Operação quebra-gelo: os bastidores de O Grande Milagre

Notícia - 8 - mar - 2012
Hollywood leva para as telas a incrível história do resgate de três baleias-cinzas, em 1988, no Alasca, protagonizada por uma ativista do Greenpeace. Campbell Plowden, então coordenador da campanha de baleias da organização relembra os detalhes da ação que deu origem ao filme.

A manhã em que eu ouvi a notícia

Atriz Drew Barrymore em cena do filme O Grande MIlagre. (Divulgação/Universal Pictures)

Quando acordei na manhã de 14 de outubro de 1988, ouvi brevemente no rádio a notícia de que algumas baleias-cinzas haviam sido vistas em alguns buracos no gelo sobre o mar, próximo de Barrow, no Alasca. Os buracos estavam fechando rapidamente, o que fatalmente levaria à morte dos animais.

Fiquei triste ao ouvir a notícia, uma vez que eu me importava muito com as baleias. Porém, aquele era um evento natural e, naquele momento, eu não considerei que poderia ou deveria tentar fazer algo a respeito.

Como coordenador da campanha de baleias do Greenpeace EUA, eu tinha grandes desafios por enfrentar. Estávamos travando uma grande batalha para deter a indústria baleeira. Nossa atenção estava voltada para a Islândia, país que matava baleias fin ameaçadas de extinção como parte de seu programa de "pesquisa".

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Uma semana antes, eu tinha recebido a melhor notícia sobre nosso boicote internacional, que já durava 18 meses, sobre os produtos da pesca islandesa e a pressão sobre as empresas norte-americanas e europeias que compravam deles.

A cadeia de restaurantes de frutos do mar Long John Silver’s havia cancelado um contrato de US$ 7 milhões para comprar pescado de um grande exportador do país. O Primeiro-Ministro Islandês e o parlamento estavam discutindo publicamente sobre parar ou não com seu programa de caça às baleias.

Ao chegar ao escritório do Greenpeace, em Washington, a recepcionista me entregou uma pilha de recados. Expressando o eufemismo da semana, ela disse: "muita gente ligou perguntando o que o Greenpeace vai fazer para salvar as baleias presas no gelo no Alasca."

Na mesma hora, eu percebi que não tínhamos escolha sobre se devíamos ou não aceitar este incidente como um evento natural. Lidar com isso acabara de se tornar nossa obrigação. Eu tinha que dar o meu melhor e aproveitar a oportunidade para também salvar muito mais baleias ao redor da Islândia.

Os bastidores

O filme dramatiza o resgate dessas baleias e se concentra quase que exclusivamente sobre os acontecimentos no Alasca envolvendo a comunidade Inuit de Barrow, que eram caçadores de baleias, o governo, várias pessoas da indústria, além de uma apaixonada coordenadora da Campanha de Vida Selvagem do Greenpeace no Alasca, Cindy Lowry (caracterizada como Rachel no filme).

No momento em que essa história virou notícia nacional, parecia que as baleias tinham sido isoladas nos poucos buracos restantes por cerca de uma semana. Os observadores achavam que elas só sobreviveriam mais alguns dias. O objetivo técnico era quebrar oito quilômetros de gelo entre as baleias e o mar aberto. Eu tomei uma rápida lição com meus colegas sobre como me movimentar nas relações, muitas vezes arriscadas, entre o Greenpeace, caçadores de baleias nativos do Alasca, empresas petrolíferas, biólogos, jornalistas e uma variedade de funcionários militares, do governo estadual e federal, o que seria igualmente desafiador.

A primeira solução óbvia para este problema era encontrar um quebra-gelo que pudesse abrir um caminho para as baleias. Descobri rapidamente que o governo dos EUA não seria capaz de ajudar com isso. O governo tinha apenas dois navios que eram fortes o suficiente para o trabalho, um deles estava há várias centenas de quilômetros de distância, afastando-se de Barrow e preso no gelo. A outro quebra-gelo da guarda costeira passava por reparos em Seattle. As esperanças de conseguir um navio quebra-gelo privado também não duraram muito. A companhia petrolífera Amoco tinha um, mas estava a mais de 240 quilômetros de distância.

