{"id":49919,"date":"2023-10-25T17:29:25","date_gmt":"2023-10-25T20:29:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/?p=49919"},"modified":"2023-10-25T17:35:13","modified_gmt":"2023-10-25T20:35:13","slug":"navegando-pelo-rio-que-secou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/blog\/navegando-pelo-rio-que-secou\/","title":{"rendered":"Navegando pelo rio que secou"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>Saiba como foi a viagem que levou 15 toneladas de alimentos para fam\u00edlias que sofrem com a seca na cidade de Tef\u00e9, no Amazonas<\/em><\/h4>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/57c41e19-gp0sty51t_web_size-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-49921\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/57c41e19-gp0sty51t_web_size-1.jpg 800w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/57c41e19-gp0sty51t_web_size-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/57c41e19-gp0sty51t_web_size-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/57c41e19-gp0sty51t_web_size-1-510x340.jpg 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">As dist\u00e2ncias amaz\u00f4nicas ficaram ainda maiores com a seca hist\u00f3rica que atingiu o Norte do Brasil em 2023<div class=\"credit icon-left\"> \u00a9 Bruno Kelly \/ Greenpeace<\/div><\/figcaption><\/figure>\n\n<p>A tarefa era desafiadora: levar 854 cestas b\u00e1sicas de Manaus a Tef\u00e9, onde a seca hist\u00f3rica do rio Solim\u00f5es vitima milhares de pessoas e fam\u00edlias. Com tanta coisa em m\u00e3os \u2013 eram pacotes com leite em p\u00f3, arroz, \u00f3leo, feij\u00e3o, farinha, entre outros mantimentos \u2013 embarcamos as 15 toneladas em um barco a jato, que em tese faria a viagem de maneira mais r\u00e1pida e levaria os alimentos \u00e0s m\u00e3os de quem precisava de maneira mais pr\u00e1tica e eficiente.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n<p>A previs\u00e3o de viagem era de 24 horas, com possibilidades de extens\u00e3o desse prazo. N\u00e3o se sabia das condi\u00e7\u00f5es de navega\u00e7\u00e3o do rio Solim\u00f5es e o Expresso Hannah, a embarca\u00e7\u00e3o destacada para a tarefa, costuma fazer apenas o trajeto Manaus- Janauac\u00e1, uma regi\u00e3o tur\u00edstica muito conhecida perto da capital do Amazonas, cuja rota \u00e9 feita em pouco mais de duas horas. \u00c9 como se subitamente coloc\u00e1ssemos algu\u00e9m que faz uma caminhada di\u00e1ria de dez minutos para correr uma prova de uma hora. \u201cConfia no processo\u201d, dizem.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n<p>A sa\u00edda do rio Negro foi relativamente tranquila, e a passagem pela orla da capital revelou uma Manaus que nem todo mundo conhece ou se d\u00e1 conta no dia a dia: cheia de portos particulares, com enormes embarca\u00e7\u00f5es e estruturas, navios industriais e grandes balsas.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/doe.greenpeace.org.br\/emergencia-amazonia\/p\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Quer ajudar as fam\u00edlias que sofrem com a seca? Doe para o Asas da Emerg\u00eancia!<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/a5d646b8-gp0sty52l_web_size-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-49923\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/a5d646b8-gp0sty52l_web_size-1.jpg 800w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/a5d646b8-gp0sty52l_web_size-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/a5d646b8-gp0sty52l_web_size-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/a5d646b8-gp0sty52l_web_size-1-510x340.jpg 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Para fazer as 15 toneladas de mantimentos chegarem a Tef\u00e9, foram necess\u00e1rios dois dias de viagem<div class=\"credit icon-left\"> \u00a9 Bruno Kelly \/ Greenpeace<\/div><\/figcaption><\/figure>\n\n<p>Quando