{"id":64348,"date":"2026-06-28T07:00:00","date_gmt":"2026-06-28T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/?p=64348"},"modified":"2026-06-29T08:32:19","modified_gmt":"2026-06-29T11:32:19","slug":"orgulho-memoria-e-descolonizacao-um-olhar-sobre-o-dia-do-orgulho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/blog\/orgulho-memoria-e-descolonizacao-um-olhar-sobre-o-dia-do-orgulho\/","title":{"rendered":"Orgulho, Mem\u00f3ria e Descoloniza\u00e7\u00e3o: um olhar sobre o Dia do Orgulho"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>No m\u00eas em que celebramos o Orgulho LGBTQIAPN+, um convite para repensar as siglas do movimento a partir da perspectiva do Sul Global.<\/em><\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" title=\"image\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-1024x683.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-64352\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-510x340.jpeg 510w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image.jpeg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O texto replicado a seguir foi escrito por <strong>Rusly Cachina<\/strong> para o <a href=\"https:\/\/www.greenpeace.pt\/noticias\/orgulho-memoria-e-descolonizacao-um-trabalho-de-repensar-as-siglas-desde-o-sul-global\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Greenpeace Espanha e Portugal<\/a>. Rusly \u00e9 uma mulher trans preta, natural da Guin\u00e9 Equatorial e atualmente exilada na Espanha, onde atua como porta-voz da <a href=\"https:\/\/migrantia.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Migrantia<\/em><\/a>, organiza\u00e7\u00e3o que busca garantir direitos e qualidade de vida de imigrantes e refugiados LGBTQIAPN+ no pa\u00eds.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de sua viv\u00eancia, Rusly provoca que a l\u00ea a repensar as siglas do movimento LGBTQIAPN+ a partir de sua perspectiva do Sul Global. Ela lembra que a defesa do meio ambiente e o orgulho de ser quem somos n\u00e3o podem ser separados da mem\u00f3ria hist\u00f3rica e da repara\u00e7\u00e3o colonial.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conex\u00e3o com o Brasil \u00e9 direta: as dores, os desafios e a urg\u00eancia de reconstruir narrativas que o ativismo<em> afro-queer<\/em> enfrenta na Europa ecoam profundamente na nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria e na nossa busca por uma justi\u00e7a clim\u00e1tica que seja, essencialmente, antirracista e inclusiva.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Boa leitura!<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Todos os anos, especialmente em junho, o M\u00eas do Orgulho LGBTQIA+ preenche as redes sociais, as ruas e os espa\u00e7os institucionais com bandeiras, mensagens, discursos e celebra\u00e7\u00f5es. Datas importantes s\u00e3o comemoradas, celebrando avan\u00e7os em direitos e dando visibilidade a identidades que foram negadas, por muito tempo.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Mas essa imagem global nem sempre parece universal. Do Sul Global, especialmente de contextos africanos e diasp\u00f3ricos, muitos de n\u00f3s vivenciamos este m\u00eas com uma complexa mistura de emo\u00e7\u00f5es: reconhecimento, sim, mas tamb\u00e9m distanciamento, tens\u00e3o e questionamentos que nem sempre encontram lugar ou espa\u00e7o nas narrativas dominantes.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>As siglas LGBTQ+ t\u00eam sido fundamentais na constru\u00e7\u00e3o da visibilidade pol\u00edtica e na articula\u00e7\u00e3o de lutas comuns. No entanto, \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio reconhecer que se trata de uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica situada em contextos ocidentais espec\u00edficos, moldada por linguagens, categorias e formas de compreender o g\u00e9nero e a sexualidade que n\u00e3o s\u00e3o universais.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando essas categorias s\u00e3o apresentadas como a \u00fanica estrutura poss\u00edvel para nomear a diversidade, corre-se o risco de inviabilizar outras formas de exist\u00eancia, identidades que n\u00e3o se encaixam nelas, bem como nossos relacionamentos e conex\u00f5es. Porque nomear n\u00e3o \u00e9 apenas descrever: \u00e9 tamb\u00e9m ordenar o mundo.<\/em><\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>As siglas n\u00e3o s\u00e3o neutras<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>As siglas LGBTQ+ t\u00eam sido fundamentais na constru\u00e7\u00e3o da visibilidade pol\u00edtica e na articula\u00e7\u00e3o de lutas comuns. No entanto, \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio reconhecer que se trata de uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica situada em contextos ocidentais espec\u00edficos, moldada por linguagens, categorias e formas de compreender o g\u00e9nero e a sexualidade que n\u00e3o s\u00e3o universais.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando essas categorias s\u00e3o apresentadas como a \u00fanica estrutura poss\u00edvel para nomear a diversidade, corre-se o risco de inviabilizar outras formas de exist\u00eancia, identidades que n\u00e3o se encaixam nelas, bem como nossos relacionamentos e conex\u00f5es. Porque nomear n\u00e3o \u00e9 apenas descrever: \u00e9 tamb\u00e9m ordenar o mundo.