Desde o 1º dia, eu comecei a conversar com Ed Simmons, o primeiro coordenador do navio Rainbow Warrior, sobre maneiras de quebrar o gelo ou outras formas de tirar as baleias de lá. Pessoas de todo o país começaram a ligar com suas sugestões. As idéias incluíam explosivos, uma broca de água de alta velocidade usada para cortar concreto, um laser portátil, bombas a jato, um PASER - dispositivo de erosão de partícula a vapor usado para cortar vidro e aço, e uma máquina de mineração com dentes rotativos. Outras abordagens consideradas foram por via aérea, içar as baleias para outro lugar ou atrair os animais para a liberdade com sons de baleias. Algumas idéias eram intrigantes, mas acabaram não sendo viáveis, pois não conseguiríamos ter o equipamento certo no local a tempo, apresentavam muito perigo para as baleias, e/ou demandaria mais energia para funcionar do que a disponível na região.

Ficamos com duas idéias sólidas. A empresa Veeco, que apóia a indústria de petróleo, estava disposta a fornecer uma barcaça que poderia ajudar a fazer um caminho através do gelo mais próximo das baleias, que era inferior a 1 pé de espessura. A realidade inevitável, porém, era que também precisávamos de uma forma de romper um cume de pressão entre as baleias e o mar que era de mais de 35 pés de espessura. Se não tivéssemos um quebra-gelo disponibilizado pelo governo dos EUA ou pela indústria, precisaríamos pedir à União Soviética se teriam um que pudesse ajudar.

Nossas conversas iniciais com o Governo dos Estados Unidos para tentar esta última opção não foram animadoras. O presidente Reagan não era conhecido por seu amor pela União Soviética e a idéia de fazer a então potência comunista enviar um ou mais dos seus navios para águas norte-americanas para ajudar a salvar duas baleias parecia absurda.

A União Soviética matava até 169 baleias-cinzas por ano com a justificativa de fornecer comida tradicional para os nativos do seu lado do mar de Beaufort. Mas, quatro anos antes, o Greenpeace havia mostrado que a maioria dessas baleias era, de fato, usada para alimentar visons em uma fazenda de peles ao lado da estação baleeira. Se o governo dos EUA não pudesse descobrir uma maneira de salvar essas baleias por conta própria, então talvez os nativos do Alasca pudessem ir em frente e capturá-las para completar sua pesca de baleias da Groelândia.

Uma pessoa havia telefonado dizendo que tinha acesso ao empresário industrial Armand Hammer, que supostamente tinha boas relações com os russos. Ela ligou de volta muito frustrada, dizendo que a secretária do Sr. Hammer havia sido rude com ela.

Os meios do Greenpeace

O Greenpeace, no entanto, tinha seus próprios meios dentro do império do mal. O ex-presidente do Greenpeace Internacional, David McTaggart, vinha cultivando uma série de relacionamentos com funcionários da União Soviética para, eventualmente, abrir um escritório no país. Enviei uma mensagem para David perguntando-lhe se ele conhecia algum funcionário com quem pudéssemos entrar em contato. Foi assim que chegamos ao nome de Arthur Chilingarov. Ele era do Comitê Nacional de Hidrometeorologia e Controle do Meio Ambiente Natural e chefe de Operações do Ártico e da Antártida para a União Soviética.

Ele parecia a pessoa certa para conversarmos. Enquanto a equipe do Greenpeace tinha seu próprio sistema para enviar e receber mensagens eletrônicas antes da internet e e-mail existirem, o resto do mundo enviava texto via telex. Isso envolvia digitar uma mensagem em uma máquina que fazia padrões de furos em um longo pedaço de papel. Esta tira era colocada no cabeçote da máquina que enviava a mensagem através de linhas telefônicas para uma máquina de telex do destinatário. Depois de várias chamadas para a embaixada soviética, descobri um número de telex para Chilingarov. Enviamos a mensagem sem saber quando ou se receberíamos qualquer tipo de resposta.