se trata de Manaus, lembra-se muito das florestas e dos povos ind\u00edgenas, mas geralmente esquece-se da import\u00e2ncia econ\u00f4mica que os grandes rios amaz\u00f4nicos t\u00eam para o Brasil. Nem todo mundo lembra ou sabe, por exemplo, que o Porto de Manaus \u00e9 o maior porto flutuante do mundo e que praticamente toda a produ\u00e7\u00e3o nacional de micro-ondas, lavadoras de lou\u00e7a, televisores e aparelhos de ar condicionado sai do P\u00f3lo Industrial de Manaus. Para ficar em outro exemplo, o rio Madeira \u00e9 uma importante hidrovia para o escoamento de soja, um dos principais produtos de exporta\u00e7\u00e3o do Brasil.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n<p>Nossa sa\u00edda, no in\u00edcio da manh\u00e3 de um s\u00e1bado, foi tranquila: \u00e9ramos um grupo pequeno, num barco cheio de caixas e cestas b\u00e1sicas, e pudemos fazer um in\u00edcio de trajeto com calma e em paz.<\/p>\n\n<p>O Encontro das \u00c1guas, que em alguns trechos costuma ter bem marcadas as \u00e1guas pretas do rio Negro e as \u00e1guas marrons do rio Solim\u00f5es, hoje possui aspecto enlameado, provavelmente por conta da seca hist\u00f3rica que mudou os principais rios da Bacia Amaz\u00f4nica. Um retrato triste e sem gra\u00e7a de um bioma que tem sofrido bastante nos \u00faltimos anos, e uma descaracteriza\u00e7\u00e3o que reflete bem a ang\u00fastia amaz\u00f4nica, v\u00edtima de diversas crises seguidas, como a pandemia de Covid-19 e os eventos clim\u00e1ticos extremos. Foi de Manaus, ressalte-se, que sa\u00edram as imagens das valas coletivas que chocaram o mundo durante o supl\u00edcio provocado pelo coronav\u00edrus.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/521e7141-gp0sty52k_web_size-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-49928\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/521e7141-gp0sty52k_web_size-1.jpg 800w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/521e7141-gp0sty52k_web_size-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/521e7141-gp0sty52k_web_size-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/521e7141-gp0sty52k_web_size-1-510x340.jpg 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Com a seca hist\u00f3rica, bancos de areia ficaram comuns na paisagem amaz\u00f4nica <div class=\"credit icon-left\"> \u00a9 Bruno Kelly \/ Greenpeace<\/div><\/figcaption><\/figure>\n\n<p>J\u00e1 nas \u00e1guas barrentas do Solim\u00f5es, a quantidade de desbarrancamentos, galhos e \u00e1rvores nas \u00e1guas chamou a aten\u00e7\u00e3o. \u201cQuando tem muito pau assim na \u00e1gua, isso significa que o rio j\u00e1 t\u00e1 subindo\u201d, disse Francinete &#8211; a maquinista do Expresso Hannah que, em nossa viagem, acumulou seu trabalho costumeiro com a fun\u00e7\u00e3o de cozinheira.&nbsp;<\/p>\n\n<p>Francinete \u00e9 uma personagem curiosa. Era nossa cozinheira e maquinista, ou seja, estava a postos para fazer reparos no motor do barco quando necess\u00e1rio. \u201cAs pessoas sempre se espantam, n\u00e3o \u00e9 comum ver uma mulher nessa fun\u00e7\u00e3o. No curso que eu fiz n\u00f3s \u00e9ramos trinta mulheres, mas nem todas t\u00e3o trabalhando na \u00e1rea. Eu fiquei, e as pessoas sempre se surpreendem quando eu falo\u201d, disse a nossa maquinista-cozinheira. Felizmente, nosso motor n\u00e3o deu problema e Francinete p\u00f4de concentrar seus esfor\u00e7os na cozinha.