{"id":938,"date":"2017-09-27T00:00:00","date_gmt":"2017-09-27T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/blog\/amapa-no-olho-do-furacao-do-agronegocio-e-da-especulacao-fundiaria\/"},"modified":"2025-07-02T04:37:18","modified_gmt":"2025-07-02T07:37:18","slug":"amapa-no-olho-do-furacao-do-agronegocio-e-da-especulacao-fundiaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/blog\/amapa-no-olho-do-furacao-do-agronegocio-e-da-especulacao-fundiaria\/","title":{"rendered":"Amap\u00e1: no olho do furac\u00e3o do agroneg\u00f3cio e da especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<h4 class=\"leader\"><em>Alardeado como nova fronteira agr\u00edcola do pa\u00eds, estado reproduz problemas enfrentados em toda a Amaz\u00f4nia durante o \u201cboom\u201d do agroneg\u00f3cio: desmatamento, grilagem de terras e conflitos no campo<\/em><\/h4>\n<div>\n<div class=\"events-box small-box left\">\n<div class=\"frame\">\n<div id=\"attachment_3024\" style=\"width: 345px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3024\" class=\" wp-image-3024\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2017\/09\/GP0STR0UF_Medium_res-300x200.jpg\" alt=\"M\u00e1quina passando no campo\" width=\"335\" height=\"223\" srcset=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2017\/09\/GP0STR0UF_Medium_res-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2017\/09\/GP0STR0UF_Medium_res-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2017\/09\/GP0STR0UF_Medium_res-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2017\/09\/GP0STR0UF_Medium_res-510x340.jpg 510w, https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2017\/09\/GP0STR0UF_Medium_res.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/><p id=\"caption-attachment-3024\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1quina passando no campo<\/p><\/div>\n<p>Em\u00a0setembro de 2016, o navio Alexia zarpou do Porto de Santana, pr\u00f3ximo \u00e0 foz do rio Amazonas, a 18 quil\u00f4metros de Macap\u00e1, com destino a Liverpool, na Inglaterra, transportando cerca de 25 mil toneladas de soja comercializada pela empresa Fiagril e importada pela Mitsui &amp; Co Group. Ainda que a exporta\u00e7\u00e3o de soja pelo estado do Amap\u00e1 tenha come\u00e7ado em 2014, esta foi a primeira vez que os gr\u00e3os sa\u00edram diretamente por um porto do estado.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A exporta\u00e7\u00e3o foi amplamente comemorada pelos produtores e pela elite pol\u00edtica local nos meios de comunica\u00e7\u00e3o do estado, com a promessa de que a soja catalisaria o desenvolvimento econ\u00f4mico da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Historicamente, no entanto, o avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio para exporta\u00e7\u00e3o vem acompanhado por desmatamento ilegal e concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, com danos que atingem principalmente camponeses e popula\u00e7\u00f5es locais. No Amap\u00e1, n\u00e3o \u00e9 diferente: comunidades quilombolas e antigos posseiros que aguardam a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria de seus territ\u00f3rios vivenciam uma crescente tens\u00e3o com os rec\u00e9m-chegados, que rapidamente conseguem licen\u00e7as para exercer atividades agropecu\u00e1rias.<\/p>\n<p>Entre janeiro e setembro de 2017, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama) embargou 47 \u00e1reas no estado Amap\u00e1 por desmatamento ilegal. Deste total, 34 embargos resultaram da opera\u00e7\u00e3o &#8220;Nova Fronteira&#8221;, realizada pelo IBAMA no estado entre junho e julho de 2017. O Greenpeace visitou algumas dessas \u00e1reas e conversou com comunidades que j\u00e1 sentem na pele os impactos da r\u00e1pida e recente expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio na regi\u00e3o.