Carta de Campbell Plowden para David McTaggert

Outros eventos progrediram no 3º e 4º dia. Cindy Lowry tinha ido de Anchorage para Barrow para chegar o mais próximo possível da operação de resgate. Chegar lá não foi fácil, já que as baleias estavam há 15 km (45 minutos de moto de neve) de Barrow. Relatórios dela e de outros que estavam por lá, sobre o estado das baleias, não eram bons. Cindy achava que elas não podiam ver bem e estavam batendo a cabeça no gelo - a menor baleia tinha cortes bem feios. Elas provavelmente não eram capazes de se alimentar, pois a água era muito rasa. O padrão de respiração das baleias mostrava claros sinais de estresse, e uma das maiores parecia ter pneumonia. Oficiais achavam que não era prudente dar medicamentos, por medo de estressá-las ainda mais.

A barcaça Veeco estava, supostamente, a caminho, bem como o especialista em comunicação animal, Jim Nollman, que esperava poder persuadir as baleias em direção à liberdade com a utilização de som. O laboratório de Mamíferos Marinhos, em Seattle, disse que eles estavam enviando até gravações de baleias cinzentas. Os esquimós sairiam para caçar baleias-da-groenlândia em breve, mas por enquanto eles estavam empenhados em salvar essas baleias cinza. Deram-lhes os nomes inupiat de Siku (gelo), Putu (buraco no gelo), e Knik (floco de neve). Arnold Brower, chefe da Comissão Baleeira Alaskan-Esquimó, e outros Inuits estavam no gelo cortando novos buracos de respiração para as baleias.

A semana mais louca

No Greenpeace, passei muitos dias estressantes, ocupado com ações diretas e outras atividades. Mas aquela semana foi uma das mais loucas. Meu ouvido estava dolorosamente ferido de tanto pressionar o telefone contra ele. Além de ter ficado em contato com Cindy sobre o resgate das baleias e boicote de peixes, eu tive que lidar muito com a mídia. Eu fui convidado em dois programas nacionais matutinos e conversei com dezenas de repórteres que representavam grandes agências de notícias, jornais, televisão e estações de rádio. No 5º dia de resgate, levantei-me às 4h para ser entrevistado no programa Good Morning Ulster da Irlanda do Norte. Foi muito emocionante, mas também foi frustrante, porque a maioria dos repórteres só queria ouvir sobre o drama no Alasca. Tentei, quando possível, fazer um lembrete de que o mundo também deve fazer alguns esforços para salvar as vidas de milhares de baleias em perigo por causa dos arpões dos baleeiros da Islândia, Japão e Noruega.

A notícia do cancelamento de um contrato de US$ 7 milhões da Long John Silver’s para comprar peixe de um grande exportador da Islândia estava, no entanto, dando umas chacoalha nas coisas neste país. A empresa de pesca Samband vendeu suas ações da companhia baleeira, e o Primeiro Ministro islandês especulou publicamente que seu país poderia interromper sua operação baleeira de pesquisa durante um ano. O cancelamento do contrato nos Estados Unidos estava abastecendo nosso outro boicote na Alemanha, onde os maiores compradores de peixes estavam agora prestes a cancelar seus próprios contratos. O gabinete e o parlamento islandês começaram a debater o que fazer com o programa baleeiro, tendo em vista os ataques à sua indústria de pesca por parte dos "terroristas econômicos".

Por volta do 6º dia, a barcaça Veeco hover estava tendo muitos problemas, então, alternativas foram necessárias. Eu atendi vários telefonemas de pessoas que tinham recentemente visto filmes com forças especiais em ação. Essas sugestões incluíam cargas de fósforo e bombas de termita. Uma chamada veio de um especialista de verdade - um oficial do Esquadrão de Eliminação e Organização de Explosivos de Adak, Alasca. Ele me disse que tinha experiência, equipamentos e vontade de ajudar. Eles poderiam colocar cargas em um círculo para explodir uma série de buracos grossos no gelo. Eles teriam de consultar o Centro de Armas da Marinha e o manual de demolição de gelo sobre distâncias de segurança para explodir este tipo de carga. Eles foram impedidos de agir por conta própria, então nos pediram para contatar o Chefe de Operações Navais e solicitar que ele enviasse sua equipe para Barrow.