<\/em><\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"730\" height=\"487\" title=\"IMG-20250707-WA0026-1-730x487\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/88290705-img-20250707-wa0026-1-730x487-1.webp\" alt=\"Grupo diverso de pessoas caminha em uma manifesta\u00e7\u00e3o segurando uma grande faixa branca com os dizeres &quot;migrantia&quot; e &quot;migrar con garant\u00eda&quot;, cercado por bandeiras do orgulho LGBTQIA+ e trans.\" class=\"wp-image-64354\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/88290705-img-20250707-wa0026-1-730x487-1.webp 730w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/88290705-img-20250707-wa0026-1-730x487-1-300x200.webp 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/88290705-img-20250707-wa0026-1-730x487-1-510x340.webp 510w\" sizes=\"auto, (max-width: 730px) 100vw, 730px\" \/><\/figure>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Colonialidade da linguagem e o apagar da mem\u00f3ria<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Antes da coloniza\u00e7\u00e3o europeia, em todo o continente africano, existiam m\u00faltiplas formas de compreender g\u00e9nero, corpo e sexualidade,\u00a0 que n\u00e3o se conformavam com um um modelo bin\u00e1rio r\u00edgido. Essas compreens\u00f5es n\u00e3o eram homog\u00eaneas nem id\u00eanticas, mas compartilhavam algo importante: estavam profundamente conectadas \u00e0 espiritualidade. Por exemplo, podemos falar de Logun Ed\u00e9, um orix\u00e1 menor do pante\u00e3o iorub\u00e1, conhecido como pr\u00edncipe herdeiro, filho de Oxum e Ox\u00f3ssi. Ele representa a dualidade, a beleza, a juventude e a transforma\u00e7\u00e3o, vivendo seis meses no rio (caracter\u00edsticas femininas) e seis meses na floresta (caracter\u00edsticas masculinas).<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>No contexto comunit\u00e1rio, podemos falar de \u201cMaridos Femininos\u201d: historicamente, algumas mulheres nigerianas assumiam o papel de maridos (uma considera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social) ao casarem-se com outras mulheres, perpetuando assim as linhagens. Com o processo de coloniza\u00e7\u00e3o, um sistema legal, religioso e administrativo foi imposto, reorganizando todas essas realidades, segundo uma l\u00f3gica bin\u00e1ria e punitiva. Tudo o que n\u00e3o se encaixava nessa ordem era frequentemente reinterpretado como pecado, desvio ou crime. Por exemplo, h\u00e1 a hist\u00f3ria de Francisco Manicongo, uma pessoa retirada \u00e0 for\u00e7a do Reino do Congo \u2013 hoje parte da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo e Angola \u2013 para o Brasil durante o s\u00e9culo XVI, no contexto do tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico de escravizados. Ele foi levado para Salvador, Bahia, como escravizado, provavelmente na segunda metade do s\u00e9culo XVI. O motivo de sua persegui\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi apenas a sua condi\u00e7\u00e3o de escravizado, mas tamb\u00e9m a sua identidade e express\u00e3o de g\u00e9nero, j\u00e1 que se vestia e agia de acordo com as tradi\u00e7\u00f5es congolesas associadas \u00e0s Imbandas, que as autoridades coloniais interpretavam como \u201cpecado\u201d (sodomia).<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ele foi denunciado \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o, o que implicava um risco real de puni\u00e7\u00e3o severa, incluindo a morte. O seu caso ilustra como a viol\u00eancia colonial n\u00e3o apenas explorou pessoas, mas tamb\u00e9m perseguiu e puniu a dissid\u00eancia sexual e de g\u00eanero. Nesse processo, n\u00e3o apenas os corpos foram criminalizados, mas a mem\u00f3ria tamb\u00e9m foi reescrita.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O que escrevo vai al\u00e9m da procura por \u201cprovas\u201d, al\u00e9m da tentativa de encontrar uma hist\u00f3ria queer africana. O que emerge \u00e9 algo mais complexo: a evid\u00eancia de que existem m\u00faltiplas formas de vida, que foram sistematicamente filtradas, apagadas pela l\u00f3gica colonial ou reinterpretadas.<\/em><\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u00c1frica n\u00e3o \u00e9 um territ\u00f3rio sem hist\u00f3ria <\/strong><strong><em>queer<\/em><\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Afirmar isso n\u00e3o significa idealizar o passado ou negar conflitos ou tens\u00f5es internas. Implica reconhecer que a diversidade n\u00e3o \u00e9 uma importa\u00e7\u00e3o recente.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Em diversos contextos africanos, existiram pap\u00e9is de g\u00e9nero n\u00e3o normativos, pr\u00e1ticas relacionais diversas e figuras hist\u00f3ricas cuja exist\u00eancia desafiou as categorias modernas. Muitas dessas mem\u00f3rias, infelizmente, sobrevivem apenas em narrativas orais, pr\u00e1ticas culturais ou l\u00ednguas locais; outras foram simplesmente fragmentadas por s\u00e9culos de coloniza\u00e7\u00e3o e continuam assim devido ao neocolonialismo, \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o, ao extremismo religioso e \u00e0 estatiza\u00e7\u00e3o do direito.