Grupo grande de participantes posa em uma praia diante de tendas de organizações e da vegetação ao fundo, após uma ação coletiva de limpeza e mobilização socioambiental.
Grupo de voluntários de Bertioga, São Paulo e ABC e outras instituições parceiras no Dia Mundial da Limpeza. Foto: Cristiane Silva

Criada pelo voluntariado do Greenpeace Brasil, a campanha reúne grupos de diferentes territórios para enfrentar a poluição plástica com limpeza, educação ambiental, produção de dados e mobilização coletiva.

O plástico já está em toda parte. Está na areia das praias, no mar profundo, na cadeia alimentar e, consequentemente, em nós. Um estudo recente do projeto MICROMar analisou milhares de amostras de areia e água ao longo de toda a costa brasileira e encontrou microplásticos em praias de todos os estados. 

Em 7 a cada 10 praias, foi identificada contaminação por plástico.

São partículas quase invisíveis, com longo ciclo de vida, que já fazem parte do ambiente costeiro e estão presentes nos organismos marinhos. O problema, porém, não termina na superfície. Em um estudo realizado no mar profundo, que pesquisou peixes entre 200 e 1.500 metros de profundidade, foi encontrado lixo em 28 dos 31 locais amostrados. Em alguns pontos, a quantidade de resíduos chegou a ser maior do que a de peixes e outros organismos marinhos.

Esse cenário revela uma contradição difícil de ignorar. Enquanto os impactos da poluição plástica se acumulam da costa às regiões mais remotas do oceano, governos e empresas continuam insistindo na ampliação das fronteiras de exploração de petróleo, origem de todo plástico. E, no horizonte, ainda surgem novas ameaças, como o avanço da mineração em águas profundas.

É nesse contexto que a Maré de Consciência ganha força.

Homem ajoelhado na areia segura uma peneira de madeira cheia de areia fina, durante atividade de triagem de resíduos em uma praia. Ao redor dele, há lona azul, fragmentos de lixo e sacos de coleta.
Voluntário com peneira coletando microplástico durante atividade de limpeza na Praia de Itaguaré / Bertioga – SP. Foto: Cristiane Silva

Criada em 2022, durante o encontro dos grupos locais do Greenpeace Brasil em São Paulo, a mobilização nacional nasceu do voluntariado e da urgência de agir diante de uma cena que já havia sido naturalizada em muitos territórios: o acúmulo de lixo em praias, rios, lagos, manguezais e restingas.

Segundo Raphael Roberto, educador ambiental e um dos fundadores da maré de consciência , um dos motivos centrais para o surgimento do da campanha  foi a revolta diante da normalização desse problema.

“Um dos maiores motivos do nascimento da Maré foi a insatisfação com o impacto causado pelo lixo nas áreas naturais, principalmente em praias, rios e lagos próximos às áreas de atuação dos grupos locais de voluntários, a indignação pela ausência do poder público e pela falta de respeito e cuidado de uma parte da população que já normalizou essa situação.”

A força da  Maré de Consciência está justamente em transformar incômodo em presença organizada. Hoje, a campanha articula 20 grupos locais em 15 estados, reunindo pessoas que atuam de forma voluntária em ações que vão além das limpezas. 

Grupo numeroso de participantes posa em uma praia de areia clara durante uma ação coletiva de limpeza costeira. Todos estão reunidos em frente ao mar, muitos com os braços erguidos, ao redor de uma faixa da International Coastal Cleanup.
Grupo de voluntários de Belém em ação com organizações parceiras na Praia de Marieta – Maracanã / Pará. Foto: @iccbrasil @oceanconservancy – Rodrigo Fonseca

O trabalho também envolve:

  • Triagem de resíduos
  • Produção de dados 
  • Educação ambiental
  • Intervenções artísticas 

Ações que ajudam a tornar visível um problema muitas vezes ignorado.

Quando o plástico aparece onde a vida costeira começa

Pessoas recolhem lixo espalhado em uma praia coberta por galhos, plásticos e resíduos. Em primeiro plano, um participante se abaixa com um grande saco verde, enquanto outros voluntários caminham ao fundo.
Ponto com muitos resíduos plásticos encontrado durante ação de limpeza na Praia de Marieta / Maracanã – PA. Foto: Nathalia Lann

Para Danilo Henzler, ator e voluntário do Greenpeace, uma das experiências mais marcantes foi ver de perto a escala do problema e perceber como o microplástico torna tudo ainda mais difícil.

“O que mais me marcou na atividade da Maré de Consciência foi ver a quantidade de lixo que vai parar no mar […] Ver de perto a quantidade, principalmente como é o famoso microplástico e como é difícil sua separação, foi mais assustador ainda do que somente ter a informação.”

