Ativistas do Greenpeace coletam amostra de água contaminada em poço de Juazeiro, Caetité (BA).
Após oito meses de investigação, o Greenpeace encontrou
contaminação radioativa em amostras de água usada para consumo
humano, coletadas na área de influência direta da mineração de
urânio no município de Caetité, na Bahia (BA). A mina e uma unidade
de beneficiamento de urânio são gerenciadas pela Indústrias
Nucleares do Brasil (INB). A denúncia, que demonstra que a geração
de energia nuclear é perigosa e poluente desde a sua origem, faz
parte do relatório Ciclo do Perigo - Impactos da Produção de
Combustível Nuclear no Brasil, que o Greenpeace lançou nesta
quinta-feira (16/10) em São Paulo.
"A denúncia é muito grave e reforça a necessidade de uma
investigação independente urgente sobre a qualidade da água e as
condições de saúde da população que vive no entorno da INB", afirma
Rebeca Lerer, coordenadora da campanha de Energia Nuclear do
Greenpeace. "O caso mostra que os impactos e riscos da energia
nuclear começam na origem do combustível que alimenta as usinas de
Angra dos Reis e o Programa Nuclear Brasileiro".
Confira nosso site
especial da denúncia.
A coleta das amostras de água para consumo humano e animal foi
feita por uma equipe do Greenpeace em abril de 2008, em pontos
localizados dentro de um raio de 20 quilômetros ao redor da
mineração de urânio da INB em Caetité. As amostras foram
encaminhadas a um laboratório independente credenciado no Reino
Unido para a realização de análises. Pelo menos duas amostras de
água apresentaram contaminação por urânio muito acima dos índices
máximos sugeridos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo
Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama).
A amostra de água colhida de um poço artesiano a cerca de oito
quilômetros da mina apresentou concentrações de urânio sete vezes
maiores do que os limites máximos indicados pela OMS, e cinco vezes
maiores do que os especificados pelo Conama. Outra amostra,
coletada de uma torneira que bombeia água de poços artesianos da
área de influência direta do empreendimento da INB, estava com o
dobro do limite estabelecido pela OMS e acima do índice Conama.
Baixe o
relatório.
Segundo os habitantes das comunidades que utilizam água das
fontes analisadas, a INB colhe amostras em intervalos regulares
para análises, mas as informações sobre a qualidade da água não são
repassadas à população. Uma vez liberado no meio ambiente, o urânio
entra na cadeia alimentar humana pelo consumo de água ou de
alimentos contaminados, como leite e vegetais. De acordo com a
bibliografia médica e científica disponível, a ingestão contínua de
urânio, ainda que em pequenas doses, pode causar danos à saúde,
tais como ocorrência de câncer e problemas nos rins.
"Os sentimentos das populações dos municípios de Caetité e de
Lagoa Real são de silêncio e indiferença, talvez pelo resultado de
uma imposição da INB", afirma Osvaldino Alves Barbosa, padre da
catedral de Caetité. "Mas quando o assunto aparece, as pessoas
ficam apreensivas, com medo e até aterrorizadas."
Segundo padre Osvaldino, o desafio agora é articular com a
sociedade civil a divulgação das informações necessárias, exigir
dos governos do Estado e federal o respeito aos direitos humanos da
população e monitoramento dos que trabalham na mina e vivem nas
comunidades do entorno dela, bem como garantir a investigação
independente do nível de radioatividade na água consumida por
todos.
"Para isso instituímos em Caetité uma Comissão Paroquial de Meio
Ambiente para tentar concretizar essas demandas", afirma padre
Osvaldino.
O relatório Ciclo do Perigo revela que os riscos de contaminação
da água foram apontados no EIA/Rima do empreendimento, sendo,
assim, velhos conhecidos da INB e dos órgãos licenciadores e
fiscalizadores da atividade de mineração do urânio - Ibama e
Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). O estudo detalha ainda
problemas e controvérsias no licenciamento ambiental e nuclear,
além de infrações e acidentes ocorridos na operação de extração,
beneficiamento e transporte do urânio.
Para atender a demanda de combustível com a eventual construção
de Angra 3, o setor nuclear planeja duplicar a capacidade produtiva
anual da INB de 400 para 800 toneladas de yellow cake (concentrado
de urânio) e iniciar a exploração da mina de urânio de Santa
Quitéria, no Ceará.
"Enquanto os verdadeiros impactos da mineração de urânio em
Caetité permanecem desconhecidos, o governo Lula adota políticas de
incentivo à geração nuclear no Brasil, ignorando os altos riscos e
custos sociais e ambientais dessa tecnologia. Os interesses
comerciais e militares na mineração do urânio e fabricação de
combustível nuclear estão falando mais alto do que a segurança da
população e do meio ambiente no país", afirma Rebeca Lerer. "A
poluição e o perigo da energia nuclear começam na mineração e
culminam com os rejeitos altamente radioativos que saem das usinas
nucleares. A sociedade brasileira não quer conviver com ameaças
nucleares e depósitos de lixo radioativo."
O Greenpeace e entidades sociais e ambientais da Bahia
encaminharam a denúncia ao Ministério Público Federal da Bahia,
exigindo a realização de investigação independente sobre a fonte e
extensão da contaminação, bem como as condições de operação da INB
e o cumprimento das condicionantes dispostas no licenciamento
ambiental. A organização também solicitou ao INGA - Instituto de
Gestão das Águas, do governo da Bahia, que suspenda as outorgas de
água concedidas à INB até que a contaminação seja solucionada.
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