Discurso de Frank Guggenheim no lançamento do Greenfreeze

Notícia - 6 - out - 2004

Gostaria de agradecer a BSH-Continental pelo convite para participar do lançamento da geladeira R6, a primeira geladeira sem fluorcarbonos produzida no Brasil.

Provavelmente muitos de vocês estão surpresos em encontrar o diretor executivo do Greenpeace participando do lançamento de uma geladeira, já que ficamos famosos por atacar esse setor pela contribuição à destruição do nosso clima.

Considero o evento de hoje a celebração de uma vitória de campanha. Para explicar este fato curioso, mas não tão raro como vocês podem pensar, preciso fazer um pequeno excurso histórico.

O Greenpeace lançou em meados dos anos oitenta uma campanha mundial contra as substâncias que destrõem a camada de ozônio. Como sempre, nestas ocasiões, o Greenpeace foi acusado de ser contra o progresso, contra a indústria e irrealista.

Em 1987, participamos das negociações do Protocolo de Montreal, onde se iniciou o processo de banimento dos aerossóis. Na mesma época, a área científica do Greenpeace começou a desenvolver técnicas de refrigeração que dispensavam os fluorcarbonos, substituindo-os por isobutanos e outros gases não nocivos à camada de ozônio. O que era considerado uma idéia irrealista tornou-se realidade em 1992, demonstrando mais uma vez que quando há vontade política, sempre se encontra um caminho técnico. É preciso ressaltar que o Greenpeace nunca patenteou esta tecnologia, já que o objetivo da organização é proporcionar a qualquer empresa do mundo o acesso a ela. O Greenpeace também não recebe nenhum benefício econômico pela venda destas geladeiras.

Nesse meio tempo, a tecnologia Greenfreeze já se tornou padrão na Europa, China, Japão e Austrália.

No entanto, o que não surpreende é que esta tecnologia ainda não tenha sido introduzida nos EUA. Esta tecnologia, nos EUA é chamada de forma depreciativa de tecnologia alemã, e lá, a Du Pont, é líder de mercado na produção de FKW e não usa este gás nocivo em seus produtos.

Como vocês vêem, o Greenpeace desenvolve campanhas públicas globais procurando eliminar substâncias que ameaçam o meio ambiente e a saúde humana.

Anteontem mesmo, o Greenpeace lançou aqui em SP uma Expedição promovendo as Energias Positivas, isto é, energias renováveis e sustentáveis. A Expedição percorrerá o Brasil visitando 33 cidades, cobrindo 14mil km, durante 80 dias e promovendo o potencial energético de cada região. Ao passarmos por Brasília, entregaremos ao governo brasileiro um dossiê com artigos científicos desenvolvidos por várias universidades brasileiras a pedido do Greenpeace contendo propostas concretas de como utilizar energias renováveis no Brasil, como, no passado, fizemos com o Greenfreeze.

Parafraseando Joyeeta Gupta, existe uma coreografia delicada entre governos, companhias transnacionais e ONGs ambientalistas.

Algumas vezes esta coreografia é uma dramática confrontação, em outras ocasiões, esta confrontação leva a colaboração edificante como é o caso daqui hoje.

Gostaria de terminar parabenizando a BSH-Continental por este lançamento. Temos certeza que é um passo na direção certa. Sabemos que ser pioneiro é sempre difícil e custoso. Esperamos que as outras produtoras de geladeiras, como a Brastemp, sigam este bom exemplo. Não há mais desculpa para não fazê-lo.

Por fim, gostaria de fazer uma proposta à BSH-Continental. Sabemos que o Presidente Lula está reformando o Palácio da Alvorada e proponho que a BSH-Continental junte-se ao Greenpeace numa ação direta não violenta: na véspera da conferência de clima COP 10, entregaremos um geladeira para a casa nova do presidente, como ato simbólico que estimule o presidente a garantir um papel mais pro-ativo do governo na questão de mudanças climáticas.

Frank Guggenheim

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