No dia seguinte, neve estava caindo nos buracos que as baleias estavam usando para respirar. Sem entraves pela burocracia, algumas pessoas de Minnesota haviam voado para Barrow, às próprias custas, com uma máquina de degelo conduzida por gerador. Era basicamente um jacuzzi portátil, cujas bolhas ajudavam a dissolver a pasta de gelo na água que estava impedindo a capacidade de respirar das baleias.

Finalmente, ficou claro que a barcaça hover não ia chegar a tempo, então os militares dos Estados Unidos tentaram ajudar no resgate da melhor maneira possível. Um helicóptero mamute Chinook tentou derrubar um bloco maciço de concreto sobre o gelo, içá-lo de volta em um cabo e soltá-lo novamente. A técnica funcionou muito bem para quebrar o gelo, mas tinha uma grande falha. Ele quebrou o gelo em pedaços, mas os buracos resultantes não eram claros o suficiente para as baleias usá-los, e uma jacuzzi de Minnesota não ia ajudar.

Quando ficou claro para o Ministro das Finanças da Islândia, em Reykjavik, que a suspensão de um ano na caça às baleias não atrapalharia o boicote de peixe, uma proposta foi lançada para detê-la por quatro anos. O Ministro da Pesca da Islândia, no entanto, defendeu vigorosamente a continuação da caça às baleias e ameaçou demitir-se se medidas fossem tomadas para reduzir a caça às baleias. O Ministério das Relações Exteriores da Islândia disse ao Secretário de norte-americano de Estado, George Schultz, que seu governo não iria parar a caça, e não era adequado para seu primeiro-ministro ter especulado sobre esta cessação antes de ter consultado todo o seu gabinete.

O Primeiro-Ministro, em seguida, voltou atrás, e disse que foi mal interpretado sobre suas observações anteriores. Ficamos agora na esperança de que um congressista islandês pró-baleias apresentasse uma resolução ao parlamento islandês pedindo ao governo para parar o programa de caça. Confidencialmente, ele pediu ao Greenpeace para manter a pressão para melhorar suas chances de aprovação. Passei uma manhã investigando a Embaixada da Islândia e encontrando a localização de cada consulado islandês dentro dos EUA. Certamente todas as notícias sobre as baleias em perigo no Alasca poderiam dar um impulso às manifestações contra a matança pura e simples de centenas de baleias "para pesquisa" na Islândia.

No dia seguinte, alguns meios de comunicação locais de Washington mostraram interesse em nossos protestos contra a caça islandesa de baleias.  O outro grande impulso que estávamos usando para parar a pesca baleeira islandesa era uma ação contra o governo dos EUA por não cumprir sua própria lei. De acordo com a Emenda Pelly, os Estados Unidos podiam impor uma proibição sobre a importação de produtos de pesca de qualquer país que o Secretário de Comércio identificasse que estaria agindo contra a eficácia de um acordo internacional de conservação da pesca. Parecia claro que a contínua caça da Islândia estava fazendo exatamente isso, uma vez que o Comitê Científico da CBI (Comissão Baleeira Internacional) tinha afirmado que o programa de caça da Islândia não se justificava por razões científicas e toda a CBI tinha passado uma resolução, com o apoio dos Estados Unidos, pedindo à Islândia para interromper este programa de “pesquisa" desacreditado.

