A vida entre baleias e mentiras

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Notícia - 9 - mar - 2010
Ativistas lutam por justiça em trama de corrupção, contrabando e julgamento mentiroso. Denúncia de crime no Japão pode levar defensores de baleia para trás das grades.

Ativistas interceptaram 23,5 kg de pedaços de carne nobre de baleia de navio japonês

SÃO PAULO - Conheçam a história de Junichi Sato e Toru Suzuki, os Tokyo Two. Os dois são ativistas do Greenpeace e verdadeiros bodes expiatórios da indústria baleeira japonesa. Há dois anos, denunciaram um esquema de contrabando de carne de baleia dentro do programa de pesquisa de cetáceos, financiado por dinheiro público. Desde então foram envolvidos em um processo judicial corrupto e mal intencionado e hoje lutam não só pelas baleias, mas pela própria liberdade.

Por mais de vinte anos, sob o argumento falacioso de pesquisa científica, o Japão mantém um programa baleeiro de matança indiscriminada no Santuário do Atlântico Sul que desrespeita não só a Moratória da Caça Comercial de Baleias, estipulada internacionalmente em 1982, como o dinheiro público, usado para financiar o crime ambiental. Sucessivos apelos internacionais pelo fim da prática esbarram na pesada pressão política de Tóquio, que legitima com unhas e dentes e programa de caça. 

O que a população japonesa parece desconhecer é que os bilhões de yenes que gasta neste programa não retorna em forma de ciência, muito menos de benefícios para seus financiadores. A carne que deveria ser vendida pelas agências governamentais com a finalidade única de restituir o imposto pago, vai para as mãos da tripulação do navio clandestinamente, em uma rede de venda ilegal sabida, aceita e praticada não só pela Agência Governamental de Pesca, como também pelo Instituto de Pesquisa de Cetáceos, órgão responsável por regular a caça científica.

Enquanto os cortes mais valiosos engordam contrabandistas, a carne barata não chega nem a ser processada, sendo jogada para fora do navio. Tanto desperdício doeria no bolso, caso o programa baleeiro seguisse o parâmetro randômico estipulado para a caça. Mas, ao invés disso, desde 2005, não só o número de baleias caçadas começou a aumentar vertiginosamente, como evidências levam a crer que as baleias eram escolhidas a dedo, de acordo com o maior potencial de venda da sua carne.

Foi deste tabuleiro nebuloso, onde se movem o governo japonês, o Instituto de Pesquisa de Cetáceos e os navios baleeiros, que há dois anos, em janeiro de 2008, uma peça escapuliu. Um funcionário aposentado da Kyodo Senpaku, empresa dona de uma das frotas, procurou na época o Greenpeace: queria denunciar o esquema de corrupção e fornecer detalhes sobre como era realizada a operação de contrabando. Começava aí uma investigação minuciosa sobre a venda da carne no mercado e a rotina das frotas baleeiras, seguindo as pistas lançadas pelo ex-funcionário, logo endossadas por outros dois membros da mesma tripulação. 

Poucos meses depois, em 15 de abril, o Nissun Maru, navio da empresa Kyodo Senpaku, atracava no porto de Tóquio. Como de costume, era possível observar de longe uma enorme quantidade de caixas – cerca de vinte para cada tripulante,  aparentemente contendo material de uso pessoal, sendo descarregadas para caminhões. Desconfiados, nossos investigadores seguiram a carga até o armazém, onde puderam sentir, e estranhar, o peso de embalagens etiquetadas como papelão. 

Assim como o informante havia descrito, o disfarce de papelão encobria 23,5 kg de pedaços da carne mais nobre de baleia, no valor de cerca de 3 mil dólares, envoltos em roupas. O conteúdo ilegal foi interceptado e entregue ao Ministério Público, junto com fitas e outros materiais de evidência. Junichi e Toru aguardaram então por um inquérito oficial contra o esquema de corrupção.

O resultado, no entanto, passou longe do esperado. O inquérito chegou a ser aberto, e arquivado e, pouco tempo depois, a denúncia distorcida e um processo aberto por roubo e invasão de propriedade que pretende trancar os ativistas por dez anos atrás das grades.

O julgamento dos dois, que ficaram internacionalmente conhecidos como os Tokyo Two, tem sido desde então um catálogo de erros, condenado pela Anistia Internacional e o Centro de Direitos Humanos da ONU. A detenção, executada por nada menos que 75 policiais, deixou-os por 23 dias presos sem acusação formal, com direito a interrogatório violento sem a presença de um advogado e a recusa em adicionar documentos relevantes para a defesa no processo. 

Enquanto a lei japonesa dá as costas para os padrões da justiça internacional, uma sucessão de divergências desmascara os verdadeiros culpados. Em um primeiro depoimento, a Kyodo Senpaku chegou a afirmar que carne de baleia jamais fora distribuída pelos funcionários do navio. Em uma segunda versão, disse que apenas as partes ‘menos nobres’ eram presenteadas. Por fim, uma das testemunhas, tripulante do Nissun Maru assumiu que a recebiam carne de baleias bebês, mais macias e com alto valor de venda no mercado.
 
Detrás de uma grossa tela de proteção para não ser identificado, o antigo funcionário e parceiro do Greenpeace na investigação testemunhou contra os baleeiros. Baseado em quase quarenta anos de trabalho como tripulante do navio, a testemunha confirmou saber que carne de baleia era entregue como ‘souvenir’ a parlamentares japoneses e oficiais da Agência de Pesca do Governo.
E o que é pior: os próprios membros do Instituto de Pesquisa de Cetáceos (ICR) levavam para casa grandes quantidades de valiosos cortes da cauda do animal, alegando fins científicos. A testemunha, afirmou também ter sido coagido pela polícia de Tóquio a negar ter presenciado, ou participado, de contrabando dentro do navio.

O processo continua em maio e chegará a um veredicto em junho. Desde a prisão de Junichi e Toru, em junho de 2008, mais de 250 mil pessoas no mundo já assinaram uma petição online cobrando justiça para os ‘Tokyo Two’.

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EDSON ARRABAL says:

Um dia pretendo cumprimentar pessoalmente Sato San e Suzuki San

Enviado 26 - mai - 2010 às 22:48 Denunciar abuso Reply

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