No rastro da guerra no Oriente Médio, a Conferência de Santa Marta busca caminhos para uma transição energética global e justa 

Intervention during Conference on Energy Transition in Santa Marta Beach, Colombia. © Sergio Calderón Cortés / Greenpeace
A Greenpeace Colômbia abre faixa na praia de Santa Marta, na Colômbia, “Sol e vento: o futuro energético” na Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis.
© Sergio Calderón Cortés / Greenpeace

A Conferência de Santa Marta, na cidade mais antiga da Colômbia, reuniu representantes de 53 países entre os dias 24 e 29 de abril para traçar o fim da era dos combustíveis fósseis e acelerar a transição energética. 

O encontro ocorreu enquanto a guerra dos EUA e Israel contra o Irã completa dois meses, evidenciando as consequências da dependência de petróleo, gás e carvão. O bloqueio do Estreito de Ormuz causou a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história, fazendo o barril subir mais de US$100.

A alta nos preços impacta o custo de vida ao redor do mundo, principalmente itens básicos como alimentação, energia e transporte. No Brasil, o preço dos alimentos já aumentou. O encarecimento do diesel e dos fertilizantes tem gerado um efeito cascata no agronegócio, afetando alimentos básicos como arroz, feijão, carnes e ovos

“As famílias brasileiras sentem no bolso os conflitos que encarecem até a nossa comida, fragilizando a segurança alimentar, energética e climática”, frisa Leilane Reis, coordenadora de Justiça Climática do Greenpeace Brasil. “Eliminar o petróleo não é apenas uma necessidade climática dos líderes mundiais, mas uma estratégia de sobrevivência e paz para superar a economia da guerra, que promove lucro de poucos às custas da vida de muitos”.

Confira a nota técnica do Greenpeace Brasil para abandonar os combustíveis fósseis, apresentada aos governantes em Santa Marta. 

Transição para longe dos combustíveis fósseis 

A Conferência de Santa Marta responde à frustração com a declaração final da COP 30, em Belém, que nem mencionou os combustíveis fósseis, responsáveis por 68% das emissões globais. Ainda assim, o financiamento público para o setor superou US$1,2 trilhão em 2024 — cinco vezes mais que o destinado à energia limpa. 

Com a guerra no Oriente Médio, grandes empresas de petróleo lucram cerca de US$ 30 milhões por hora. Segundo o Greenpeace Alemanha, só as petrolíferas europeias receberam, diariamente, US$ 95 milhões. Enquanto isso, estima-se mais de 5 mil mortes, 4 milhões de deslocamentos forçados e conflitos em 10 países

Além de reduzir emissões, a transição energética justa busca diminuir a vulnerabilidade a conflitos geopolíticos. Desde os anos 1970, o mundo enfrenta choques recorrentes no preço do petróleo. Mesmo depois que os conflitos acabam, os danos socioambientais persistem por anos. 

Intervention during Conference on Energy Transition in Santa Marta Beach, Colombia. © Camilo Noriega / Greenpeace
Anna Carcamo, do Greenpeace Brasil, com blusa “Petróleo na Amazônia Não!” na praia de Santa Marta, na Colômbia, durante a Primeira Conferência sobre a Transição para Eliminar os Combustíveis Fósseis.
© Camilo Noriega / Greenpeace

Energia Limpa e Proteção da Amazônia

Entre os marcos de Santa Marta estão a proposta de tornar o fim dos combustíveis fósseis uma obrigação legal dos Estados e a criação do Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET). Sediado na Universidade de São Paulo e idealizado pelos pesquisadores Carlos Nobre e Johan Rockström, o painel é inspirado no IPCC, mas propõe maior agilidade, com relatórios anuais para orientar políticas públicas que superem a energia fóssil. 

Energia solar e eólica são produzidas localmente, sem rotas ou mercados globais. Contudo, conforme destacado no evento, a transição não pode reproduzir injustiças. A extração de minerais críticos, como lítio, cobalto e terras raras – usados em baterias, painéis e turbinas – ainda envolve violações a comunidades e territórios. Relatório do Greenpeace Internacional aponta caminhos para frear esse risco, especialmente em terras indígenas e no oceano. 

Em Santa Marta, lideranças indígenas cobraram reparações climáticas para financiar a transição e defenderam Zonas Livres de Combustíveis Fósseis, territórios protegidos onde a exploração de petróleo, gás e carvão é proibida, e a Amazônia foi destacada como área prioritária. 

Anna Carcamo, especialista em Política Climática no Greenpeace Brasil que acompanhou a conferência, avalia o cenário nacional: “O governo brasileiro iniciou o Mapa do Caminho para longe dos combustíveis fósseis, mas precisa finalizar com participação da sociedade civil e deve impedir novas áreas de extração, especialmente em áreas de importância socioambiental como a Foz do Amazonas”. 

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