<\/p>\n<h4><strong>Desmatamento ilegal no rastro da soja<\/strong><\/h4>\n<p>O bioma Amaz\u00f4nia \u00e9 composto quase todo por forma\u00e7\u00f5es florestais. Mas outras paisagens, como cerrados ou lavrados e campinas, conhecidas como n\u00e3o florestais, tamb\u00e9m podem ocorrer. At\u00e9 hoje, os sistemas oficiais de monitoramento do desmatamento na Amaz\u00f4nia v\u00eam ignorando estas \u00e1reas, dificultando a fiscaliza\u00e7\u00e3o e a devida responsabiliza\u00e7\u00e3o pelos crimes ambientais cometidos. S\u00f3 no Amap\u00e1, as \u00e1reas de Cerrado ocupam cerca de 1 milh\u00e3o de hectares.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas do estado aliadas \u00e0 capacidade portu\u00e1ria (tem o porto brasileiro mais pr\u00f3ximo do Canal do Panam\u00e1, Estados Unidos e Europa) e o baixo pre\u00e7o das terras quando comparado a outros estados produtores de soja contribuem para alardear o Amap\u00e1 como a &#8220;nova fronteira agr\u00edcola do Brasil&#8221;, acelerando a ocupa\u00e7\u00e3o de terras pelo agroneg\u00f3cio. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecu\u00e1rias (Embrapa) no Amap\u00e1, o estado possui cerca de 400 mil hectares de sua \u00e1rea de Cerrado aptos para a agricultura. Nos \u00faltimos cinco anos, a \u00e1rea de soja plantada no Amap\u00e1 quadruplicou, passando de 4.550 hectares em 2013 para 18.900 em 2017.<\/p>\n<p>Ao longo de 2017, o Ibama embargou 47 \u00e1reas por desmatamento ilegal no Amap\u00e1, abrangendo os munic\u00edpios de Cutias, Vit\u00f3ria do Jari, Itaubal, Macap\u00e1, Tartarugalzinho, Ferreira Gomes, Calcoene, Pracuuba e Oiapoque, somando pelo menos 11.748 hectares de vegeta\u00e7\u00e3o nativa destru\u00edda. At\u00e9 o final de setembro (24\/09), entretanto, dos 47 processos registrados, 24 n\u00e3o se encontram mais na lista p\u00fablica de embargos do Ibama \u2013 o equivalente a 84% da \u00e1rea total (em hectares) embargada em 2017. Os desembargos ocorreram com uma rapidez incomum a esse tipo de processo, que historicamente pode levar anos at\u00e9 sua conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora muitas das \u00e1reas embargadas na opera\u00e7\u00e3o Nova Fronteira estivessem licenciadas para cultivo pelo Instituto do Meio Ambiente e de Ordenamento Territorial do Estado do Amap\u00e1 (Imap), nenhuma apresentou autoriza\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o ambiental para a supress\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o \u2013 exig\u00eancia prevista no artigo n\u00ba26 da Lei n\u00ba12.651 de 2012 (novo C\u00f3digo Florestal).<\/p>\n<div class=\"events-box big-box left\">\n<div class=\"frame\">\n<div style=\"width: 456px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"open-img EnlargeImage\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2018\/07\/Embargos_Amapa2017setembro_final.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" id=\"ctl00_cphContentArea_Property3_ctl00_ctl04_Image1\" class=\"Thumbnail\" style=\"border-width: 0px;\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2018\/07\/Embargos_Amapa2017setembro_final.png\" alt=\"\" width=\"446\" height=\"576\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Mapa mostra os embargos por desmatamento no estado do Amap\u00e1 em 2017.<\/p><\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"frame\">O Greenpeace esteve em 18 das 34 \u00e1reas embargadas pela opera\u00e7\u00e3o Nova Fronteira. Destas, 83% estavam ocupadas por soja. Com base na lista disponibilizada pelo Ibama, foi poss\u00edvel constatar que algumas \u00e1reas embargadas pertencem a produtores ligados \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o do Produtores de Soja (Aprosoja). Na lista aparecem, ainda, nomes envolvidos em conflitos pela terra com as comunidades locais.<\/div>\n<\/div>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2018\/07\/Embargos-Amap\u00e1---Infra\u00e7\u00e3o-de-Flora-e-Nova-Fronteira-e-Desembargos.