Após uma semana do início da saga do Alasca, quando as coisas estavam parecendo realmente péssimas, nós recebemos uma resposta positiva de Arthur Chilingarov. Os soviéticos tinham dois navios quebra-gelo que ajudar no resgate das baleias. O almirante Makarov poderia estar lá em dois dias após reabastecer. O único problema era que Chilingarov pediu nossa ajuda para obter as necessárias autorizações do governo dos Estados Unidos. Os rumores voavam pelos meios de comunicação no Alasca de que os soviéticos poderiam enviar um navio quebra-gelo, mas não quisemos confirmar isso por medo de frustrar as negociações e as baleias morrerem muito antes de quaisquer navios aparecerem. Os Estados Unidos não queriam, abertamente, pedir a ajuda dos soviéticos e os soviéticos não podiam simplesmente oferecer sua ajuda e ficar com cara de bobo se os Estados Unidos negassem.

O Serviço Nacional de Pesca Marinha (NMFS - National Marine Fisheries Service) tinha experiência prévia na obtenção de permissão para barcos de pesca soviéticos entrarem em águas norte-americanas, mas isso era algo diferente. Eles haviam chegado apenas ao ponto de obter a permissão do Departamento de Defesa para perguntar aos soviéticos se um navio estaria disponível. Devido à natureza deste caso, no entanto, a decisão tinha sido escalada para o Departamento de Estado. Inicialmente, ficamos felizes ao ouvir que o Secretário Adjunto de Estado, John Negroponte (que mais tarde se tornou um embaixador de destaque na administração Bush), seria favorável. Mas coube a mim apresentar nosso caso para um de seus assessores, Tucker Skully.

Liguei para Skully do escritório de Anne Dingwall, que ouviu o final da minha conversa. Relatei-lhe os passos que tomamos para primeiro encontrar um navio quebra-gelo dos EUA, contatos subsequentes com os soviéticos, e o pedido de Chilingarov para a nossa assistência. Skully disse que o Governo estava ciente da opção do navio quebra-gelo soviético e estava analisando sua viabilidade. Dada a situação de vulnerabilidade que as baleias estavam, perguntei-lhe quando eles deveriam tomar uma decisão. Skully se ofendeu consideravelmente com minha pergunta, sugerindo que seu departamento precisava de nossa ajuda para considerar o assunto e suas implicações (correto, na verdade), e que o Governo ainda não havia dado sinal verde para os navios quebra-gelo soviéticos ajudarem no resgate das baleias por razões políticas. Ele encerrou a conversa com raiva e desligou na minha cara.

Última chance das baleias

Contei rapidamente para Anne quais foram as palavras de Skully. Eram quatro horas de uma sexta-feira e parecia improvável que alguém no Departamento de Estado anunciasse qualquer decisão durante o fim de semana. As baleias estavam padecendo. A baleia menor, Knik (“floco de neve”), havia parado de vir à tona e, presumidamente, já tinha se afogado sob o gelo. Era hora de assumir um risco calculado para colocar o governo dos Estados Unidos como humildes heróis na missão de tentar salvar as baleias restantes.

Telefonei para a agência de notícias Associated Press e disse: “Gostaria de informá-los que a União Soviética enviará dois navios quebra-gelo para ajudar a fazer um caminho para as baleias presas no Alasca”. Os meios de comunicação logo repercutiram a notícia com variações da frase, “Os russos estão chegando - para salvar as baleias!”. Na manhã de segunda-feira, um porta-voz da NMFS do Departamento de Comércio informou que um Acordo do Meio Ambiente de 1976 entre os Estados Unidos e a União Soviética estava sendo referenciado como dispositivo diplomático para autorizar a entrada do Almirante Makarov e Arsenev Vladmir nas águas territoriais dos Estados Unidos.

Trabalho em equipe

No final, o resgate foi um verdadeiro trabalho de equipe entre os esquimós e os governos dos Estados Unidos e da União Soviética, com o Greenpeace e os meios de comunicação ajudando na retaguarda. A coisa mais eficaz que os militares dos EUA acabaram fazendo foi enviar um avião de transporte C-130 cheio de motosserras. Quando esquemas elaborados e máquinas falharam, os caçadores Inuit utilizaram as motosserras para cortar uma série de buracos no gelo, espaçados cerca de 35m de distância ao longo de 1,6 quilômetros.

