Seguimos descendo o Rio Doce para expor os impactos da lama da Samarco. Moradores de Gov. Valadares contam sobre o drama da falta de água e índios Krenak reagem à morte do rio

 

Os moradores de Governador Valadares são taxativos: o Rio Doce morreu. Na cidade mineira de mais de 270 mil habitantes, por onde passamos nesta segunda-feira 16 de novembro, não têm água potável há pelo menos dez dias, quando o mar de lama e rejeitos minerais da Samarco atingiu o principal rio que abastece a região.

A equipe de documentação e pesquisa Greenpeace falou com pescadores, ribeirinhos, donas de casa e comerciantes da maior cidade do leste mineiro para entender como essa tragédia afeta suas vidas e o cotidiano das vítimas de um dos maiores crimes ambientais da atualidade.

Encontramos o balseiro Erlânio Messias à beira do Rio Doce, no bairro de Santa Terezinha, perto do centro da cidade. Ele vive de sua pequena embarcação, cobrando 1,50 por travessia dos moradores. Embarcamos e perguntamos a Erlânio onde ficavam os bairros em situação mais complicada. “Todos”, disse ele. “Além das pessoas afetadas, os restaurantes tão fechando, as escolas, o comércio. Só hoje que voltou a cair água da torneira, mas água suja, barrenta. Usar pra fazer comida não dá. Mal mal tomar um banho, e rápido para não ser contaminado”. Ele ri, mas não parece feliz.

Enquanto fazíamos imagens do agora marrom Rio Doce e puxávamos assunto com os passageiros, o pescador Antônio Rosa da Silva, sentado num cantinho da balsa, começou a contar o que viu no dia em que o rio foi tomado pela lama. “Era só barro, barro, barro”, balança os braços, indignado, pontuando sua fala. “A água ficou parada, cheia de lama. Dava para ver os peixes morrendo, procurando por oxigênio. Eu não vou ver mais esse rio recuperado não”.

Seguimos às margens do Rio Doce, rumo aos bairros mais afastados, e conseguimos falar com o ribeirinho Alvany Medeiros, que mora há mais de 45 anos em Governador Valadares. Sempre viveu do que o rio lhe oferecia, seja como balseiro, dragueiro ou pescador. “O que aconteceu nesse rio foi a pior coisa que eu já vi na minha vida. Nós aqui não temos mais peixe, não temos mais água... Todo mundo tá sentindo na pele né, você paga uma média de 200 reais de água por mês. Uma água de péssima qualidade, mas vai fazer o que? É o que tem”. Ele olha bem para nós: “Agora vai lá na torneira, no tanque e cheira a água, vai ver a caatinga de cloro. Aí você não pode beber, tem que comprar água mineral, e se não comprar fica sem água”. 

Moradores pegam água do caminhão do exército em Governador Valadares (MG) (© Victor Moriyama/Greenpeace)

 

Tá com sede? Pega a fila

Procuramos pontos de distribuição de água para a população de Governador Valadares e chegamos ao bairro afastado de Penha, onde duas caixas d’água de 20 mil litros ocupavam o pátio de um colégio público. Aparentemente vazio, a líder comunitária Maria Clara explica que o caos em busca de água se deu no fim de semana. “Deu até tiro, menino. A polícia teve que vir aqui. Mas no final deu tudo certo, tirando o nosso rio que está morto”.

Recebemos a indicação que o Exército Brasileiro estaria em alguns pontos de doação auxiliando a distribuição de água para os moradores. Fomos então até o bairro de Vila Mariana, mais próximo do centro, para registrar uma longa fila na porta de outro colégio público.

A dona de casa Maria Conceição do Nascimento, de 57 anos, afirma que desde o começo da interrupção do abastecimento de água na cidade, há cerca de quinze dias, aquele era o primeiro dia em que as doações eram oferecidas em seu bairro. “Hoje eu já vim, peguei, levei em casa e voltei. É a terceira vez que eu tô pegando, porque tão dando só cinco litros né. E água a gente bebe rápido...”. A entrevista foi interrompida pelo caminhão carregado de garrafas de água mineral, que foi aplaudido pela população que esperava na fila.

Responsável pela operação, o Tenente Lucas Rotatori, do 12º Batalhão de Infantaria de Belo Horizonte, conversou conosco em frente à porta da escola, enquanto pessoas de todas as idades pegavam seus pesados garrafões de água. “Nós temos a missão de auxiliar os órgãos públicos e de segurança da distribuição de água para a população. Até agora ocorre tudo bem, sem nenhuma ocorrência de distúrbio. Chegamos no sábado e estamos preparados para ficar no mínimo sete dias”.

Ao nos despedirmos, avistamos Maria Conceição subindo uma das inúmeras ladeiras de seu bairro irregular carregando os dez litros de água que conseguiu após uma hora na fila. Governador Valadares segue em estado de calamidade pública.

Krenak sobre trilhos

Na cidade de Redenção (MG), a 120 quilômetros de Governador Valadares, o povo indígena Krenak armou acampamento na ferrovia de carga da Vale, uma das acionistas da Samarco ao lado da anglo-australiana BHP Billiton, para bloquear a passagens dos trens da mineradora em forma de protesto.

“Nossa reivindicação? É água. A gente quer água”. Injustiçados, dizimados e ainda assim resistente ao longo dos anos, o povo Krenak teve sua Terra Indígena cortada ao meio pelos trilhos que transportam toneladas de minérios todos os dias. Fazendeiros também ocupam seu território e reafirmam que vão sair sob indenização do governo.

Índios da etnia Burun Krenak protestam nos trilhos que cortam sua Terra Indígena e pedem água. Os trens que passam por ali transportam toneladas de minérios todos os dias. (© Victor Moriyama/Greenpeace)

 
O ancião Euclides Krenak, com 103 anos de idade, lembra de outros tempos, de outro uatu: “Quando eu era jovem era tudo mato aqui. A gente caçava os peixes, brincava na água, tomando banho no calor... nessa época eu tinha 16 anos”, conta vagarosamente, como se seus olhos enxergassem aquele distante passado já tão longe da realidade. “Hoje, nem a água para beber a gente tem, peixe não tem mais, não dá pra tomar banho, nem os braços dá pra lavar mais no rio”. O ancião chora.

Os mais jovens falam. Sentados em grande número nos trilhos do trem, lado a lado, mostraram placas contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que ameaça por um fim na demarcação de Terras Indígenas no Brasil. Em uníssono, cantam um música sobre o Rio Doce, como que velando a morte de seu uatu.

Daniel Krenak explica o que o Rio Doce e sua morte significa para a cultura Krenak: “É como a morte de um parente nosso, é a morte de um Krenak. Esse rio tem para nós um elo entre o passado, o presente e também o futuro. Esse rio é uma parte nossa que morreu”.

Antes de partirmos, guerreiros Krenak voltam de uma reunião com representantes da Vale, quando apresentaram suas demandas para a liberação dos trilhos. Segundo a liderança Anderson Krenak, a Vale prometeu caixas d'água, caminhões-pipa e intervenções para a captação de água potável, além de recursos financeiros para suprir os prejuízos com a caça e a pesca. “Que não sejam promessas vazias. Senão amanhã estaremos aqui de novo”.

No final dia, pegando a estrada, ouvimos pelo rádio que o Ministério Público de Minas Gerais estabeleceu uma multa de 1 bilhão de reais em reparações socioambientais à Samarco.


Expedição Desastre Samarco em Mariana-MG. Dias 3 e 4.