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Veja aqui a lista completa da situa\u00e7\u00e3o atual dos embargos de 2017<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2018\/07\/PDF_\u00e1reas_visitadas.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Veja tamb\u00e9m as \u00e1reas visitadas pelo Greenpeace em julho de 2017<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>O navio que saiu do porto de Santana em 2016 inclu\u00eda <a href=\"http:\/\/revistagloborural.globo.com\/Noticias\/Agricultura\/Soja\/noticia\/2016\/09\/amapa-inaugura-exportacao-de-soja-para-europa-com-25-mil-toneladas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o transporte de 80 mil sacas de soja proveniente de propriedades dos empres\u00e1rios Alexandre M\u00e1rcio Menin e Juliano Passos<\/a>. Em junho de 2017, Menin teve duas \u00e1reas embargadas na opera\u00e7\u00e3o &#8220;Nova Fronteira&#8221; do Ibama, nos munic\u00edpios de Itaubal e Macap\u00e1, somando 447 hectares. Menin faz parte da diretoria da Aprosoja no Amap\u00e1. As \u00e1reas em quest\u00e3o n\u00e3o se encontram mais na lista p\u00fablica de embargo do Ibama.<\/p>\n<p>As 25 mil toneladas de soja do primeiro carregamento exportado pelo Amap\u00e1, em 2016, foram desembarcadas em Liverpool, na Inglaterra. A Fiagril foi respons\u00e1vel pela comercializa\u00e7\u00e3o de toda a soja, importada pela empresa Mitsui &amp; Co Group. Em 2017, outro navio partiu do porto de Santana carregando 33,7 mil toneladas de soja. No site do porto de Santana h\u00e1 ainda a previs\u00e3o de um segundo navio de soja, que deve chegar no dia 6 de outubro para transportar 21 mil toneladas de soja. Por\u00e9m, o destino destes dois carregamentos n\u00e3o \u00e9 conhecido.<\/p>\n<h4><strong>Quem \u00e9 a empresa Fiagril?<\/strong><\/h4>\n<p>A empresa <a href=\"http:\/\/www.fiagril.com.br\/quem-somos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fiagril<\/a> surgiu em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, h\u00e1 30 anos. Hoje a comercializadora e processadora de gr\u00e3os possui 35 unidades, distribu\u00eddas entre Mato Grosso, Amap\u00e1 e Tocantins. Em 2016, a Fiagril abriu uma filial em Macap\u00e1 e uma fatia da empresa foi comprada pela Hunan Dakang Pasture Farming Co. Ltd., empresa chinesa controlada pelo PengxinGroup. \u00a0A Fiagril \u00e9 associada da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de \u00d3leos Vegetais (Abiove) e tamb\u00e9m faz parte da Morat\u00f3ria da Soja.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Amap\u00e1: no olho do furac\u00e3o do agroneg\u00f3cio\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WMnpcGJxRVA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h4><strong>Cercados pela soja<\/strong><\/h4>\n<p>O agravamento dos conflitos e da disputa pela terra \u00e9 a face mais perversa dos danos que atingem principalmente os camponeses e as popula\u00e7\u00f5es tradicionais com o avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio sobre biomas naturais. Nesse processo, a presen\u00e7a de diversas fam\u00edlias de pequenos agricultores no Amap\u00e1 foi ignorada pelos grandes produtores de soja, que foram se apropriando das terras ao longo da rodovia AP-070 e no seu entorno.<\/p>\n<p>Em 2013, Maria Saraca dos Santos Souza, o marido e seus filhos foram expulsos da \u00e1rea onde viviam. Nascida e criada na comunidade Pedreira do Abacate, certo dia foi surpreendida por um homem que se dizia dono de toda a \u00e1rea. \u201cEle chegou aqui e disse que era para gente se retirar da \u00e1rea porque tudo era dele. Ele disse que era para gente sair que n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos poder para brigar com ele na justi\u00e7a. Que o que valia era isso aqui\u201d, conta, fazendo o sinal de dinheiro com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Maria conta que um tempo depois estava em casa com os filhos, quando foi novamente surpreendida \u2013 desta vez pela pol\u00edcia \u2013 e for\u00e7ada a se retirar de sua casa de forma violenta &#8211; por ordem judicial. \u201cChegaram l\u00e1, pegaram o trator, passaram a corrente em cima da nossa casa e quebraram tudo\u201d, conta ela, que teve a planta\u00e7\u00e3o destru\u00edda e a casa derrubada.