asa de madeira sobre palafitas às margens de um rio, cercada por vegetação baixa e árvores.
O céu aparece nublado, com nuvens densas ocupando grande parte da imagem. À frente, a água barrenta do rio reflete a paisagem ribeirinha.
Casas de palafitas no Arraiol do Baillique, Amapá, região localizada na Foz do Amazonas.
Foto: Tais Terra

Pesquisadora Marina Kuzuyabu comenta como os “discursos de adiamento da ação climática” são produzidos e protagonizados pelas petroleiras

Somos seres de linguagem, a forma como falamos das coisas muda toda a sequência de acontecimentos decorrentes de um evento. Gosto de revisitar  uma afirmação do líder indígena e ambientalista Ailton krenak que diz “fomos, durante muito tempo, embalados com a história de que somos a humanidade. Enquanto isso, nos alienamos do organismo do qual fazemos parte — a Terra — e pensamos que ele é uma coisa, e nós outra: a Terra e a humanidade”. 

Quando a linguagem opera para visualizar a natureza ao nosso redor como recurso, o que sobra para a sociedade? A pesquisadora Marina Kuzuyabu investiga justamente como discursos sobre “desenvolvimento”, “segurança energética” e “necessidade econômica” moldam a percepção pública sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Seu estudo mostra que a disputa em torno do projeto não acontece apenas no campo ambiental ou técnico, mas também no campo simbólico: na forma como imaginamos progresso, pertencimento e futuro para a Amazônia e para as populações que vivem nela. 

O artigo Oil exploration in the Amazon Basin: narratives of disinformation and climate obstruction argumenta que a comunicação da Petrobras sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas utiliza estratégias de desinformação e “discursos de atraso climático” para legitimar o avanço do projeto mesmo em contexto de emergência climática. 

A pesquisa conecta o caso brasileiro a estratégias já documentadas em petroleiras globais como Petrobras, Exxon, Shell e BP, mostrando como essas práticas aparecem adaptadas ao contexto amazônico e brasileiro. 

Conversamos com a pesquisadora sobre os bastidores do estudo, os impactos relatados pelas comunidades do Amapá e como a disputa em torno da Foz do Amazonas revela conflitos sobre clima, território e futuro.

Por que você começou a pesquisar esse tema? Qual foi o grande incômodo? 

Eu estava muito a fim de entrar no campo da desinformação e do greenwashing. Aí, lendo artigos, os trabalhos, entrei no universo do petróleo e gás e das petroleiras. Tem muito trabalho publicado sobre como essas indústrias do óleo e gás que atuam para evitar a transição energética, evitar não,  adiar a transição energética, né? Eles usam os termos ‘adiar’ e ‘obstruir’.

E aí, lendo sobre as táticas, são estratégias consideradas muito parecidas. Na época, isso foi em 2023, quando eu comecei a pesquisar mais intensamente esse tema da exploração de petróleo na Amazônia, estava bem em evidência e aí eu pensei: “Bom, aí deve ter alguma coisa parecida acontecendo”. E foi por aí.

Como você identificou essa narrativa de que “a exploração é necessária”?

Eu comecei com a coleta de dados, entendendo assim o que eu ia analisar. Peguei o período de 2021 a 2024 e puxei tudo o que a Petrobras tava falando sobre a Foz do Amazonas. Olhei as redes sociais e pedi para ver a lei de acesso à informação, os comunicados, apresentações, atas de reuniões da Petrobras com as comunidades. Então, peguei todo esse material e comecei a analisar e aí foi aquele trabalho de pesquisa, começar a atribuir, entender os padrões ali.

Eu identifiquei três padrões recorrentes:

  • É necessário;
  • É seguro e;
  • Vai trazer oportunidades para o Amapá.

 “A exploração é necessária”

A partir desse argumento de ser necessário, a Petrobras afirma: “Em todos os cenários aliados ao Acordo de Paris, o petróleo ainda é essencial; a demanda por petróleo continua essencial, e há muitos argumentos sobre segurança energética, de que o petróleo é importante para garantir a segurança energética.”

Se a gente não explorar, a gente corre o risco de virar importador de petróleo. E também uma coisa bem explícita, assim, esse é o nosso negócio, a gente precisa explorar, a petroleira afirma. 

Então, essa parte da necessidade foi aparecendo conforme eu fui lendo os documentos; esses materiais foram aparecendo com recorrência.

 “A operação é segura”

Em relação ao argumento de segurança, a Petrobras se ancora muito na expertise dela em exploração de petróleo em águas profundas. Uma narrativa de muitos argumentos na linha de que é seguro, de que não vai ter impactos, e de que ela tem expertise e tecnologia. 

O terceiro enquadramento mais comum é que vai trazer oportunidades de desenvolvimento social e econômico para o Amapá. 

E como que você analisou esse discurso atrelado ao desenvolvimento?

Eu fiz essa parte de olhar as informações da Petrobras e fui fazer entrevistas em campo. Entrevistei 24 pessoas para entender o que tava sendo comunicado sobre o projeto e como as pessoas estavam reagindo. Primeiro que eu identifiquei que esses três enquadramentos — de que é necessários, são seguros e vão ser bons para o Amapá. Isso tá nas comunicações no que se fala ali na região.