Essa mudança de percepção aparece também nas falas de quem participa pela primeira vez. Raphael destaca que um dos sentimentos mais recorrentes nas ações é a surpresa de quem se depara com o tipo e o volume de resíduos retirados da natureza. Muitas vezes, esses materiais não estão nas áreas mais visíveis, frequentadas por banhistas e visitantes, mas presos em áreas preservadas e de difícil acesso.

“Um dos sentimentos mais marcantes e presentes nas ações é a indignação das pessoas que se surpreendem ao presenciar a quantidade e os tipos de lixos retirados da natureza […] Geralmente não são nas áreas onde banhistas e visitantes frequentam que estão os resíduos, e sim nessas áreas preservadas onde o acesso é difícil e bem limitado.”

Essa experiência concreta muda a relação das pessoas com o tema e com o ambiente. Quem participa das limpezas passa a enxergar o lixo não apenas como descarte, mas como sintoma de um modelo de produção e consumo que empurra seus impactos para o oceano e para as comunidades que dependem dele.

Voluntários participam de uma ação de limpeza na praia. Em primeiro plano, uma mulher peneira areia sobre uma lona azul enquanto outras pessoas ao redor recolhem resíduos com luvas e equipamentos.
Grupo de voluntários de Bertioga realizando triagem de resíduos em ação de limpeza na Praia de Itaguaré – SP. Foto: Cristiane Silva

Uma mobilização que produz impacto real

As ações da Maré de Consciência mostram que soluções locais e coletivas podem gerar efeitos concretos, tanto na despoluição de áreas naturais quanto na mobilização social em torno do tema.

Em 2025, a campanha alcançou os seguintes resultados:

  • 46 ações realizadas
  • 534 participantes
  • Aproximadamente 5 mil pessoas impactadas
  • 72 horas de trabalho
  • 30 km percorridos
  • 6.510,945 t de resíduos removidos da natureza

Segundo Raphael, esses números ajudam a demonstrar a importância de um movimento nacional articulado:

“Diria que a importância desse movimento nacional se resume aos dados gerados nesse 1 ano de campanha em que conseguimos comprovar que com o auxílio de ferramentas básicas e a união de pessoas comprometidas conseguimos colaborar de forma brilhante para a mudança desse triste cenário.”

Grupo de voluntários do Greenpeace posa ao ar livre ao lado de um banner com a identificação “Voluntários Vale do Itajaí - SC”. Em frente ao grupo, há vários sacos de lixo recolhido durante uma ação de limpeza.
Grupo de voluntários Vale do Itajaí em ação de limpeza em Navegantes – SC.

Os dados mostram mais do que o volume de resíduos retirados. Eles ajudam a registrar padrões, fortalecer ações de sensibilização, sustentar denúncias e ampliar a capacidade de incidência política da campanha.

Todos os resíduos recolhidos passam por triagem. Os voluntários identificam, classificam e organizam o material, produzindo um verdadeiro raio X do lixo encontrado nos territórios. Essa etapa transforma o mutirão em algo ainda maior: uma ação de cuidado, monitoramento e produção de conhecimento.

Quem constrói mobilização coletiva?

Grupo de participantes posa sorrindo e com os braços erguidos atrás de uma faixa azul com a frase “Lixo no chão, não”, durante uma mobilização do Dia Mundial da Limpeza em área urbana.
Foto: Grupo de voluntários de Manaus no Dia Mundial da Limpeza na Orla do Amarelinho – Manaus. Foto: André Cavalcante

O voluntariado ambiental não se resume à execução de atividades. Ele também cria vínculos, desloca percepções e amplia o alcance da pauta ambiental por contágio social.

Danilo resume essa dimensão com uma frase simples e poderosa.

“Se não formos nós, quem é que fará?”

Esse efeito multiplicador aparece no cotidiano das mobilizações, nas ruas, nas escolas e até nos círculos pessoais dos voluntários. Nem sempre a transformação vem de onde se espera. Às vezes, ela surge de pessoas mais distantes, que observam, escutam e começam a rever hábitos.

“É muito bacana ver as pessoas querendo somar junto com a gente, seja durante uma mobilização nas ruas, ou quando estamos em uma escola e alguém quer entrar no voluntariado também […] É muito legal quando pessoas do nosso ciclo, que nem temos tanto contato, chegam e falam que depois que viram  você falando sobre meio ambiente e sustentabilidade, começaram  a se preocupar com o destino do lixo, por exemplo.”

Para Raphael, essa construção de engajamento de longo prazo passa justamente pela permanência. Mesmo quando a ação parece pequena diante da dimensão do problema, ela segue sendo necessária.

“Cada participante demonstra a satisfação de fazer parte de algo que gera benefícios, mesmo sabendo que tudo isso é apenas a ponta de um iceberg, continuamos, pois sem nossas ações seria ainda pior toda essa situação.”

