Greenpeace denuncia: Gerdau envenena população e meio ambiente no RS

Notícia - 3 - jan - 2001
Na mesma ocasião, Federação das Indústrias e Governo do Estado reafirmaram compromisso para eliminar fontes de poluição tóxica

O Greenpeace denunciou hoje, em entrevista coletiva, que a empresa Gerdau Riograndense contamina o meio ambiente e a população com PCB, uma substância química altamente tóxica também conhecida como ascarel . A coletiva, realizada a bordo do navio MV Arctic Sunrise, contou com a presença de representantes do Governo do Rio Grande do Sul e da FIERGS (Federação das Industrias do Estado do Rio Grande do Sul), que reafirmaram os compromissos assumidos em 1999 para erradicar emissões industriais tóxicas no estado.

"A contaminação por ascarel, um tipo de POP (Poluente Orgânico Persistente), é um atentado à natureza e à saúde humana. Casos como o da Gerdau não podem ser tolerados", diz Karen Suassuna, da campanha de substâncias tóxicas do Greenpeace. "O governo gaúcho se comprometeu a implementar o Protocolo POPs (1) no estado e a trabalhar para que suas diretrizes sejam adotadas em âmbito nacional. A FIERGS destacou seu compromisso em eliminar a poluição tóxica nos próximos 8 anos. Porém, a poluição gerada pela Gerdau prova que o discurso ainda está muito distante da realidade".

O ascarel está proibido no Brasil desde 1981. As amostras coletadas na planta da Gerdau em Sapucaia do Sul, região metropolitana de Porto Alegre, apresentaram ascarel tipo Arocloro 1254, substância extremamente tóxica. Na poeira emitida pela empresa, foram identificados 162 compostos poluentes. Foram detectadas também altas concentrações de metais pesados como cádmio, mercúrio e zinco. O teor de chumbo encontrado é 20 vezes maior do que a ocorrência natural deste metal.

Em carta enviada à empresa, o Greenpeace listou demandas e exigiu que a Gerdau comprometa-se a realizar suas atividades industriais sem contaminar o meio ambiente (2). "Amanhã (05/01), às 10 horas, estaremos na porta da fábrica para tomar conhecimento da resposta da Gerdau", diz Suassuna.

O navio MV Arctic Sunrise chegou a Porto Alegre ontem de manhã e permanece na cidade até o próximo dia 8, quando segue viagem para Santos (SP) e Rio de Janeiro (RJ). É a etapa brasileira da Expedição das Américas, que já passou pelo Chile e pela Argentina e visitará ainda México e EUA.

(1) O Protocolo visa, inicialmente, a eliminação de 12 substâncias químicas conhecidas como Poluentes Orgânicos Persistentes, ou POPs. Os POPs são as substâncias mais perigosas já produzidas pelo homem, porque são bioacumulativas e persistem por muito tempo no meio ambiente. A exposição aos POPs já foi relacionada a uma ampla gama de efeitos na saúde, como câncer, disfunções do sistema hormonal e reprodutor, endometriose e efeitos no desenvolvimento de crianças e fetos. O Protocolo POPs será assinado em Estocolmo, em maio deste ano. O texto do documento foi acordado em Joanesburgo, África do Sul, durante a reunião do Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas (PNUMA), em dezembro de 2000, na presença de 122 países. A eliminação do PCB, ou ascarel, está prevista no Protocolo POPs.

(2) Confira a íntegra da carta do Greenpeace enviada à Gerdau Riograndense.

Porto Alegre, 04 de janeiro de 2001

À

Gerdau Riograndense

A/C Sr. Sirleu Protti - Diretor Industrial

C/C Sr. Cláudio Langone

Secretário Estadual de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul

REF.: Poluição Tóxica na Planta de Sapucaia do Sul / Gerdau Riograndense

Senhores,

À vista dos resultados de análises químicas de amostras colhidas no entorno da planta da Gerdau Riograndense, em Sapucaia do Sul, expostos no Relatório Técnico em anexo, vemos como necessário que a empresa:

1) Comprometa-se a realizar suas atividades industriais sem contaminar o meio ambiente:

1.1) investigue as possíveis fontes da contaminação apresentada no relatório em anexo, divulgue publicamente os resultados e elimine esta fonte de contaminação;

1.2) pare de comprar sucata contaminada por compostos organoclorados, formadores ou precursores de dioxinas;

1.3) pare de comercializar pó de aciaria e resíduos contaminados do processo produtivo, uma vez que são materiais perigosos;

2) Elabore um inventário da contaminação ambiental produzida pela planta, incluindo metais pesados e organoclorados;

3) Atenda as demandas das comunidades afetadas pela contaminação;

4) Dê acesso público ao monitoramento ambiental da planta, das suas emissões de metais pesados e organoclorados.

Dada a gravidade da contaminação existente, bem como das emissões que continuam comprometendo a saúde pública e o meio ambiente, esperamos uma resposta pública às propostas acima apresentadas até as 10 horas de amanhã, 05 de janeiro de 2001. Nesta data e hora, estaremos na porta da Gerdau Riograndense em Sapucaia do Sul para tomar conhecimento da posição da empresa.

Atenciosamente,

Roberto Kishinami

Diretor Executivo

Greenpeace Brasil

Confira também o Sumário Executivo e a íntegra do relatório denunciando a contaminação por parte da Gerdau.

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