Dossiê produzido pelo Greenpeace mostra que é possível zerar as emissões de carbono e poluentes da frota de ônibus de São Paulo sem impactar a tarifa ao usuário e com benefícios para o clima, a saúde e a economia da cidade

Na cidade de São Paulo, quase metade da fuligem que polui o ar é gerada pelos ônibus do transporte público Foto: Rafael Neddermeyer/ Públicas

 

Usar combustíveis limpos e renováveis na frota de ônibus da cidade de São Paulo é obrigatório desde 2009 por meio da Política Municipal de Clima. Essa medida, no entanto, sempre foi negligenciada sob o argumento da inviabilidade técnica e financeira. O Greenpeace elaborou um dossiê que demonstra o oposto: além de viável – e mais eficiente que o veículo movidos a biocombustíveis –, a adoção dos ônibus elétricos em toda a frota é indutora de benefícios para a saúde, para a economia e para o clima. E sem pesar no bolso do usuário.

A publicação Dossiê Ônibus Limpo: Benefícios de uma transição para combustíveis renováveis na frota de São Paulo foi produzida em agosto de 2016 a partir de levantamento de dados operacionais do sistema de transporte da capital, os custos de manutenção e das fontes disponíveis, de testes realizados por fabricantes de veículos em outras cidades, e de pesquisas em saúde ambiental.

“Queremos elevar a discussão técnica e cobrar que a nova licitação de ônibus da Prefeitura de São Paulo incorpore a adoção gradativa de combustíveis limpos, como exige a Lei Municipal do Clima, que determina a transição completa até 2018”, diz Bárbara Rubim, da campanha de Clima e Energia do Greenpeace.

A publicação também é uma forma trazer mais informações independentes para que a sociedade cobre por mudanças no setor. Afinal, quem não gostaria de um sistema de transporte público mais silencioso, moderno, sem aquela fumaça preta tóxica que mata cerca de 4.700 pessoas por ano na região metropolitana e contribui com o aquecimento global? Cerca de 47% do material particulado (fuligem) e 13% das emissões de CO2 que poluem o ar da capital paulistana são gerados pelos ônibus a diesel. Com emissão zero de os ônibus elétricos podem tornar essa realidade possível.

Alguns dados do dossiê:

- No caso dos ônibus elétricos puros, testes têm demonstrado que o custo de manutenção pode ser 25% menor e a economia com combustível pode chegar a 64,7% em comparação com os convencionais a diesel;

- O leasing de baterias é uma alternativa para reduzir drasticamente o custo dos ônibus elétricos, aproximando-o do valor do veículo a diesel;

- Por meio da tecnologia V2G (Vehicle to Grid), os ônibus não são apenas consumidores de energia, mas parte do sistema elétrico. Eles podem incorporar as fontes eólica e solar, servir de backup e fornecer energia à rede, tornando todo o sistema mais eficiente;

- A redução na queima do diesel convencional poupa vidas e recursos: em dez anos, uma redução de 20% poderia evitar mais de 7 mil mortes e os cofres públicos economizariam R$ 53 milhões em gastos de saúde decorrentes de problemas cardiorrespiratórios.

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Elétricos ou biocombustíveis?

Na Conferência do Clima da ONU, no Marrocos, a participação do setor de transporte no combate às mudanças do clima foi um dos temas debatidos. No Brasil, ele é responsável por cerca de 46% das emissões relacionadas à queima de combustíves fósseis, mas é o setor que tem recebido menos atenção em relação aos usos de energia, na avaliação do ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho.

Nesta quarta-feira (16), o governo brasileiro lançou, em parceria com outros 19 países, uma iniciativa de promoção dos biocombustíveis, sobretudo etanol de cana-de-açúcar e o biodiesel de soja, como a solução para reduzir as emissões do setor. "Precisamos urgentemente encontrar soluções de curto e médio prazo para emissões de transportes e implantar todas as medidas sustentáveis que pudermos dispor", afirmou o ministro.

Embora os biocombustíveis sejam uma tecnologia mais limpa comparada ao diesel, para um corte mais agressivo de emissões no setor de transporte, especialmente de passageiros nos centros urbanos, o mundo ruma rapidamente em direção aos veículos elétricos, e uma metrópole como São Paulo deve estar na vanguarda desse movimento”, afirma Bárbara Rubim, da campanha de Clima e Energia do Greenpeace.

Em função disso, para a frota de ônibus coletivo nas cidades, os biocombustíveis podem ser encarados como uma solução paliativa, pois amenizam o problema agora, mas precisarão ser substituídos depois, quando metas mais agressivas de redução de emissões serão exigidas. Assim, o custo acabará sendo maior. "Além dos veículos, temos de considerar toda a infraestrutura necessária para atendê-los. Nosso dossiê mostra que os investimentos de aquisição dos ônibus elétricos se pagam em médio prazo, e essa infraestrutura elétrica, mais duradoura, irá promover uma modernização que beneficiará a cidade como um todo”, diz Bárbara.

A meta brasileira é reduzir 37% das emissões de CO2 até 2025 e 43% até 2030. Para isso, alguns meios são ampliar a bioenergia sustentável na matriz energética para aproximadamente 18% do setor e aumentar em 45% a participação de energias renováveis na matriz energética brasileira.

 

A licitação que definirá os ônibus de São Paulo nos próximos 20 anos precisa contemplar combustíveis limpos e renováveis Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil