Num espaço que já abrigou sindicalistas e operários, MCs provam que ocupar a rua é um ato político, e que crise climática também é pauta da quebrada

VickVi e Ajota na batalha sobre Justiça Climática na Quebrada, na Festa de Aniversário da Batalha da Matrix em 2026.
© André Coelho / Greenpeace

O último sábado foi dia de celebrar os 13 anos da Batalha da Matrix (BDM), tradicional batalha de MCs de São Bernardo do Campo (SP), no Parque da Juventude, no ABC Paulista.

Com o tema “Uma viagem de volta ao começo” e um cenário todo inspirado na cena circense, o encontro retomou a história da BDM, fundada em 2013 por um grupo de amigos que eram MCs, pixadores, grafiteiros e skatistas. Na época, para participar de batalhas de rima, eles precisavam sair do ABC.

A história da Matrix é marcada por luta e resistência, e ver onde a Batalha está hoje consiste também em olhar para o esforço de anos de construção. Na época da fundação, nos primeiros encontros, o público era formado por não mais que 30 pessoas. Mas hoje, a praça reúne centenas de pessoas toda terça-feira.

À direita na imagem, Lucas do Vale, um dos fundadores da Batalha da Matrix, na Festa de Aniversário de 13 anos, em 2026. © André Coelho / Greenpeace

O objetivo simples do começo com o tempo se transformou, conforme conta Lucas do Vale, um dos fundadores da Sociedade Alternativa de Campom, que organiza a batalha. Lucas também atua hoje na produção executiva, direção artística e planejamento da BDM.

Hoje em dia eu vejo que é uma cena muito plural, de oportunidades e conexões. Os MCs que passam pela Matrix têm também a chance de estar em outros meios, conhecer outras pessoas e se conectar. Na cena, agora, gira dinheiro e contatos, diferente do que era nessa primeira fase

Festa de Aniversário da Batalha da Matrix, no Parque da Juventude, em São Bernardo do Campo, em 2026. © André Coelho / Greenpeace

O encontro do Corre de Quebrada com a Batalha da Matrix é fruto de uma construção acompanhada de perto por todos que se envolvem, pelo olhar crítico a uma realidade injusta e desigual e à vontade de um mundo diferente do que tá posto.

Para Lucas, esse é um encontro que faz todo sentido pra trajetória da BDM:

É importantíssimo que essa junção aconteça, pois tudo é política, cada respiro, cada passo, cada rima, cada acesso, cada tomada de decisão. O Greenpeace é luta e a Batalha da Matrix também. E a gente não recua, só avança. A pauta climática parece algo banal pra muita gente, mas a realidade é que, se você não olhar pra ela, ela vai olhar pra você, e não vai demorar não, é daqui a pouco. Não dá pra escapar do que está por vir. É preciso dar um jeito. Acho que ignorar o que está na nossa cara não é uma opção. Acredito que essa parceria tem muito a ensinar, a nós e ao público.

Para o Greenpeace, essa é uma oportunidade para estar cada vez mais próximo das pessoas que precisam ser o centro, a principal voz quando a gente fala sobre sobreposição de desigualdades em um contexto de eventos extremos, conforme afirma Leilane Reis, coordenadora da frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil:

A Batalha da Matrix tem sido uma grande aliada na proliferação da luta pela justiça climática. Por isso é gratificante participar dessa celebração e estar aqui mais uma vez com o ‘Corre de Quebrada’, que nada mais é que uma forma de construir um caminho de aproximação a partir do diálogo com as comunidades e juventudes de localidades que estão entre as menos ouvidas e as mais vulnerabilizadas e impactadas com os eventos extremos.

Na visão de Ricardo Rodrigues, integrante do grupo de voluntários do Greenpeace em São Paulo, a principal importância de trazer esse debate é porque os territórios já vivenciam e dialogam sobre as problemáticas e as soluções, e o rap é prova disso:

Quando uma organização como o Greenpeace participa de um espaço como esse, é porque ela entende que territórios como esse são potências que debatem soluções há muito tempo. Então quando a gente reflete que o rap, que várias manifestações culturais trazem pra espaços como este caminhos pra gente debater isso de forma mais simples, é porque a gente tá caminhando pra uma solução de verdade, que é dialogando com as pessoas.