<\/p>\n<p>Segundo o relat\u00f3rio \u201cAmaz\u00f4nia, um bioma mergulhado em Conflitos\u201d, da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), o conflito teve in\u00edcio em 2013, quando a empresa Agrocerrado \u2014 nome fantasia da empresa Agropecu\u00e1ria Cerrado Verde \u2014 \u00a0instalou-se nas proximidades e come\u00e7ou a requerer v\u00e1rias \u00e1reas no entorno da rodovia AP-070. No mesmo ano, o caso foi parar na justi\u00e7a. A \u00e1rea total pretendida pela empresa era de cerca de 4 mil hectares, divididas em diversos lotes menores, cada um em nome de pessoas ligadas ao empres\u00e1rio Gilberto Laurindo.<\/p>\n<p>De acordo com o relat\u00f3rio, a \u00e1rea pretendida pela empresa se sobrepunha a v\u00e1rias outras, ocupadas historicamente por fam\u00edlias que nunca conseguiram regularizar sua situa\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria. O processo judicial inclui Celso Carlos dos Santos Junior, s\u00f3cio da empresa Agrocerrado (ou Agropecu\u00e1ria Cerrado Verde) e atual suplente do Conselho Fiscal da Associa\u00e7\u00e3o de Produtores de Soja (Aprosoja Brasil). A Agropecu\u00e1ria Cerrado Verde teve \u00e1reas embargadas na opera\u00e7\u00e3o Nova Fronteira, mas que j\u00e1 n\u00e3o constam mais na lista p\u00fablica de embargos do Ibama.<\/p>\n<p>Em 2003, a trabalhadora rural tentou regularizar a \u00e1rea que ocupava. Ela conta que entrou com um pedido de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria no Instituto do Meio Ambiente e de Ordenamento Territorial do <em>Amap\u00e1<\/em><em> (<\/em><em>Imap<\/em><em>)<\/em>. Na ocasi\u00e3o, Maria foi aconselhada a cancelar o pedido no \u00f3rg\u00e3o estadual e solicitar a regulariza\u00e7\u00e3o junto ao Incra, j\u00e1 que as terras eram da Uni\u00e3o, mas ainda n\u00e3o obteve sucesso.<\/p>\n<p>Os produtores de soja, por outro lado, parecem n\u00e3o encontrar obst\u00e1culos burocr\u00e1ticos para garantir o acesso \u00e0 terra. \u00a0\u201cEles chegam hoje e quando \u00e9 amanh\u00e3 j\u00e1 est\u00e3o com licen\u00e7a, trabalhando, derrubando&#8230; E a gente, que \u00e9 filho daqui da terra, que mora aqui h\u00e1 anos, nascido e criado, n\u00e3o tem nossos direitos que \u00e9 digno de ter. Passamos anos e anos para conseguir documenta\u00e7\u00e3o, licen\u00e7a, a gente n\u00e3o consegue, e eles de um dia para o outro conseguem rapidinho; tudo tem em m\u00e3o pra eles\u201d, indigna-se ela.<\/p>\n<p>Maria Saraca \u00e9 hoje uma das centenas de agricultores e agricultoras sem terras para cultivar. Acuada pela viol\u00eancia, vive h\u00e1 cerca de quatro anos com a fam\u00edlia na outra margem da rodovia AP-070, vendendo bolos e salgados \u00e0 caminhoneiros que passam pela rodovia, de frente para a terra que ela cuidou por quase dez anos. \u201cDaqui n\u00e3o tenho para onde ir porque n\u00e3o tenho casa. A minha casa era a\u00ed onde eu estava morando\u201d, diz. \u201cMinha casa era l\u00e1\u201d.<\/p>\n<div class=\"events-box big-box left\">\n<div class=\"frame\">\n<div style=\"width: 615px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"open-img EnlargeImage\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2018\/07\/GP0STR0UA_Medium_res1010.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" id=\"ctl00_cphContentArea_Property3_ctl00_ctl12_Image1\" class=\"Thumbnail\" style=\"border-width: 0px;\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2018\/07\/GP0STR0UA_Medium_res1010.