Muito além da limpeza

Grupo grande de estudantes e apoiadores posa dentro de uma sala de aula segurando fotografias ampliadas de paisagens marinhas, praias e vida oceânica. Algumas pessoas estão sorrindo e acenando para a câmera.
Palestra do grupo de voluntários de Macapá – AP. Foto: Lydia Deli

Embora as ações de despoluição representem hoje cerca de 80% das atividades da Maré de Consciência, a campanha não se limita a recolher resíduos. Seu alcance é também pedagógico, simbólico e político.

As principais frentes incluem:

  • limpeza e despoluição de praias, rios e outros ambientes naturais
  • triagem e categorização dos resíduos coletados
  • produção de dados para ações de sensibilização
  • educação ambiental em escolas e espaços públicos
  • intervenções artísticas e ações de cultura oceânica
  • mobilização de novos voluntários e fortalecimento da participação social

Um dos exemplos mais potentes dessa dimensão educativa é o Museu do Lixo, iniciativa que reúne objetos encontrados nas ações, especialmente itens curiosos, antigos ou simbólicos, e os leva para escolas, eventos e espaços de diálogo. Ao tirar esses resíduos do anonimato e colocá-los em exposição, o projeto ajuda a dar materialidade ao problema e a provocar perguntas sobre consumo, descarte e responsabilidade.

Crianças observam diferentes embalagens e garrafas descartáveis expostas sobre mesas em uma atividade educativa. Em primeiro plano, garrafas de vidro e outros recipientes aparecem em foco, enquanto os rostos ao fundo estão desfocados.
Museu do lixo em exposição durante palestra para estudantes em colégio de São Paulo. Foto: Cristiane Silva

Do território ao incentivo por mudança

Mobilizações públicas como as da Maré de Consciência têm potência para gerar pressão social e política. Elas ajudam a pautar o debate sobre a escala da poluição plástica, a necessidade de despoluição dos territórios e a urgência de respostas estruturais por parte de governos e empresas.

Em nível global, os países  discutem um Tratado Global dos Plásticos, com o objetivo de enfrentar o problema na origem, regulando produção, consumo e descarte. Apesar de sua relevância, as negociações avançam lentamente, diante da resistência de setores econômicos.

No Brasil, a Estratégia Nacional para o Oceano Sem Plástico, lançada pelo governo federal no ano passado, reconhece a necessidade de uma resposta integrada para reduzir a geração de resíduos, melhorar a gestão e ampliar a conscientização.

Vista aérea de uma praia cercada por mata verde e mar azul-esverdeado. Na faixa de areia, há uma grande intervenção com a frase “NO PLASTIC”, enquanto pessoas aproveitam a praia e o mar ao redor.
Ação de alerta sobre a poluição plástica na Praia de Itaguaré / Bertioga – SP. Foto: Victor Bravo

Outros mecanismos também podem contribuir para a proteção dos oceanos e para o enfrentamento da poluição, como:

  • o Tratado Global dos Oceanos
  • a meta 30×30, que propõe proteger pelo menos 30% dos mares até 2030
  • políticas públicas locais de gestão de resíduos
  • responsabilização de empresas pela produção e circulação de plástico
  • ações de educação ambiental permanentes

É nesse ponto que a atuação do voluntariado ganha uma dimensão estratégica. Ao ocupar o território, produzir dados, sensibilizar pessoas e dar visibilidade ao problema, a campanha ajuda a conectar o que acontece nas praias, nos manguezais ou nas escolas com decisões políticas muito maiores.

Proteger o oceano começa por não aceitar o que ameaça a vida

A poluição plástica no oceano não é apenas um problema ambiental. Ela é sistêmica, profunda e urgente. Começa na forma como produzimos e consumimos, atravessa a ausência de regulação e fiscalização, se agrava com a dependência do petróleo e alcança até os ambientes mais remotos do planeta.

Diante disso, a Maré de Consciência mostra que a ação coletiva não é um gesto  simbólico vazio. É uma resposta concreta. É presença. É organização. É também uma forma de impedir que o absurdo se torne paisagem.

Na visão de Raphael, iniciativas como essa podem gerar mudanças em comunidades, pressionar políticas públicas e até inspirar outros movimentos ambientais.

“Iniciativas como a Maré de Consciência tem condições de gerar tais mudanças, seja nas pessoas e ou em comunidades que após um longo período de atuação conjunta pode vir a questionar seus hábitos de consumo e se engajar cada vez mais na agenda pela preservação dessas áreas […] O voluntariado sempre foi e sempre será a mola propulsora e a causa principal que gera estímulo e motivação impulsionando o desenvolvimento, avanço e realização de ações.”

No fim, reduzir a poluição plástica no oceano exige compromisso político, responsabilidade corporativa e decisões ambiciosas. Mas também exige gente disposta a agir, informar, insistir e mobilizar.

União dos grupos de voluntários de São Paulo, Bertioga e ABC no Dia Mundial da Limpeza.

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