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/fc02eea6-gp0sty52i_web_size-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-49924\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/fc02eea6-gp0sty52i_web_size-1.jpg 800w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/fc02eea6-gp0sty52i_web_size-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/fc02eea6-gp0sty52i_web_size-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/fc02eea6-gp0sty52i_web_size-1-510x340.jpg 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">\u00c0s margens dos rio Solim\u00f5es, \u00e9 poss\u00edvel ter uma ideia do quanto a \u00e1gua baixou <div class=\"credit icon-left\"> \u00a9 Bruno Kelly \/ Greenpeace<\/div><\/figcaption><\/figure>\n\n<p>T\u00ednhamos Internet no barco \u2013 uma conex\u00e3o da Starlink, do infame Elon Musk, fez com que nosso isolamento n\u00e3o fosse permanente ou duradouro. Embora com algumas quedas eventuais, nosso link de Internet era bom, permitindo que ouv\u00edssemos m\u00fasica no Spotify, assist\u00edssemos v\u00eddeos curtos no Instagram e mantiv\u00e9ssemos contato com nossas fam\u00edlias por meio do whatsapp. Optei por pegar no celular o m\u00ednimo poss\u00edvel, mas ainda assim sucumbi ao t\u00e9dio de uma viagem amaz\u00f4nica de barco&nbsp; e me peguei de vez em quando respondendo memes dos amigos ou mandando mensagens carinhosas para minha esposa.<\/p>\n\n<p>Ao final da primeira noite, encostamos em Codaj\u00e1s, cidade conhecida como a Terra do A\u00e7a\u00ed. A seca fez com que o rio e a cidade ficassem a uma dist\u00e2ncia enorme.&nbsp; O cansa\u00e7o tamb\u00e9m era grande, de modo que ningu\u00e9m tomou coragem para dar uma volta por l\u00e1. Com exce\u00e7\u00e3o do Baixinho, um dos tripulantes que desceu do teto do barco de sapato fechado, cal\u00e7a comprida e banho tomado, dizendo \u201c\u00c9 doidice chegar na cidade e n\u00e3o ir l\u00e1 conhecer, n\u00e9\u201d. Ele estava t\u00e3o empolgado que armou sua rede num barco ao lado, para n\u00e3o atrapalhar ningu\u00e9m quando voltasse da balada interiorana tarde da noite.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n<p>Antes de dormir, fomos \u00e0 popa do barco curtir brevemente a noite amaz\u00f4nica. De frente pra cidade, a \u00fanica coisa que consegu\u00edamos ver e ouvir era uma enorme festa na orla da cidade. Um cantor pouco talentoso cantava hits sertanejos; de longe a gente s\u00f3 via as luzes dan\u00e7ando pra l\u00e1 e pra c\u00e1. Nada de gritos de plateia, roncos de motocicletas nem muitos agradecimentos aos donos de mercadinhos e vereadores. \u201cEssa festa deve t\u00e1 ruim\u201d, algu\u00e9m falou, para a risada geral de todos.&nbsp;<\/p>\n\n<p>No caf\u00e9 da manh\u00e3 do dia seguinte, Baixinho disse que voltou \u00e0s 3h, dormiu com muito frio \u2013 como estava sozinho no outro barco, passou a noite levando fortes jatos de vento em sua rede.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/1d2ae8f7-gp0sty52h_web_size-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-49925\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/1d2ae8f7-gp0sty52h_web_size-1.jpg 800w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/1d2ae8f7-gp0sty52h_web_size-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/1d2ae8f7-gp0sty52h_web_size-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/1d2ae8f7-gp0sty52h_web_size-1-510x340.jpg 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A noite amaz\u00f4nica \u00e9 repleta de cores e mist\u00e9rios; um dos pernoites ocorreu na cidade de Codaj\u00e1s, a &#8220;Terra do A\u00e7a\u00ed&#8221;<div class=\"credit icon-left\"> \u00a9 Bruno Kelly \/ Greenpeace<\/div><\/figcaption><\/figure>\n\n<p>Paramos no porto de Coari por volta das 11h do domingo, para entregar uma encomenda a uma pesquisadora do Instituto Mamirau\u00e1. Notamos que, na orla da cidade, os botos estavam muito \u00e0 vontade, pulando o tempo inteiro pra l\u00e1 e pra c\u00e1. Era muito f\u00e1cil ver os bichos, e a presen\u00e7a ostensiva deles na frente da cidade chamou aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n<p>A pesquisadora demorou a vir e, quando chegou, estava esbaforida, por conta do sol amaz\u00f4nico e da grande dist\u00e2ncia percorrida entre o porto e o barco em que est\u00e1vamos. Descobrimos depois que havia um terceiro motivo: nos \u00faltimos dias, foram descobertas nos arredores de Coari 17 carca\u00e7as de botos mortos.