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Maria Saraca dos Santos Souza, 43, foi expulsa de suas terras e hoje mora ao lado da rodovia AP-070, no Amap\u00e1. (\u00a9Otto Ramos\/Greenpeace)<\/p><\/div>\n<p>Perto dali, Feliciano Pereira Ramos Pican\u00e7o passou todos os 65 anos de sua vida no Quilombo do Amb\u00e9 e hoje acompanha com preocupa\u00e7\u00e3o o avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio nos limites do territ\u00f3rio que pertenceu a seus antepassados. Amb\u00e9, conta, \u00e9 o nome de um cip\u00f3 que existia em abund\u00e2ncia na regi\u00e3o e que \u00e9 como ele e sua comunidade: \u201cresistente a todas as press\u00f5es\u201d. Que s\u00e3o muitas.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Pican\u00e7o conta que espera h\u00e1 anos o reconhecimento oficial do quilombo. Enquanto isso, \u00e9 obrigado a ver, impotente, o avan\u00e7o da soja, que j\u00e1 chegou \u00e0s portas da comunidade: \u201cO plantio cada ano avan\u00e7a um pouco. O projeto de hoje era desmatarem aqui, praticamente dentro da nossa vila\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Segundo ele, esse avan\u00e7o da soja tem causado in\u00fameros preju\u00edzos \u00e0 comunidade, como o sumi\u00e7o dos animais de ca\u00e7a, a diminui\u00e7\u00e3o dos peixes e a conviv\u00eancia for\u00e7ada com os agrot\u00f3xicos pulverizados nas planta\u00e7\u00f5es. \u201cO veneno d\u00e1 um impacto muito grande, sem contar que a terra daqui, em dez anos, n\u00e3o vai produzir mais nada\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Em sua juventude, relembra, Feliciano podia colher cajus e mangabas do p\u00e9, assim como outras dezenas de frutos do Cerrado. \u00a0Mas os pomares e a biodiversidade j\u00e1 n\u00e3o existem mais. \u201c\u00c9 um direito adquirido que n\u00f3s tivemos desde o come\u00e7o dessa comunidade e n\u00e3o \u00e9 justo que algu\u00e9m venha e tome conta de tudo\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cO motivo do conflito tem sido a chegada do agroneg\u00f3cio, que, ocupando muito rapidamente uma \u00e1rea grande, de 19 mil hectares, n\u00e3o tem observado a exist\u00eancia ou pr\u00e9-exist\u00eancia dessas comunidades em muitas das regi\u00f5es do estado\u201d, afirma o promotor de Justi\u00e7a do Meio Ambiente de Macap\u00e1, Marcelo Moreira.<\/p>\n<p>O modelo de expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio, atualmente em curso no Amap\u00e1, reproduz mazelas que j\u00e1 se mostraram desastrosas em outras regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia: al\u00e9m do desmatamento ilegal e a contamina\u00e7\u00e3o de rios e solos, a concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria agrava as disputas violentas pela terra, com danos principalmente para as popula\u00e7\u00f5es locais.<\/p>\n<div class=\"events-box big-box left\">\n<div class=\"frame\">\n<div style=\"width: 615px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"open-img EnlargeImage\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2018\/07\/GP0STR0UE_Medium_res1010.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" id=\"ctl00_cphContentArea_Property3_ctl00_ctl14_Image1\" class=\"Thumbnail\" style=\"border-width: 0px;\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2018\/07\/GP0STR0UE_Medium_res1010.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Feliciano Pereira Ramos Pican\u00e7o, 64, morador do Quilombo do Amb\u00e9, no Amap\u00e1. (\u00a9Otto Ramos\/Greenpeace)<\/p><\/div>\n<h4><strong>Desmatamento Zero<\/strong><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O desmatamento das \u00e1reas de Cerrado na Amaz\u00f4nia \u00e9 invis\u00edvel aos olhos do governo e das empresas, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 monitorado pelos sistemas oficiais ou por acordos de mercado que visam o Desmatamento Zero. <a href=\"http:\/\/www.greenpeace.org\/archive-international\/Global\/international\/code\/2014\/amazon\/index_pt.html\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Desde 2006, o setor que opera na Amaz\u00f4nia se comprometeu a n\u00e3o comprar soja proveniente de \u00e1reas desmatadas ap\u00f3s 2008<\/a>. O acordo, conhecido como Morat\u00f3ria da Soja na Amaz\u00f4nia, completou 11 anos em maio de 2017. Segundo o Greenpeace, uma das ONGs que faz parte do Grupo de Trabalho da Soja (GTS), que monitora o acordo, o compromisso obteve avan\u00e7os importantes para conter o desmatamento nas \u00e1reas florestais na Amaz\u00f4nia, mas ainda n\u00e3o conseguiu conter o avan\u00e7o do gr\u00e3o sobre as \u00e1reas n\u00e3o-florestais \u2013 dentro e fora do bioma.