mesmo quando comparado \u00e0 unidades de conserva\u00e7\u00e3o criadas para a proteger por\u00e7\u00f5es relevantes da biodiversidade amaz\u00f4nica.<\/p>\n\n<p>Al\u00e9m de s\u00f3rdida, a tentativa de minimizar as mortes no Brasil ind\u00edgena refor\u00e7a o contexto permanente de viola\u00e7\u00f5es dos direitos ind\u00edgenas no Brasil, cristalizado pelo racismo institucional que contaminou a pol\u00edtica indigenista do atual governo e aprofundou o esvaziamento e sucateamento da FUNAI, colocando-a na contram\u00e3o de sua miss\u00e3o maior, que \u00e9 a defesa e a promo\u00e7\u00e3o dos direitos ind\u00edgenas. De janeiro a junho de 2020, consumiu nada menos que 7.000 hectares de floresta, n\u00e3o sendo interrompido nem mesmo pela declara\u00e7\u00e3o de pandemia global, o que refor\u00e7a as den\u00fancias de que h\u00e1 um processo organizado de invas\u00e3o das terras ind\u00edgenas na Amaz\u00f4nia e de destrui\u00e7\u00e3o destes povos.<\/p>\n\n<p>Em meio a todo o descaso a que est\u00e3o relegados, o fato \u00e9 que os povos ind\u00edgenas s\u00e3o protagonistas de sua hist\u00f3ria. Eles decidiram viver e n\u00e3o aceitar\u00e3o passivamente a morte encomendada pela incompet\u00eancia do governo de plant\u00e3o. Resilientes como sempre, se articularam para dentro e para fora do Estado brasileiro, constituindo uma grande rede de solidariedade em favor da vida, mostrando ao mundo por qual motivo resistem a 520 anos de massacres.<\/p>\n\n<p>At\u00e9 o momento, sob a lideran\u00e7a do movimento ind\u00edgena, na Amaz\u00f4nia, j\u00e1 foram instaladas mais que uma centena de Unidades de Atendimento Prim\u00e1rio Ind\u00edgena (Uapi), \u00e0 revelia da falta de apoio financeiro por parte do Estado brasileiro; que foi incapaz de viabilizar recursos para ampliar o que j\u00e1 vem sendo realizado pela sociedade civil organizada.<\/p>\n\n<p>Superar as agruras impostas pela pandemia e pela omiss\u00e3o daqueles que insistem em negar a realidade deve ser a nossa tarefa di\u00e1ria, tendo no horizonte a esperan\u00e7a de que possamos construir um Brasil mais solid\u00e1rio e justo, onde o direito \u00e0 vida seja de fato um direito fundamental.<\/p>\n<div class=\"EmptyMessage\">Block content is empty. 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