<\/p>\n\n<p>Eram carca\u00e7as mesmo, em alguns casos apenas os cr\u00e2nios, j\u00e1 em avan\u00e7ado estado de decomposi\u00e7\u00e3o, que mostravam que a trag\u00e9dia ambiental ocorrida em Tef\u00e9 dias antes provavelmente tinha uma \u00e1rea de abrang\u00eancia muito maior do que o verificado at\u00e9 ent\u00e3o. Uma reuni\u00e3o de emerg\u00eancia entre os cientistas do Mamirau\u00e1 ocorreria naquela noite, para definir provid\u00eancias a respeito dessa nova descoberta.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n<p>A pesquisadora disse que os cientistas do Instituto estavam preocupad\u00edssimos, pois na orla de Coari os botos estavam pulando muito, e isso n\u00e3o era um comportamento normal da esp\u00e9cie. Algo diferente estava acontecendo, e ningu\u00e9m sabia o que era.<\/p>\n\n<p>Em Coari, passamos por instala\u00e7\u00f5es da Petrobr\u00e1s que trabalham com g\u00e1s natural. Nos despedimos da cidade vendo uma praia repleta de urubus no ch\u00e3o \u2013 eram dezenas deles rodeando algo que n\u00e3o estava claro para n\u00f3s \u00e0quela dist\u00e2ncia. \u201cTanto urubu assim, com certeza \u00e9 carca\u00e7a de boto ali tamb\u00e9m\u201d, disse Nete, a nossa maquinista-cozinheira.\u00a0<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/9725f267-gp0sty52c_web_size-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-49927\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/9725f267-gp0sty52c_web_size-1.jpg 800w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/9725f267-gp0sty52c_web_size-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/9725f267-gp0sty52c_web_size-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/9725f267-gp0sty52c_web_size-1-510x340.jpg 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O projeto Asas da Emerg\u00eancia j\u00e1 entregou, em duas viagens, 18 toneladas de mantimentos para as fam\u00edlias de Tef\u00e9<div class=\"credit icon-left\"> \u00a9 Bruno Kelly \/ Greenpeace<\/div><\/figcaption><\/figure>\n\n<p>Outra coisa curiosa aconteceu em Coari. Acabamos dando carona a tr\u00eas policiais que precisavam chegar at\u00e9 a base Arp\u00e3o. A base Arp\u00e3o \u00e9 um complexo de seguran\u00e7a interinstitucional do Governo do Amazonas, que re\u00fane diversas for\u00e7as de seguran\u00e7a para vigiar e proteger as \u00e1guas do rio Solim\u00f5es.<\/p>\n\n<p>N\u00e3o por acaso, \u00e9 por ali que acontece a maior parte das ocorr\u00eancias de pirataria do Estado. Os piratas dos quais falo s\u00e3o grupos criminosos, que atacam geralmente \u00e0 noite, roubam celulares, joias, rel\u00f3gios e combust\u00edvel; e eventualmente praticam atos de viol\u00eancia e tortura contra as pessoas que encontram nos barcos que atacam. S\u00e3o bandos liderados geralmente por homens jovens, cujas fam\u00edlias, situadas nas cidades da regi\u00e3o, ajudam na lavagem dos produtos roubados e acobertam os crimes praticados.&nbsp;<\/p>\n\n<p>O trecho compreendido entre as cidades de Fonte Boa e Juta\u00ed, e nos pequenos canais e igarap\u00e9s que formam a bacia do rio Juru\u00e1, \u00e9 a regi\u00e3o onde este tipo de crime mais acontece. A regi\u00e3o em que navegamos \u00e9, de fato, muito famosa por ser um importante corredor internacional de tr\u00e1fico de drogas e armas, disputada por algumas das fac\u00e7\u00f5es criminosas mais perigosas do Brasil.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n<p>\u201cAcabamos de neutralizar o Pincha\u201d, disse orgulhoso um dos policiais a quem demos carona. Ele disse que, quatro dias antes, uma grande opera\u00e7\u00e3o policial havia ocorrido por ali. Eles estavam de folga em Coari e iam \u00e0 base Arp\u00e3o para come\u00e7ar o servi\u00e7o no dia seguinte. Ficariam um m\u00eas l\u00e1 embarcados. Eram jovens e fortes, todos de Manaus.&nbsp;<\/p>\n\n<p>De alguma maneira, fomos desenrolando assunto e chegamos a Havana, a cadela da base Arp\u00e3o que ajuda os policiais a encontrar drogas nos barcos regionais. \u201cHavana tem o faro treinado para narc\u00f3ticos\u201d, disseram eles, que explicaram ainda que ela costuma sentar nas malas, bolsas e caixas onde detecta drogas e que ela pula incessantemente quando acha subst\u00e2ncias il\u00edcitas no teto dos barcos. Nos despedimos deles uns quarenta minutos depois, assim que chegamos \u00e0 base Arp\u00e3o, pegando o contato dos policiais para o caso de alguma ocorr\u00eancia (\u201c\u00c9 s\u00f3 ligar que a gente acompanha voc\u00eas\u201d, disse um deles).&nbsp;<\/p>\n\n<p>A segunda noite no Solim\u00f5es teve os \u00fanicos momentos de perigo de encalhe. O capit\u00e3o Daniel chegou a deslizar num banco de areia, mas foi sagaz o suficiente para desviar a tempo. Nem todo mundo percebeu o risco &#8211; era tarde da noite e boa parte do nosso grupo j\u00e1 estava acomodada para dormir nas redes montadas no meio do barco. Foi uma noite longa: paramos para dormir por volta das 23h30, pois o capit\u00e3o Daniel queria parar a navega\u00e7\u00e3o o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel de Tef\u00e9. Atamos nossas redes e fomos dormir ouvindo um ou outro zumbido dos mosquitos amaz\u00f4nicos, chamados de carapan\u00e3s. Eram t\u00e3o poucos, por\u00e9m, que n\u00e3o chegaram a incomodar. Foi quase um presente, considerando o qu\u00e3o infernais e insuport\u00e1veis esses bichos conseguem ser em outras regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia.\u00a0<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/ef27fdc7-gp0sty51u_web_size-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-49926\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/ef27fdc7-gp0sty51u_web_size-1.jpg 800w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/ef27fdc7-gp0sty51u_web_size-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/ef27fdc7-gp0sty51u_web_size-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/ef27fdc7-gp0sty51u_web_size-1-510x340.jpg 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">As 854 cestas foram entregues em uma manh\u00e3 de trabalho no porto de Tef\u00e9 <div class=\"credit icon-left\"> \u00a9 Bruno Kelly \/ Greenpeace<\/div><\/figcaption><\/figure>\n\n<p>Depois de dois dias inteiros de viagem, chegamos ao Lago Tef\u00e9, que fica em frente \u00e0 cidade de mesmo nome, por volta das 7h20 da segunda-feira. Uma for\u00e7a-tarefa foi montada por diversas pessoas para fazer o descarrego do material. Eram analistas ambientais do ICMBio, lideran\u00e7as ind\u00edgenas, representantes de organiza\u00e7\u00f5es extrativistas e estudantes do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) que vieram ajudar a carregar as cestas.\u00a0 Alguns representantes j\u00e1 vieram de barco, de modo que o transporte foi feito do nosso barco para a voadeira deles. Eram barcos pequenos, simples, feitos de madeira desgastada, com quatro ou cinco homens e algumas toneladas de mantimentos. Esses barcos iam baixo nas \u00e1guas do Lago Tef\u00e9. Outras cestas foram levadas de caminhonete para um dep\u00f3sito, de onde sairiam posteriormente rumo \u00e0s comunidades.\u00a0<\/p>\n\n<p>Foi uma manh\u00e3 inteira de trabalho, que s\u00f3 n\u00e3o foi mais sofrida porque o sol n\u00e3o estava a pino. Ele estava, na realidade, escondido por entre as nuvens. Sua luz estava difusa no porto de Tef\u00e9 e o clima estava com ar parado e abafado, o t\u00edpico morma\u00e7o amaz\u00f4nico. Nos momentos mais agitados, cerca de cinquenta pessoas andavam pra l\u00e1 e pra c\u00e1 com as cestas, tirando os itens do Expresso Hannah, que veio com a gente de Manaus, e colocando em pequenos barcos, carros cedidos por parceiros ou no ch\u00e3o do porto mesmo. Aproveitei a presen\u00e7a de alguns l\u00edderes comunit\u00e1rios e fui puxando alguns deles para gravar entrevistas.