Conforme as duas baleias médias passavam para um buraco mais perto do mar, os Inuits cobriam os buracos mais perto da costa com plástico, para evitar que elas retornassem. Eles não puderam ir mais longe porque o gelo estava ficando mais espesso. Eles haviam chegado a águas profundas o suficiente, porém, para acomodar os quebra-gelos soviéticos que atravessaram o gelo e criaram um caminho temporário de 4,8 km até o oceano. Quando eu soube que as baleias tinham eventualmente entendido o que estava acontecendo e nadaram rumo à liberdade, eu fiquei mais aliviado do que alegre.

Nem eu nem ninguém jamais verá a maior parte do meu trabalho de bastidores para salvar as baleias. Em silêncio, eu rezava por estas duas sobreviventes. Parecia uma ironia cruel saber que, enquanto dois navios soviéticos haviam desempenhado um papel crucial na libertação dos animais, outro navio soviético poderia facilmente arpoá-las como qualquer outra baleia no mar de Beaufort para servir de alimento para visons no ano seguinte. Fiquei feliz em receber de um amigo do NMFS um decalque que comemorava o resgate conjunto. Tinha a imagem de baleias-cinzas colocando as cabeças para fora d’água com as palavras, Operação Quebra-Gelo costuradas tanto em Russo como em inglês.

Tivemos o nosso protesto contra a caça às baleias em frente à Embaixada da Islândia, em Washington, DC, mas não foi muito bem atendido pelos defensores, nem foi coberto por grande parte da mídia. A campanha de boicote, no entanto, seguiu em frente. Várias outras cadeias de fast-food juntaram-se a Long John Silvers no cancelamento de contratos para comprar pescado da Islândia até que o país abandonasse a caça comercial. Um coordenador do Greenpeace em Boston convenceu mais de 50 distritos escolares na Nova Inglaterra a assumir um compromisso similar. Nós não conseguimos convencer o Burger King a seguir o exemplo, mas eles pararam de chamar seu sanduíche de peixe de O Baleeiro. As ações de boicote combinadas nos Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido custaram à Islândia mais de US$ 50 milhões. O governo islandês não parou o seu plano de pesquisa baleeira imediatamente, mas no final de sua temporada de três anos, não o renovou.

A administração Reagan não tomou nenhuma ação contra a caça islandesa - documentos revelados durante a fase de investigação do processo mostraram que os Estados Unidos não queriam perturbar um país considerado como importante aliado da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

A Islândia abandonou a CBI em 1992 para continuar a caça sem restrições, mas voltou atrás em 2006. O país retomou a matança de baleias para fins abertamente comerciais com a intenção de vender a carne da baleia para o Japão, algo que até agora têm sido incapazes de fazer. O secretário de Comércio dos Estados Unidos declarou em 2010 que a Islândia promoveu a  matança de várias centenas de baleias e violou a moratória de 1982, relativa à atividade baleeira comercial.

A carta de certificação representa o desejo do governo dos Estados Unidos de que a Islândia pare com a caça, mas impõe apenas medidas diplomáticas, em lugar de sanções mais duras, como uma proibição de importação de peixe da Islândia. Japão e Noruega também estão ativamente envolvidos na pesca de baleia, embora numa escala muito menor do que anteriormente.

Eu trabalhei com o Greenpeace e a Humane Society dos Estados Unidos durante por 14 anos para parar a matança comercial de baleias. Agora dedico a maior parte do meu tempo à conservação da floresta e apoio aos meios sustentáveis de subsistência ​​nativa da Amazônia, através de uma organização que fundei chamada Centro de Ecologia de Comunidades da Amazônia. Espero que o filme O Grande Milagre possa inspirar a geração atual para superar suas diferenças e continuar trabalhando para trazer a paz para as baleias por políticas sensatas de proteção dos oceanos e de todos os preciosos ambientes da Terra.

Campbell Plowden é ex-coordenador da campanha de baleias do Greenpeace EUA e Greenpeace Internacional. Atualmente, ele é diretor executivo do Centro de Ecologia de Comunidades da Amazônia.