Circo do Corre na Festa de Aniversário da Batalha da Matrix, no Parque da Juventude, em São Bernardo do Campo, em 2026. © André Coelho / Greenpeace

Clima quente na quebrada

A pauta climática e a defesa dos direitos das pessoas teve momentos marcantes no evento: a chave de Justiça Climática, a tenda do Circo do Corre e o anúncio do vencedor do concurso virtual Corre na Rima.

Durante a chave de Justiça Climática, o Rap pelo Clima, os MCs VickVi e Ajota trouxeram na rima e no improviso como a quebrada e o clima se conectam.

MC Ajota na batalha de Justiça Climática no 13º aniversário da Batalha da Matrix, no Parque da Juventude, em São Bernardo do Campo, em 2026. © André Coelho / Greenpeace

Este é um trecho da rima de Ajota:

Quando você ouve o tema no início, você pensa, Justiça Climática, pensar nisso é difícil. Mas sabe quanto é fácil essa Justiça Climática? Eu vou te mostrar isso na prática. No seu dia a dia, todo dia é diferente, tem dia que já chove, tem dia que é mais quente. Mas você sempre pensa? Você dá uma atenção por que é mais quente na quebrada e não no bairro dos boizão? Por que lá na quebrada as telhas são de amianto? Por que se toda vez que você volta pra quebrada se tiver chovendo há meia hora já alaga? Aí você fica ali, todo dia revoltado, não sabe quem culpar, você culpa o estado, mas sabe quem é o culpado? O sistema milionário que todo dia enche a esfera de gás estufa e só pensa em quanto eles lucra. Não pensa no povo, não pensa na gente, eles só querem ver mais corpo boiando na enchente.

VickVi, poeta e MC, na batalha de Justiça Climática no 13º aniversário da Batalha da Matrix, no Parque da Juventude, em São Bernardo do Campo, em 2026. © André Coelho / Greenpeace

VickVi respondeu:

Eu concordo com tudo o que falou o Ajota. Se eles são o crime, a gente é a resposta. Porque também existe o racismo ambiental, que pra minha pele também faz mal. Eu vejo várias paradas nesse clima, alaga na quebrada e não na Faria Lima. Eu passo calor no busão lotado e o boizão tá como, lá no ar condicionado. Ele não tá suado, ele não tá suando, quem tá danificado é quem tá trabalhando. Será que vocês entendem, população? Por isso a gente tem que ver lá na hora da eleição. Quem é que tem um plano ambiental, quem é que tem um pouco de coisa para nós porque se eles é revolta, minha revolta tá maior na minha voz. Eu tenho a minha revolução e é histórica e eles chamam isso de poluição sonora.

Foi uma batalha e tanto, que terminou com empate para esses dois grandes MCs!
Antes da batalha, o público conheceu o vencedor do concurso virtual Corre na Rima, Merror. O concurso, uma parceria do Corre com BDM, premiou a melhor rima com o tema “Justiça Climática na Quebrada”. Participantes de várias regiões do país enviaram um vídeo de até 1 minuto com uma rima inédita sobre como eventos climáticos como chuvas fortes, calor extremo e enchentes se relacionam com a rotina dos moradores da quebrada. Os finalistas foram escolhidos pela organização da BDM, e a votação aberta aconteceu nos stories do Greenpeace Brasil no Instagram e no canal de WhatsApp do Corre de Quebrada.

No Circo do Corre, a tenda de Justiça Climática, o público entrava para se divertir, mas também refletir sobre como os eventos extremos pegam muito mais pra quebrada nas cidades. Ao girar uma roleta com 18 opções, os visitantes eram convidados a debater sobre a afirmação sorteada. Todas as frases relacionavam crise climpatica, impactos desiguais e a necessidade de políticas públicas que defendam a vida das pessoas nos territórios mais vulnerabilizados.