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 fundamental que, a exemplo das \u00e1reas florestais da Amaz\u00f4nia, crit\u00e9rios como o Desmatamento Zero sejam exigidos pelo mercado para garantir que a produ\u00e7\u00e3o de soja n\u00e3o ocorra a partir da destrui\u00e7\u00e3o dos nossos biomas naturais e n\u00e3o torne o consumidor um c\u00famplice involunt\u00e1rio da destrui\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de Cerrado e dos conflitos com comunidades locais\u201d, defende Cristiane Mazzetti, da campanha da Amaz\u00f4nia do Greenpeace.<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 11 de setembro, organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, incluindo aquelas que participam da Morat\u00f3ria da Soja,<a href=\"http:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/pt\/Blog\/ambientalistas-pedem-que-mercado-pare-o-desma\/blog\/60195\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> publicaram um manifesto apelando ao mercado que interrompa o desmatamento no bioma Cerrado<\/a>, adotando pol\u00edticas e compromissos eficazes para eliminar o desmatamento e desvincular suas cadeias produtivas de \u00e1reas naturais recentemente convertidas para o plantio de gr\u00e3os ou pastagens.<\/p>\n<h4><strong>Veja a galeria de fotos:<\/strong><\/h4>\n<p><a title=\"Amap\u00e1: no olho do furac\u00e3o do agroneg\u00f3cio e da especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria\" href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/greenpeacebrasil\/albums\/72157688110022076\" data-flickr-embed=\"true\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/static\/planet4-brasil-stateless\/2018\/07\/36886538791_77966dde7a_z.jpg\" alt=\"Amap\u00e1: no olho do furac\u00e3o do agroneg\u00f3cio e da especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/a><script async=\"\" src=\"https:\/\/embedr.flickr.com\/assets\/client-code.js\" charset=\"utf-8\"><\/script><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alardeado como nova fronteira agr\u00edcola do pa\u00eds, estado reproduz problemas enfrentados em toda a Amaz\u00f4nia durante o \u201cboom\u201d do agroneg\u00f3cio: desmatamento, grilagem de terras e conflitos no campo.<\/p>\n","protected":false},"author":28,"featured_media":941,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ep_exclude_from_search":false,"p4_og_title":"","p4_og_description":"","p4_og_image":"","p4_og_image_id":"","p4_seo_canonical_url":"","p4_campaign_name":"","p4_local_project":"","p4_basket_name":"","p4_department":"","footnotes":""},"categories":[3],"tags":[22],"p4-page-type":[16],"class_list":["post-938","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-proteja-a-natureza","tag-florestas","p4-page-type-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/938","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/28"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=938"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/938\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58796,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/938\/revisions\/58796"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/media\/941"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=938"},{"taxonomy":"p4-page-type","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/wp-json\/wp\/v2\/p4-page-type?post=938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}