
Estudo da revista científica Nature Ecology & Evolution mostra que uma operação experimental de mineração reduziu a vida marinha no trajeto do equipamento
O fundo do mar costuma aparecer no debate social como um ecossistema distante, de pouco entendimento coletivo e quase ausente de vida, um lugar fora do alcance dos olhos e das políticas públicas. É justamente essa distância que torna a mineração em águas profundas tão perigosa, porque aquilo que quase ninguém vê pode ser tratado como se quase não importasse.
Mas um estudo publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution ajuda a tirar essa discussão do campo da hipótese. Em 2022, uma operação experimental de mineração em águas profundas foi realizada na Zona Clarion-Clipperton, uma região oceânica entre o México e o Havaí, no Oceano Pacífico, que concentra minerais de grande interesse econômico.
Dois meses após o início das atividades, os pesquisadores encontraram uma queda de 37% na densidade de macrofauna no trajeto percorrido pelo equipamento de mineração.
- Macrofauna é o nome dado a animais que vivem em sedimentos oceânicos ou sobre eles e que são iguais ou maiores do que um grão de ervilha. No fundo do mar, isso pode incluir vermes, pequenos crustáceos, moluscos e outros organismos que compõem a comunidade viva do leito oceânico.
- Sedimento, por sua vez, é a camada de partículas que cobre o fundo do mar. Para quem observa de longe, pode parecer apenas lama. Para aqueles que vivem no mar profundo é casa, alimento e refúgio.
Por que querem retirar minerais do fundo do oceano?
A mineração em águas profundas é a atividade de retirar minerais do fundo do oceano, em áreas que podem estar a quilômetros de profundidade. Um dos principais alvos são os nódulos polimetálicos, formações minerais do tamanho de batatas, que levam milhares de anos para se formar e que ficam espalhadas sobre o leito marinho e concentram metais como:
- níquel
- cobalto
- cobre e
- manganês

São os famosos minerais críticos. Para a indústria, eles aparecem como matéria-prima da qual todos estão correndo atrás. Para o ecossistema abissal, porém, fazem parte do habitat e servem de superfície, abrigo e estrutura para formas de vida adaptadas a um ambiente escuro, frio, de alta pressão e com ritmos de recuperação longos.
- Zona abissal se refere à região onde são encontrados organismos que vivem nas zonas mais profundas do oceano, geralmente entre 3 mil e 6 mil metros de profundidade.
- Planícies abissais são os locais onde esse tipo de mineração costuma ser planejado, são grandes extensões relativamente planas do fundo oceânico profundo. Elas abrigam comunidades inteiras de organismos adaptados a condições extremas, muitos deles ainda pouco conhecidos pela ciência.
O que o equipamento de mineração procurava no fundo do oceano?
No estudo apresentado na Nature, uma máquina que extrai minerais foi testada a cerca de 4.280 metros de profundidade, onde percorreu mais de 80 km² sobre o fundo marinho e retirou mais de 3 mil toneladas de nódulos polimetálicos.
Quando um equipamento de mineração passa por esse ambiente, além de arrancar os minerais, ele remove estruturas, revolve o sedimento, compacta o fundo e altera o espaço onde os organismos de mar profundo vivem.
No caso da operação experimental analisada, os pesquisadores compararam áreas impactadas com áreas de controle, usadas como referência para separar o que poderia ser variação natural do que foi efeito direto da atividade.
O resultado foi nítido: na área da coleta, a quantidade de organismos presentes no fundo do mar caiu de forma expressiva, o que indica uma mudança importante no equilíbrio desse ambiente.
A vida marinha pequena que sustenta uma grande rede
Falar em diminuição da macrofauna pode parecer técnico demais, mas o que está em jogo é bem objetivo: parte da vida marinha que ocupa o fundo do oceano diminuiu depois da passagem do equipamento. Esses animais fazem parte de uma rede ecológica maior, interagem com o sedimento, participam da circulação de nutrientes e ajudam a sustentar o funcionamento do ecossistema profundo.
- Comunidade bentônica se refere ao conjunto de organismos que vive no fundo ou junto ao fundo oceânico.
Quando a mineração em águas profundas afeta essa comunidade, o dano não se limita a uma trilha física deixada no solo marinho.
Ele atinge relações ecológicas que ainda são pouco compreendidas e que podem levar muito tempo para se recompor.
Para a indústria, um teste como esse é uma etapa técnica de um interesse em expansão. Para o oceano, pode ser uma perturbação real em um ambiente que não se recupera no tempo da política ou dos contratos.
A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, conhecida pela sigla ISA, é o órgão ligado à ONU responsável por regular atividades que ocorrem no alto mar. É nesse espaço que se discute o chamado Código de Mineração, conjunto de regras que poderá definir se, quando e como a exploração comercial de minerais será autorizada. A ISA é um fórum muito importante para esse tipo de discussão, que deve ser pautada pela ciência e pelo princípio de precaução, não pela urgência e ganância de indústrias.
Em entrevista recente ao O Globo, a oceanógrafa brasileira Letícia Carvalho, secretária-geral da ISA, chamou a atenção para o contexto político em torno dessa disputa:
As tensões geopolíticas atuais e o questionamento ao multilateralismo criam um contexto totalmente novo para a governança dos recursos marinhos.
A mineração em águas profundas, para além dos danos evidentes ao ecossistema marinho, é também uma disputa sobre governança, interesses econômicos, pressão por minerais críticos e capacidade internacional de proteger áreas que são patrimônio comum da humanidade.
Quando esse debate acontece sob pressão, o risco é transformar incerteza científica em autorização política.
E no caso do fundo do mar, a incerteza deveria exigir mais cautela, não mais pressa.
A nova fronteira de extração no fundo do oceano
A mineração em águas profundas costuma ser apresentada como atividade fundamental para a transição energética, já que metais como níquel, cobalto, cobre e manganês, que são encontrados no fundo do mar, podem ser usados em baterias e infraestrutura para inteligência artificial, por exemplo. Mas uma transição que abre novas fronteiras exploratórias e reproduz um modelo de exploração que devasta ecossistemas e suprime a biodiversidade não pode ser chamada de limpa sem questionamento.
A resposta à crise ecológica ou energética jamais será encontrada ao se inaugurar outra frente de destruição, agora em uma das regiões menos conhecidas do planeta. Trocar impactos em terra por impactos no oceano profundo não resolve a lógica extrativa predatória.
O que podemos aprender com dados reais sobre uma operação experimental que evidencia o potencial de devastação de uma atividade que ainda temos tempo de frear? Essa é a pergunta que deveria orientar qualquer decisão pública sobre o tema.
Não é tão difícil inferir o que pode acontecer em uma operação comercial contínua, com equipamentos maiores, por mais tempo e em áreas muito mais extensas.
Antes que a mineração em águas profundas seja autorizada
O fundo do mar não é uma reserva mineral esperando autorização para virar jazida. É um ambiente vivo, complexo e vulnerável, extremamente conectado com a regulação climática do planeta e a manutenção de cadeias de vida que tornam esse planeta saudável e diverso.
A decisão sobre autorizar a mineração em águas profundas diz respeito ao tipo de modelo de desenvolvimento que queremos construir e ao quanto estamos dispostos a sacrificar em nome de uma ideia limitada de futuro e progresso. O oceano profundo não pode entrar para a história como o próximo território devastado antes mesmo de ser plenamente conhecido.
Assine a petição e ajude a impedir que o fundo do mar seja transformado em uma nova fronteira de extração.
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