
O Greenpeace denunciou hoje, em entrevista coletiva, que a
empresa Gerdau Riograndense contamina o meio ambiente e a população
com PCB, uma substância química altamente tóxica também conhecida
como ascarel . A coletiva, realizada a bordo do navio MV Arctic
Sunrise, contou com a presença de representantes do Governo do Rio
Grande do Sul e da FIERGS (Federação das Industrias do Estado do
Rio Grande do Sul), que reafirmaram os compromissos assumidos em
1999 para erradicar emissões industriais tóxicas no estado.
"A contaminação por ascarel, um tipo de POP (Poluente Orgânico
Persistente), é um atentado à natureza e à saúde humana. Casos como
o da Gerdau não podem ser tolerados", diz Karen Suassuna, da
campanha de substâncias tóxicas do Greenpeace. "O governo gaúcho se
comprometeu a implementar o Protocolo POPs (1) no estado e a
trabalhar para que suas diretrizes sejam adotadas em âmbito
nacional. A FIERGS destacou seu compromisso em eliminar a poluição
tóxica nos próximos 8 anos. Porém, a poluição gerada pela Gerdau
prova que o discurso ainda está muito distante da realidade".
O ascarel está proibido no Brasil desde 1981. As amostras
coletadas na planta da Gerdau em Sapucaia do Sul, região
metropolitana de Porto Alegre, apresentaram ascarel tipo Arocloro
1254, substância extremamente tóxica. Na poeira emitida pela
empresa, foram identificados 162 compostos poluentes. Foram
detectadas também altas concentrações de metais pesados como
cádmio, mercúrio e zinco. O teor de chumbo encontrado é 20 vezes
maior do que a ocorrência natural deste metal.
Em carta enviada à empresa, o Greenpeace listou demandas e
exigiu que a Gerdau comprometa-se a realizar suas atividades
industriais sem contaminar o meio ambiente (2). "Amanhã (05/01), às
10 horas, estaremos na porta da fábrica para tomar conhecimento da
resposta da Gerdau", diz Suassuna.
O navio MV Arctic Sunrise chegou a Porto Alegre ontem de manhã e
permanece na cidade até o próximo dia 8, quando segue viagem para
Santos (SP) e Rio de Janeiro (RJ). É a etapa brasileira da
Expedição das Américas, que já passou pelo Chile e pela Argentina e
visitará ainda México e EUA.
(1) O Protocolo visa, inicialmente, a eliminação de 12
substâncias químicas conhecidas como Poluentes Orgânicos
Persistentes, ou POPs. Os POPs são as substâncias mais perigosas já
produzidas pelo homem, porque são bioacumulativas e persistem por
muito tempo no meio ambiente. A exposição aos POPs já foi
relacionada a uma ampla gama de efeitos na saúde, como câncer,
disfunções do sistema hormonal e reprodutor, endometriose e efeitos
no desenvolvimento de crianças e fetos. O Protocolo POPs será
assinado em Estocolmo, em maio deste ano. O texto do documento foi
acordado em Joanesburgo, África do Sul, durante a reunião do
Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas (PNUMA), em
dezembro de 2000, na presença de 122 países. A eliminação do PCB,
ou ascarel, está prevista no Protocolo POPs.
(2) Confira a íntegra da carta do Greenpeace enviada à Gerdau
Riograndense.
Porto Alegre, 04 de janeiro de 2001
À
Gerdau Riograndense
A/C Sr. Sirleu Protti - Diretor
Industrial
C/C Sr. Cláudio Langone
Secretário Estadual de Meio Ambiente
do Rio Grande do Sul
REF.: Poluição Tóxica na Planta de
Sapucaia do Sul / Gerdau Riograndense
Senhores,
À vista dos resultados de análises
químicas de amostras colhidas no entorno da planta da Gerdau
Riograndense, em Sapucaia do Sul, expostos no Relatório Técnico em
anexo, vemos como necessário que a empresa:
1) Comprometa-se a realizar suas
atividades industriais sem contaminar o meio ambiente:
1.1) investigue as possíveis fontes
da contaminação apresentada no relatório em anexo, divulgue
publicamente os resultados e elimine esta fonte de
contaminação;
1.2) pare de comprar sucata
contaminada por compostos organoclorados, formadores ou precursores
de dioxinas;
1.3) pare de comercializar pó de
aciaria e resíduos contaminados do processo produtivo, uma vez que
são materiais perigosos;
2) Elabore um inventário da
contaminação ambiental produzida pela planta, incluindo metais
pesados e organoclorados;
3) Atenda as demandas das comunidades
afetadas pela contaminação;
4) Dê acesso público ao monitoramento
ambiental da planta, das suas emissões de metais pesados e
organoclorados.
Dada a gravidade da contaminação
existente, bem como das emissões que continuam comprometendo a
saúde pública e o meio ambiente, esperamos uma resposta pública às
propostas acima apresentadas até as 10 horas de amanhã, 05 de
janeiro de 2001. Nesta data e hora, estaremos na porta da Gerdau
Riograndense em Sapucaia do Sul para tomar conhecimento da posição
da empresa.
Atenciosamente,
Roberto Kishinami
Diretor Executivo
Greenpeace Brasil
Confira também o Sumário Executivo e a íntegra do relatório denunciando a contaminação por parte
da Gerdau.