Porém, as pessoas demonstraram um grande ceticismo e uma visão de desenvolvimento muito diferentes. A Petrobras comunica assim: isso vai trazer desenvolvimento social e econômico para o Amapá, falando em geração de empregos, infraestrutura  e serviços,  mas se a gente pergunta para as pessoas: “Bom, e esse desenvolvimento que a Petrobras vai trazer? Como que você entende isso?” E a visão das pessoas sempre foi, até um ponto, uma visão muito diferente de que é preciso ter oportunidades de emprego, criar oferta de serviços públicos, de saúde e educação.

Porém, elas veem o desenvolvimento de uma forma muito relacionada com a preservação, com a conservação, com a inclusão da natureza.

Então, um reconhecimento muito forte de que não basta só gerar empregos e destruir, gerar danos, porque eles se sentem muito conectados com a terra. As pessoas relataram assim: “Eu tenho preocupação com os meus netos, eu tenho preocupação com meus filhos, eu me preocupo com o futuro aqui da minha comunidade.” As pessoas veem que a vida delas e das comunidades, está em risco.

Entre os comunitários, a visão é que não basta gerar empregos; o empreendimento precisa ser seguro, se não tiver segurança e se isso afetar modos de vida, colocar em risco a sobrevivência, não cogitam esse tipo de desenvolvimento. Muitos com a visão de que a gente tem que explorar a bioeconomia, pensar em outros modelos de desenvolvimento que não este. Não foram todos, assim, mas alguns levantaram a questão da crise climática. Um entrevistado falou isso: é um contrassenso esse projeto, né? Ele não faz sentido nem hoje, nem daqui a 10 anos, quando a Petrobras vai efetivamente começar a ter esse petróleo sendo comercializado em uma escala mais industrial.

Qual foi um dos maiores medos relatados pela comunidade?

Um ponto que me chamou muita atenção foi a questão da violência, do assédio, das ameaças contra as pessoas que se colocam contra o empreendimento, contra o projeto. Essa narrativa de que vai gerar empregos é tão forte que gera uma situação para as pessoas que se colocam contra, como se elas fossem contra o desenvolvimento, como se elas fossem contra o progresso. Isso só se encontra na melhoria das condições de vida da população, não contra o projeto em si, né? Então, isso criou uma situação de muita preocupação.

Muitas pessoas disseram: ‘Eu evito tomar parte em discussões quando eu não sei com quem estou falando.

Acho que esse é um ponto super relevante para a gente destacar. E a outra preocupação é em relação a um eventual acidente. Justamente pelas condições ali, por ser uma área da maior extensão de manguezais do Brasil .Sabe-se que, caso aconteça um vazamento, aquele óleo não vai conseguir ser extraído; então, o dano, o prejuízo que ele pode gerar são irreparáveis.

Como os comunitários se informam? 

A maioria em grupos de WhatsApp. Muitas pessoas entrevistadas disseram que sentem esse problema, essa falta de informação pública sobre o status do projeto. Então, naquela época, a autorização para exploração não tinha sido emitida.  

Elas diziam: “A Petrobras esteve aqui em 2022 e nunca mais voltou.” A gente não tem informações oficiais públicas para a gente acompanhar o projeto.

Essa falta de informação gera um sentimento de estarem à parte, apartados. É como se eles nem sequer tomassem parte, nem se informassem; eles têm esse direito. Muita informação está sendo circulada pelos políticos. Dos 24 entrevistados, 10 tiveram contato já com a Petrobras, outros não. E esses outros disseram: “A gente se informa, né, em outros meios.

Eu encontrei muitas vezes o argumento de que é preciso explorar para financiar a transição energética e investir em energia limpa. Acho que esse discurso se encaixa no formato de se mostrar parte da solução. 

O que você gostaria de ver mais inserido na comunicação desse tema?

Eu acho que justamente discutir a comunicação já seria um ponto. Porque, em um dos artigos que eu li, o autor falou o seguinte: Pra gente sair, conseguir fazer essa transição energética, precisa de um monte de coisa, mas ela passa também por uma superação de discursos.

Falar mais sobre esses discursos, no sentido de não necessariamente desconstruí-los, mas, assim, de mostrar que esses discursos estão aí há décadas, que estão se repetindo.Vamos olhar com eles de uma forma mais crítica, vamos entender como é que esses discursos vêm sendo usados historicamente pelas indústrias. 

Quais seriam as três coisas importantes para pessoas analisarem num discurso relacionado à Foz do Amazonas?

  1. Parte desse discurso do desenvolvimento de oportunidades sociais e econômicas. Acho que esse é um super ponto de atenção. Sempre que um grande empreendimento prometer que vai trazer desenvolvimento social e econômico para a região, para o território, acho que vale se atentar: que modelo de desenvolvimento é esse? 
  1. A narrativa de necessidade. Acredito que, sempre que se entrar nesse tema, há outro ponto a que a pessoa deve ficar atenta, porque ele, ao mesmo tempo, é sedutor no sentido de que parece real, parece verdadeiro. Mas quando ele tá contextualizado, quando essas outras informações não são trazidas para a mesa, ele tem esse efeito de desorientar. Não fica claro.
  1. Vale sempre se perguntar, mas e as pessoas dos territórios? Isso é uma visão da empresa? E as pessoas dos territórios, que vão ser diretamente impactadas, o que elas acham sobre isso? Então acho que sempre é buscar as vozes dos territórios, nessas comunicações, acho que pode ser um ótimo ponto também.

Em meio a discursos sobre progresso e necessidade, ouvir os territórios talvez seja o passo mais urgente.

Assine a petição #PetróleoNaAmazôniaNão e pressione pela proteção da Foz do Amazonas.

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