Ministro Ricardo Salles cancela a Semana do Clima em Salvador e gera reações até do prefeito ACM Neto; evento regional é organizado pela ONU como preparação à Conferência do Clima

Mensagem projetada com laser no edifício onde é realizada a Cop 24

“Não há esperança sem ação climática”, diz mensagem projetada aos líderes mundiais na COP24, exigindo ações urgentes para reverter o agravamento do aquecimento global © Konrad Konstantynowicz

O Governo Federal cancelou a Semana Climática América Latina e Caribe, que aconteceria em Salvador (BA) entre os dias 19 a 23 de agosto. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, alegou que possui outras prioridades e que não faria um evento para “promover turismo e comer acarajé”, em função da Conferência do Clima ter sido transferida do Brasil para o Chile, a pedido de Jair Bolsonaro. Com isso, o governo demonstra não só o seu profundo desconhecimento da agenda climática como sua miopia estratégica. A decisão foi má recebida em função dos compromissos assumidos pelo país. O prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), presidente do partido que apoia o governo, se ofereceu para realizar o evento de sem o uso de recursos federais.

A Semana do Clima, como reunião preparatória, não depende que seja no mesmo país que sediará a Conferência porque as discussões tratadas são regionais – no caso América Latina e Caribe, dentro de um contexto global. Ela antecede as negociações sobre mudanças climáticas referentes ao Acordo de Paris e é um espaço de encontro entre a sociedade civil, a ciência e os distintos governos dos vários países, com o objetivo de preparar o terreno, por meio do diálogo conjunto, para que a as grandes Conferências da ONU sejam um local receptivo e convergente com a opinião da população e suas lideranças e, assim, serem bem sucedidas. Não recepcionar esse evento significa recusar-se a esse diálogo com a sociedade e estar à margem das decisões na agenda de clima. É mais um passo na perda de relevância estratégica na geopolítica mundial.  

Mais grave, a recusa do governo em receber a Semana do Clima demonstra ainda o negligenciamento do governo quanto a enfrentar de fato esse desafio. Enquanto jovens do mundo todo saem às ruas para pedir aos governantes que ajam agora para conter o aquecimento global, o governo brasileiro dá exemplo contrário. Só indo às ruas é que teremos ações justas pelo direito das pessoas a ter mais segurança, saúde, bem-estar e, mais crucial, viver?

O desequilíbrio do clima já está trazendo consequências para os brasileiros, estejam eles nas cidades ou no meio rural, como mostramos no web-documentário O Amanhã é Hoje. Em vez de organizar ações para conter o desmatamento, estimular a mobilidade urbana e investir em energias renováveis, medidas que diminuem as emissões de gases de efeito estufa que esquentam o planeta, o governo paralisou 82% dos R$ 437 milhões previstos para  enfrentar o aquecimento global.

Infelizmente, medida como esta não se trata de “economia” como o Governo quer fazer parecer, mas sim uma conta dura que já está começa a ser paga pelos mais pobres e vulneráveis, mas que terá impacto para todos.