No rastro da guerra no Oriente Médio, a Conferência de Santa Marta busca caminhos para uma transição energética global e justa

A Conferência de Santa Marta, na cidade mais antiga da Colômbia, reuniu representantes de 53 países entre os dias 24 e 29 de abril para traçar o fim da era dos combustíveis fósseis e acelerar a transição energética.
O encontro ocorreu enquanto a guerra dos EUA e Israel contra o Irã completa dois meses, evidenciando as consequências da dependência de petróleo, gás e carvão. O bloqueio do Estreito de Ormuz causou a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história, fazendo o barril subir mais de US$100.
A alta nos preços impacta o custo de vida ao redor do mundo, principalmente itens básicos como alimentação, energia e transporte. No Brasil, o preço dos alimentos já aumentou. O encarecimento do diesel e dos fertilizantes tem gerado um efeito cascata no agronegócio, afetando alimentos básicos como arroz, feijão, carnes e ovos.
“As famílias brasileiras sentem no bolso os conflitos que encarecem até a nossa comida, fragilizando a segurança alimentar, energética e climática”, frisa Leilane Reis, coordenadora de Justiça Climática do Greenpeace Brasil. “Eliminar o petróleo não é apenas uma necessidade climática dos líderes mundiais, mas uma estratégia de sobrevivência e paz para superar a economia da guerra, que promove lucro de poucos às custas da vida de muitos”.
Confira a nota técnica do Greenpeace Brasil para abandonar os combustíveis fósseis, apresentada aos governantes em Santa Marta.
Transição para longe dos combustíveis fósseis
A Conferência de Santa Marta responde à frustração com a declaração final da COP 30, em Belém, que nem mencionou os combustíveis fósseis, responsáveis por 68% das emissões globais. Ainda assim, o financiamento público para o setor superou US$1,2 trilhão em 2024 — cinco vezes mais que o destinado à energia limpa.
Com a guerra no Oriente Médio, grandes empresas de petróleo lucram cerca de US$ 30 milhões por hora. Segundo o Greenpeace Alemanha, só as petrolíferas europeias receberam, diariamente, US$ 95 milhões. Enquanto isso, estima-se mais de 5 mil mortes, 4 milhões de deslocamentos forçados e conflitos em 10 países.
Além de reduzir emissões, a transição energética justa busca diminuir a vulnerabilidade a conflitos geopolíticos. Desde os anos 1970, o mundo enfrenta choques recorrentes no preço do petróleo. Mesmo depois que os conflitos acabam, os danos socioambientais persistem por anos.

Energia Limpa e Proteção da Amazônia
Entre os marcos de Santa Marta estão a proposta de tornar o fim dos combustíveis fósseis uma obrigação legal dos Estados e a criação do Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET). Sediado na Universidade de São Paulo e idealizado pelos pesquisadores Carlos Nobre e Johan Rockström, o painel é inspirado no IPCC, mas propõe maior agilidade, com relatórios anuais para orientar políticas públicas que superem a energia fóssil.
Energia solar e eólica são produzidas localmente, sem rotas ou mercados globais. Contudo, conforme destacado no evento, a transição não pode reproduzir injustiças. A extração de minerais críticos, como lítio, cobalto e terras raras – usados em baterias, painéis e turbinas – ainda envolve violações a comunidades e territórios. Relatório do Greenpeace Internacional aponta caminhos para frear esse risco, especialmente em terras indígenas e no oceano.
Em Santa Marta, lideranças indígenas cobraram reparações climáticas para financiar a transição e defenderam Zonas Livres de Combustíveis Fósseis, territórios protegidos onde a exploração de petróleo, gás e carvão é proibida, e a Amazônia foi destacada como área prioritária.
Anna Carcamo, especialista em Política Climática no Greenpeace Brasil que acompanhou a conferência, avalia o cenário nacional: “O governo brasileiro iniciou o Mapa do Caminho para longe dos combustíveis fósseis, mas precisa finalizar com participação da sociedade civil e deve impedir novas áreas de extração, especialmente em áreas de importância socioambiental como a Foz do Amazonas”.
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