Gostaria de agradecer a BSH-Continental pelo convite para
participar do lançamento da geladeira R6, a primeira geladeira sem
fluorcarbonos produzida no Brasil.
Provavelmente muitos de vocês estão surpresos em encontrar o
diretor executivo do Greenpeace participando do lançamento de uma
geladeira, já que ficamos famosos por atacar esse setor pela
contribuição à destruição do nosso clima.
Considero o evento de hoje a celebração de uma vitória de
campanha. Para explicar este fato curioso, mas não tão raro como
vocês podem pensar, preciso fazer um pequeno excurso histórico.
O Greenpeace lançou em meados dos anos oitenta uma campanha
mundial contra as substâncias que destrõem a camada de ozônio. Como
sempre, nestas ocasiões, o Greenpeace foi acusado de ser contra o
progresso, contra a indústria e irrealista.
Em 1987, participamos das negociações do Protocolo de Montreal,
onde se iniciou o processo de banimento dos aerossóis. Na mesma
época, a área científica do Greenpeace começou a desenvolver
técnicas de refrigeração que dispensavam os fluorcarbonos,
substituindo-os por isobutanos e outros gases não nocivos à camada
de ozônio. O que era considerado uma idéia irrealista tornou-se
realidade em 1992, demonstrando mais uma vez que quando há vontade
política, sempre se encontra um caminho técnico. É preciso
ressaltar que o Greenpeace nunca patenteou esta tecnologia, já que
o objetivo da organização é proporcionar a qualquer empresa do
mundo o acesso a ela. O Greenpeace também não recebe nenhum
benefício econômico pela venda destas geladeiras.
Nesse meio tempo, a tecnologia Greenfreeze já se tornou padrão
na Europa, China, Japão e Austrália.
No entanto, o que não surpreende é que esta tecnologia ainda não
tenha sido introduzida nos EUA. Esta tecnologia, nos EUA é chamada
de forma depreciativa de tecnologia alemã, e lá, a Du Pont, é líder
de mercado na produção de FKW e não usa este gás nocivo em seus
produtos.
Como vocês vêem, o Greenpeace desenvolve campanhas públicas
globais procurando eliminar substâncias que ameaçam o meio ambiente
e a saúde humana.
Anteontem mesmo, o Greenpeace lançou aqui em SP uma Expedição
promovendo as Energias Positivas, isto é, energias renováveis e
sustentáveis. A Expedição percorrerá o Brasil visitando 33 cidades,
cobrindo 14mil km, durante 80 dias e promovendo o potencial
energético de cada região. Ao passarmos por Brasília, entregaremos
ao governo brasileiro um dossiê com artigos científicos
desenvolvidos por várias universidades brasileiras a pedido do
Greenpeace contendo propostas concretas de como utilizar energias
renováveis no Brasil, como, no passado, fizemos com o
Greenfreeze.
Parafraseando Joyeeta Gupta, existe uma coreografia delicada
entre governos, companhias transnacionais e ONGs
ambientalistas.
Algumas vezes esta coreografia é uma dramática confrontação, em
outras ocasiões, esta confrontação leva a colaboração edificante
como é o caso daqui hoje.
Gostaria de terminar parabenizando a BSH-Continental por este
lançamento. Temos certeza que é um passo na direção certa. Sabemos
que ser pioneiro é sempre difícil e custoso. Esperamos que as
outras produtoras de geladeiras, como a Brastemp, sigam este bom
exemplo. Não há mais desculpa para não fazê-lo.
Por fim, gostaria de fazer uma proposta à BSH-Continental.
Sabemos que o Presidente Lula está reformando o Palácio da Alvorada
e proponho que a BSH-Continental junte-se ao Greenpeace numa ação
direta não violenta: na véspera da conferência de clima COP 10,
entregaremos um geladeira para a casa nova do presidente, como ato
simbólico que estimule o presidente a garantir um papel mais
pro-ativo do governo na questão de mudanças climáticas.
Frank Guggenheim