Funcionava assim: uma pessoa entrava em uma cabine com dois botões, o botão vermelho (errado) ou azul (certo). Essa pessoa era a primeira a responder se a frase era certa ou errada e, na sequência, o debate abria para os demais. Cerca de 170 pessoas passaram para ver o espetáculo: Clima Quente na Quebrada, uma brincadeira que fizemos em alusão à temática e ao dia, já que circo era o mote principal do evento. Dentro da tenda, o personagem principal era o público!

O espaço público e uma volta ao começo

Não há como negar que o espaço público pode ser catalisador da força de quem é historicamente abandonado pelas políticas de estado, e que em espaços como o da Batalha da Matrix é possível que a voz ganhe alcance e proporcione a concretização de se tornar agente coletivo da sociedade em que se vive, para expor, debater, se juntar, fazer barulho e cobrar.

Como aponta o livro Rap, Cultura e Política – Batalha da Matrix e a estética da superação empreendedora, de Felipe Oliveira Campos, a Praça da Matriz, em São Bernardo do Campo, foi palco de encontros de trabalhadores durante a ditadura militar, de palavras de ordem levantadas por mãos operárias, dos consensos e dissensos que gestaram o movimento sindical brasileiro. Uma praça que foi alterada, para sempre, pelo fazer político da classe trabalhadora. 

Cerca de 30 anos depois, um grupo de jovens reacendeu semanalmente as mobilizações naquele mesmo espaço. Mas desta vez, em torno do rap, com duelos de MC’s. E assim como antes, conforme o livro aponta e como conta Lucas, sem estarem livres da vigilância policial e da demonstração de sua força repressiva. 

Tornar-se a maior batalha de São Bernardo do Campo não foi fácil. Assim como muitas manifestações da cultura de rua pelo Brasil afora, o caminho foi árduo, com enfrentamento direto de quem tem a caneta do poder na mão, conta Lucas:

O maior desafio sempre foi a repressão, a perseguição política institucional, se manter intacto e evitar que isso nos afete psicologicamente e que afete nossa vida pessoal. É preciso lembrar que somos pessoas físicas, não temos o aparato do estado para nos defender. Quando a prefeitura veio pra cima da gente, eles conseguiram nos afetar de verdade, tanto com as bombas do passado quanto com as multas do presente, que ainda nos assombram. Os inquéritos policiais. Os processos na justiça. Tudo isso porque a gente quis exercer o direito de ocupar o espaço público, presente no artigo 5º da Constituição, e por conta de um prefeito que não gostava de nós

Mileny e PretoVivo, que fizeram a cobertura do evento para o Corre de Quebrada no 13º aniversário da Batalha da Matrix, no Parque da Juventude, em São Bernardo do Campo, em 2026.
© André Coelho / Greenpeace

O que fica nas pessoas

“Quem frequenta a Matrix começa, passa, uma hora sai, e outros vêm. É uma constante troca de gerações. Mas a Batalha marca as pessoas de uma forma positiva. Lá elas encontram algum tipo de transformação. Abrem a mente. Escutam outros pontos de vista. Saem diferentes do que vieram

Lucas conta também que há casamentos que nasceram ali, pessoas que partiram, MCs que começaram naquele tradicional banco de cimento e hoje trabalham profissionalmente com música.

São coisas que o algoritmo não consegue mensurar, como um efeito borboleta que a gente só vai saber com o passar de muito tempo. Quando o ‘próximo Emicida’ nascer, ou a pessoa que vai ajudar o ‘próximo Emicida’ a vir. O próximo líder dessa região. A geração que vai revolucionar, que estará no poder lá na frente, com certeza vai ter passado por aqui. E espero que eles levem consigo o DNA do que aconteceu aqui, e pensem política pública, pensem no futuro, sem esquecer da história que rolou por aqui. Precisa virar legado, precisa ter valido a pena tudo isso.

Na Praça da Matriz, os trabalhadores dos anos 1970 e 1980 deixaram sua história gravada no chão. Os frequentadores da Batalha da Matrix estão gravando a deles. Toda terça. Às 20 horas.

Parabéns, Matrix!

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