© Greenpeace/Marizilda Cruppe/EVE

* Por André Muggiati


Nosso avião sobrevoa amplas áreas de florestas completamente conservadas, no município de Apuí, sul do Estado do Amazonas. De repente, uma clareira se abre no meio da mata. As árvores derrubadas, lá embaixo, não deixam dúvida: estão desmatando. Mas aqui? No meio do “nada”? A indignação vai tomando conta, mas quase não dá tempo. Outra clareira. E mais uma. Circundando o mosaico de pequenas áreas podemos perceber que, quando conectadas, formarão uma grande fazenda. Mas o crime não acaba aí. Ao longo de pequenos riachos e igarapés, as árvores também não foram poupadas, o que configura crime ambiental segundo o Código Florestal.

Após dois dias de sobrevoos, observando pequenos e médios desmatamentos e vastas áreas de florestas ressecadas pela ação do fogo no sul do Amazonas, não temos dúvidas: o desmatamento voltou, provavelmente incentivado pela promessa de anistia a desmatadores, contida na proposta de Código Florestal recém aprovada na Câmara dos Deputados. E ele está avançando cada vez mais para dentro da floresta, não só em Apuí, mas também em Canutama, Novo Aripuanã, Lábrea e Boca do Acre.

Os dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) comprovam: o Amazonas voltou a chamar atenção pelo avanço do desmatamento no sul do estado, área que já é considerada uma nova fronteira dessa expansão. Se compararmos os alertas do Deter de 2011 com os do ano anterior, há uma expressiva tendência de crescimento. Por meio de interpretação de imagens de satélite, a equipe do Laboratório de Geoprocessamento do Greenpeace identificou 146 polígonos, entre áreas em degradação e com corte raso, e sobrevoou alguns desses pontos para documentar a devastação.

Nesta segunda-feira, dia 11 de julho, fizemos a nossa parte: encaminhamos denúncia detalhada, com o “endereço” dos desmatamentos para o Ibama, a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas e o Ministério Público Federal. Não que eles fossem difíceis de achar. O próprio Deter já havia apontado vários deles, no mês de maio. Também publicamos a denúncia em jornais e websites do Brasil e do exterior. Nossa esperança é que o governo faça algo para interromper a matança da floresta, enquanto ainda é tempo. E que o Senado não aprove esse novo Código Florestal, que mesmo antes de aprovado já está causando destruição. Afinal de contas, o Brasil do futuro não pode mais conviver com a destruição de suas florestas.

* André Muggiati é coordenador de campanhas na Campanha Amazônia do Greenpeace