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O problema n\u00e3o reside na falta de hist\u00f3ria, mas em quem tem o poder de narr\u00e1-la.<\/em><\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"730\" height=\"730\" title=\"LogunEdeStatue-1-730x730\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/a265cac7-logunedestatue-1-730x730-1.webp\" alt=\"Est\u00e1tua de metal de um guerreiro africano em p\u00e9 sobre a grama, segurando uma lan\u00e7a comprida na m\u00e3o direita e um escudo com a cabe\u00e7a de um felino na esquerda, posicionada em frente a uma porta de madeira.\" class=\"wp-image-64355\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/a265cac7-logunedestatue-1-730x730-1.webp 730w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/a265cac7-logunedestatue-1-730x730-1-300x300.webp 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/a265cac7-logunedestatue-1-730x730-1-150x150.webp 150w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/a265cac7-logunedestatue-1-730x730-1-340x340.webp 340w\" sizes=\"auto, (max-width: 730px) 100vw, 730px\" \/><\/figure>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O presente <\/strong><strong><em>queer<\/em><\/strong><strong>: viol\u00eancia, guerra e desigualdade<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Falar sobre descoloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser relegado ao passado. O aqui e agora, o presente, os conflitos armados, a instabilidade pol\u00edtica e a explora\u00e7\u00e3o de recursos continuam a moldar a vida de milhares de milh\u00f5es de pessoas em diversos territ\u00f3rios do Sul Global.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Em regi\u00f5es como a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, os conflitos armados \u2013 incluindo a presen\u00e7a de grupos como o M23 \u2013 n\u00e3o podem ser compreendidos sem o contexto mais amplo das economias extrativistas, d\u00e9cadas de viol\u00eancia estrutural e interesses geopol\u00edticos. Nesses contextos, a viol\u00eancia \u00e9 concreta. N\u00e3o \u00e9 abstrata.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Essas pessoas, que as categorias ocidentais reduzem \u00e0 sigla LGBTQ+, mas que nos seus territ\u00f3rios s\u00e3o conhecidas como Woubi, Mashoga ou Shoga, entre muitos outros nomes,\u00a0 enfrentam estigma social, falta de prote\u00e7\u00e3o institucional e, em muitos casos, viol\u00eancia direta em contextos onde o colapso do Estado e a militariza\u00e7\u00e3o exacerbam todas as formas de abuso.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A guerra n\u00e3o \u00e9 apenas territorial. Ela tamb\u00e9m \u00e9 f\u00edsica.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>As crises clim\u00e1ticas adicionam m\u00faltiplas camadas de complexidade. Elas n\u00e3o afetam a todos igualmente. No Sul Global, seus efeitos se traduzem em deslocamento, inseguran\u00e7a alimentar, perda de meios de subsist\u00eancia e migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Dentro desse cen\u00e1rio, as pessoas em nossa comunidade enfrentam vulnerabilidades espec\u00edficas: acesso desigual a abrigo, desumaniza\u00e7\u00e3o em contextos humanit\u00e1rios e exclus\u00e3o de redes de prote\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas e Desigualdade Global<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>As crises clim\u00e1ticas adicionam m\u00faltiplas camadas de complexidade. Elas n\u00e3o afetam a todos igualmente. No Sul Global, seus efeitos se traduzem em deslocamento, inseguran\u00e7a alimentar, perda de meios de subsist\u00eancia e migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Dentro desse cen\u00e1rio, as pessoas em nossa comunidade enfrentam vulnerabilidades espec\u00edficas: acesso desigual a abrigo, desumaniza\u00e7\u00e3o em contextos humanit\u00e1rios e exclus\u00e3o de redes de prote\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>A emerg\u00eancia clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 apenas ambiental: \u00e9 profundamente pol\u00edtica e social.<\/strong><\/em><\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O Orgulho como um espa\u00e7o contestado<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O Orgulho, como \u00e9 celebrado hoje em muitas partes do mundo, pode ser tanto um espa\u00e7o de celebra\u00e7\u00e3o quanto um espa\u00e7o de exclus\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Para muitos corpos no Sul Global \u2013 migrantes, racializados, negros ou trans (como \u00e9 o meu caso) \u2013 o reconhecimento \u00e9 frequentemente parcial: somos exibidos na vitrine, mas esquecidos nas estruturas cotidianas. Somos convidados a participar, mas sob condi\u00e7\u00f5es de legibilidade: encaixando-nos em categorias predefinidas, traduzindo para linguagens que nem sempre nos pertencem, moldando-nos a estruturas que nem sempre nos incluem completamente.<\/em><\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Em dire\u00e7\u00e3o a uma descoloniza\u00e7\u00e3o do orgulho<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Descolonizar o orgulho n\u00e3o significa rejeitar as lutas globais. Descolonizar tamb\u00e9m significa reconhecer que n\u00e3o existe apenas uma maneira de vivenciar a diversidade. Significa aceitar que siglas, embora necess\u00e1rias, n\u00e3o s\u00e3o suficientes. E, acima de tudo, significa abrir espa\u00e7os para outras mem\u00f3rias, outras linguagens e outras formas de nomear quem somos.