O Dia é do Consumidor, mas o direito de saber a origem do que compramos não!

Para marcar o lançamento da campanha “Carne ao molho madeira”, que mostra como os supermercados estão ajudando a devastar a Amazônia, o Greenpeace realizou, em 2015, uma ação em uma loja do Pão de Açúcar para conscientizar os consumidores sobre a relação entre o desmatamento, a pecuária e a carne que chega à sua mesa. © Zé Gabriel / Greenpeace

No dia 15 de março comemora-se o Dia Mundial dos Direitos do Consumidor. Data criada para celebrarmos os direitos garantidos pelo Código de Defesa do Consumidor. Mas entra ano, sai ano, e os consumidores brasileiros ainda não têm respeitado seu direito de saber com clareza a origem e composição dos produtos de sua alimentação.

Mais do que nunca, o consumidor brasileiro está exposto a uma quantidade bizarra de veneno na comida, em volumes cada vez maiores e em combinações cujos efeitos ainda são desconhecidos. Como se não bastasse,  estamos expostos à carne contaminada com desmatamento e trabalho escravo. Infelizmente, apesar de promessas e compromissos de mercado, medidas condizentes com a urgência climática que vivemos ainda não estão sendo adotadas como deveriam.

Os supermercados líderes em vendas no Brasil, Grupo Pão de Açúcar (GPA)  e Carrefour , tão eficientes em fazer promessas em matéria de sustentabilidade, assumiram, em 2016, compromisso de tirar o desmatamento causado pela pecuária de suas gôndolas até 2020. Mas, até agora, pouco fizeram para implementar de forma eficiente a promessa que fizeram para a sociedade e seus consumidores. Na prática, tais varejistas ainda correm grande risco de estarem vendendo carne associada ao trabalho escravo e desmatamento da Amazônia, tornando a sociedade cúmplice de um crime de que não têm sequer conhecimento e alternativas para solucioná-lo. A tal da liberdade de escolha do consumidor vira história para boi dormir nesse reinado de propaganda e “autopromoção verde” das empresas.

Esses grupos varejistas não tem tratado com a transparência devida as informações sobre a evolução das etapas de implementação de seus compromissos. Desde que afirmou que eliminaria o desmatamento ofertado a seus clientes, em março de 2016, o GPA apresentou dois informes cheios de números abstratos e pouco resultados práticos. O Carrefour está ainda pior no quesito transparência. Não apresentou nem um mísero informe, depois de realizar um evento enorme de anúncio da política, realizado em Cuiabá, na sede do governo do estado, seguido de projeto piloto para promover a produção de bezerros livres de desmatamento. “É pouco, muito pouco diante do que é preciso ser feito diante da urgência das mudanças climáticas que não apenas ameaçam o futuro das próximas gerações, mas já impacta a vida das populações atuais, especialmente as mais pobres e também ameaça o negócio de empresas globais que atuam na produção de grãos e insumos”,  diz Adriana Charoux, da campanha de Amazônia do Greenpeace.

Supermercados fizeram poucos avanços para limpar suas cadeias de fornecimento e informar seus consumidores. © Zé Gabriel / Greenpeace

Para piorar, há uma clara sinalização política de que os mecanismos que asseguram a saúde da população e a proteção do meio ambiente serão enfraquecidos. Os exemplos são infinitos no campo da produção e consumo de alimentos. A garota veneno, ministra Tereza Cristina, está cumprindo à risca a cartilha ditada pela bancada ruralista no Congresso, da qual era líder antes de assumir o novo cargo, de aprovar em ritmo acelerado vários agrotóxicos, sapateando na cara da sociedade que se mobilizou para dizer “chega de veneno”.

Em seu relatório mais recente, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas sublinhou o papel vital das florestas na limitação da temperatura global do planeta, para que não se eleve acima dos 1,5ºC, ponto  que, se ultrapassado, poderá acirrar ainda mais eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e enchentes como as que presenciamos em diversos locais no Brasil nos últimos dias. O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, enfatizou a necessidade de se acabar com o desmatamento, e falou da importância de adotarmos  “medidas urgentes e muito mais ambiciosas” e “Mudanças sem precedentes” para a forma como a terra é usada e as mercadorias são produzidas.

Muitas empresas prometem justamente essas reformas há quase uma década, incluindo os Grupos Carrefour e Pão De Açúcar. Se no Brasil, assumiram o compromisso há quase 4 anos, desde 2010 os grupos globais a que pertencem já haviam se comprometido em acabar com o desmatamento nas cadeias de soja, gado, óleo de palma e papel e celulose até 2020.

O tempo está se esgotando. O ano de 2020 começa daqui a pouco. Ações urgentes e muito mais ambiciosas e mudanças sem precedentes são de fato a única opção. Greenpeace e consumidores do Brasil e mundo estão aqui para refrescar a memória das empresas e não deixar essa responsabilidade passar desapercebida.

As novas gerações já perceberam isso e, no mesmo dia em que comemoramos as conquistas dos direitos do consumidor, jovens e crianças de todo o mundo decidiram não mais se calar e realizam uma gigantesca Greve pelo Futuro para exigir algo mínimo, um direito básico: que nós como sociedade, nossos governos e as empresas chefiadas por adultos que nos fornecem produtos tenham responsabilidade com o futuro e o mundo que deixaremos para eles. Uma mensagem tão poderosa, que é impossível de ser ignorada.