<\/p>\n\n<p>\u201cN\u00e3o tenho como n\u00e3o ficar grato e feliz\u201d, disse Em\u00eddio Marinho Nogueira, o Kokama. Cacique da Aldeia Nova Jerusal\u00e9m, que fica no Lago Tef\u00e9 e abriga 66 fam\u00edlias de diversas etnias,como Tikuna, Kambeba e Kanamari, ele contou que, embora a seca tenha feito as dist\u00e2ncias aumentarem enormemente nas suas redondezas de setembro pra c\u00e1, a chegada das cestas n\u00e3o deixa de ser um al\u00edvio e uma esperan\u00e7a. \u201cA gente n\u00e3o consegue pescar e a nossa ro\u00e7a fica longe, longe demais. Acaba que os mais prejudicados com essa estiagem s\u00e3o os mais velhos, que tamb\u00e9m n\u00e3o conseguem vir pra cidade vender sua produ\u00e7\u00e3o nem pegar dinheiro no banco\u201d. Ele disse que saiu da aldeia por volta das 6h e chegou a Tef\u00e9 por volta das 10h, andando com uma mochila nas costas junto a um acompanhante. Apesar do cansa\u00e7o, parecia feliz. Falamos um pouco no v\u00eddeo, gravamos umas falas dele. A maior parte da conversa foi sobre problemas e dificuldades. Kokama encerrou a entrevista, por\u00e9m, com um largo sorriso dizendo <em>Supipari Iran\u00e3<\/em>. Perguntei a ele o que significava e ele contou, satisfeito: \u201cObrigado, t\u00e1 tudo bem\u201d.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-text-align-center wp-element-button\" href=\"https:\/\/doe.greenpeace.org.br\/emergencia-amazonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Quer ajudar as fam\u00edlias que sofrem com a seca? Doe para o Asas da Emerg\u00eancia!<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/38fc6a16-gp0sty525_web_size-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-49922\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/38fc6a16-gp0sty525_web_size-1.jpg 800w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/38fc6a16-gp0sty525_web_size-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/38fc6a16-gp0sty525_web_size-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2023\/10\/38fc6a16-gp0sty525_web_size-1-510x340.jpg 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Lideran\u00e7as posam junto \u00e0s cestas que ser\u00e3o enviadas para as aldeias ind\u00edgenas de Tef\u00e9<div class=\"credit icon-left\"> \u00a9 Bruno Kelly \/ Greenpeace<\/div><\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saiba como foi a viagem que levou 15 toneladas de alimentos para fam\u00edlias que sofrem com a seca na cidade de Tef\u00e9, no Amazonas<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":49921,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ep_exclude_from_search":false,"p4_og_title":"","p4_og_description":"","p4_og_image":"","p4_og_image_id":"","p4_seo_canonical_url":"","p4_campaign_name":"","p4_local_project":"","p4_basket_name":"","p4_department":"","footnotes":""},"categories":[49],"tags":[42,62],"p4-page-type":[16],"class_list":["post-49919","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-amazonia","tag-justica-climatica","tag-adaptacao-climatica","p4-page-type-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49919","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49919"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49919\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49932,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49919\/revisions\/49932"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49921"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49919"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49919"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49919"},{"taxonomy":"p4-page-type","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/p4-page-type?post=49919"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}