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A hist\u00f3ria da diversidade n\u00e3o come\u00e7a em um \u00fanico lugar ou em um \u00fanico momento. E porque a justi\u00e7a, para ser real, tamb\u00e9m precisa ser capaz de compreender o que foi silenciado.<\/em><\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>E agora?<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Se o orgulho quer ser mais do que uma celebra\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o tamb\u00e9m deve ser uma pr\u00e1tica de responsabilidade. Para aqueles que vivem na chamada \u201cminoria global\u201d, isso significa ir al\u00e9m do apoio simb\u00f3lico ou da visibilidade durante um m\u00eas espec\u00edfico. Significa encarar as contradi\u00e7\u00f5es de frente.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o basta que os Estados garantam direitos dentro de suas fronteiras se, ao mesmo tempo, financiam, negociam ou mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas com governos que perseguem nossa comunidade. \u00c9 incoerente celebrar o progresso enquanto se participa (direta ou indiretamente) de sistemas que perpetuam a viol\u00eancia em outros territ\u00f3rios.<\/em><\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A responsabilidade tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtica<\/strong><\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Significa exigir coer\u00eancia dos nossos pr\u00f3prios governos: nos seus acordos comerciais, no seu papel em conflitos armados, nas suas pol\u00edticas externas, na sua rela\u00e7\u00e3o com as ind\u00fastrias extrativistas que sustentam economias de viol\u00eancia.<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Significa algo mais imediato: ouvir sem impor, abrir espa\u00e7o para outras formas de nomear, n\u00e3o traduzir todas as realidades nas nossas pr\u00f3prias categorias e viver a diversidade. N\u00e3o se trata de \u201cdar voz\u201d, mas de deixar de ocupar todo o espa\u00e7o. Porque descolonizar e tamb\u00e9m \u201cdesocidentalizar\u201d o orgulho, n\u00e3o \u00e9 uma ideia abstrata. \u00c9 uma pr\u00e1tica di\u00e1ria que come\u00e7a por reconhecer que a luta pela diversidade n\u00e3o pode ser separada das estruturas globais que continuam a produzir viol\u00eancia, desigualdade e silenciamento.<\/em><\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"878\" title=\"image\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-1-1024x878.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-64353\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-1-1024x878.jpeg 1024w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-1-300x257.jpeg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-1-768x658.jpeg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-1-1536x1316.jpeg 1536w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-1-1594x1366.jpeg 1594w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-1-397x340.jpeg 397w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2026\/06\/96c09094-image-1.jpeg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ruslycachina_oruga\/?hl=es\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Rusly Cachina<\/strong><\/a> \u00e9 Porta-voz da <a href=\"https:\/\/migrantia.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Migrantia<\/a>, T\u00e9cnica de Igualdade, Respons\u00e1vel por Migra\u00e7\u00f5es <em>Afro-Queer<\/em>, Coordenadora da Voz Migrantia Lavapi\u00e9s, Coordenadora da AMIGRAS, Ativista e Par Experta Trans.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No m\u00eas em que celebramos o Orgulho LGBTQIAPN+, um convite para repensar as siglas do movimento a partir da perspectiva do Sul Global.<\/p>\n","protected":false},"author":28,"featured_media":64349,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ep_exclude_from_search":false,"p4_og_title":"","p4_og_description":"","p4_og_image":"","p4_og_image_id":"","p4_seo_canonical_url":"","p4_campaign_name":"","p4_local_project":"","p4_basket_name":"","p4_department":"","footnotes":""},"categories":[5,48],"tags":[13,42,47,50],"p4-page-type":[16],"class_list":["post-64348","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-greenpeace","category-justica-climatica","tag-greenpeace","tag-justica-climatica","tag-internacional","tag-institucional","p4-page-type-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64348","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/28"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64348"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64348\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":64772,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64348\/revisions\/64772"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64349"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64348"},{"taxonomy":"p4-page-type","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/p4-page-type?post=64348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}