Com menos proteção e forte atuação do agronegócio, Cerrado viu a área com alertas de desmatamento aumentar em 43% em 2023, enquanto na Amazônia houve queda de 50%

Desmatamento registrado em Porto Velho, em agosto de 2023, durante o monitoramento de desmatamento e queimadas o Greenpeace Brasil. (© Marizilda Cruppe / Greenpeace)

Dados do sistema Deter-B, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), divulgados nesta sexta-feira (12), indicam 5.153 km² de alertas de desmatamento na Amazônia em 2023. Isso representa uma redução de 49,86% em comparação com os alertas de desmatamento de 2022, que totalizaram 10.278 km² no período. Em contrapartida, Cerrado viu o desmatamento disparar.

Em relação à Amazônia, foi registrada também uma diminuição de 14,25% nos focos de calor, em relação ao ano de 2022, apesar das condições climáticas extremas intensificadas pelo El Niño no ano passado. Os estados com as maiores áreas de alertas foram Pará (1.904 km²), Mato Grosso (1.408 km²) e Amazonas (895 km²), que vêm se mantendo no topo do ranking dos três estados com mais alertas de desmatamento.

Observando os municípios mais desmatados, é relevante destacar Altamira (PA) com 234,49 km², Apuí (AM) com 208,90 km² e Feliz Natal (MT) com 183,46 km². Entre os dez municípios amazônicos com mais alertas de desmatamento, o estado do Amazonas ocupa quatro posições.

Além disso, observou-se uma redução nos alertas de desmatamento em Unidades de Conservação (UCs) e Terras Indígenas na Região Norte do país. O desmatamento total atingiu 99,24 km² dentro das TIs e 341,66 km² dentro das UCs, representando uma diminuição de 48,19% e 67,37%, respectivamente, em comparação com o ano de 2022. É fundamental ressaltar que, apesar da diminuição, esses desmatamentos não deveriam ocorrer nessas áreas, que, de modo geral, não permitem a retirada da vegetação nativa  

Para Ana Clis Ferreira, porta-voz do Greenpeace Brasil, a redução de alertas de desmatamento na Amazônia está atrelada à forte atuação dos órgãos de controle e fiscalização: “Em 2023, órgãos como Ibama, que sofreram um desmonte durante o governo anterior, tiveram autonomia para trabalhar, fiscalizar e multar os desmatadores e propagadores de incêndios florestais. É possível afirmar que essas ações colaboram diretamente para a redução do desmatamento e dos focos de calor na Amazônia ao longo do ano. Infelizmente, o órgão essencial para a fiscalização dessas ilegalidades, encontra-se de greve, frente a contínua desvalorização dos funcionários que exigem melhores condições de trabalho e reajuste salarial.” 

Cerrado entregue ao agro destruidor

Apesar do cenário de queda na Amazônia, o Cerrado perdeu 7.852km² de vegetação nativa em 2023, um aumento de 43,73% em comparação ao ano anterior, segundo o sistema de alertas de desmatamento.

Dados do Deter Cerrado, referente à 2023. (Inpe)

A área desmatada é, pela primeira vez em anos, maior do que a área desmatada na Amazônia, e se concentrou na região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), considerada “modelo” para o agro que desmata. Segundo dados do Deter, dos dez municípios que concentraram maior área com alertas de desmatamento, os nove primeiros integram o Matopiba, com destaque negativo para São Desidério, na Bahia (357 km²).

O segundo maior bioma do Brasil já perdeu metade da sua vegetação nativa e o desmatamento segue aumentando, tendo como principal vetor a expansão da produção de commodities, entre elas a soja. Em um contexto de emergência climática e rápida perda da biodiversidade, é preciso olhar com mais atenção para as políticas públicas, estaduais e federais, que regulam a produção agrícola e o desmatamento na região, onde, pelo Código Florestal, é permitida a supressão de até 65% da vegetação nativa de uma propriedade, enquanto na Amazônia essa porcentagem máxima é de 20%.

“Para que possamos continuar diminuindo os alertas de desmatamento e de fogo na Amazônia e mudar o cenário atual do Cerrado, é preciso uma ação coordenada entre governo federal e os governos estaduais, somado a valorização dos órgãos e das pessoas que atuam diretamente no campo. Desta forma, podemos começar a avançar para alcançar a meta de desmatamento zero”, completa Ferreira.