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O país asiático sofreu essa semana mais uma grave consequência do aumento de temperatura do planeta. Evidências científicas reafirmam a urgência de contermos a crise climática

Aftermath of Typhoon Kammuri. © Basilio H. Sepe / Greenpeace
Menino caminha por rua inundada pelo tufão na cidade de Legazpi, nas Filipinas. © Basilio H. Sepe / Greenpeace © Basilio H. Sepe / Greenpeace

Centenas de milhares de pessoas foram forçadas a sair de suas casas devido à chegada do tufão Kammuri, que atingiu as Filipinas nesta segunda-feira, dia 2 de dezembro. Esse é o 20º tufão que assola o país em 2019, colocando-o entre os mais vulneráveis ​​a eventos extremos como tempestades, inundações repentinas, vazamentos de rios e deslizamentos de terra.

Ao mesmo tempo em que líderes globais e especialistas de mais de 190 países se reúnem na Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP25, em Madrid, para cobrar medidas de redução de emissões de gases de efeito estufa e limitar a elevação da temperatura da terra a, preferivelmente, 1,5 graus Celsius em relação à era pré-industrial até o fim do século, os filipinos pagam com a vida as consequências da falta de ação de empresas e governantes ao longo dos anos. 

Segundo o novo relatório da  Organização Meteorológica Mundial (OMM), lançado em 3 de dezembro deste ano, 2019 está a caminho de ser considerado um dos anos mais quentes já registrados na última década, com um aumento médio global da temperatura (janeiro a outubro) de cerca de 1,1 graus Celsius acima do período pré-industrial. E a atual década (2010-2019) está destinada a ser a mais quente já registrada na história.

Apesar de as variações de temperatura serem um fenômeno intrínseco da Terra, atividades humanas como o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural) estão diretamente relacionadas ao desequilíbrio climático do planeta, que vem provocando também secas cada vez mais severas e mais frequentes e impactando diversos aspectos da vida humana, do acesso ao alimento à garantia de moradia. Essas variações climáticas representam uma ameaça à produção agrícola que, quando somada ao aumento da população, resulta em grandes desafios à segurança alimentar, principalmente de populações de países vulneráveis. 

Segundo o relatório, os eventos climáticos extremos estão entre os principais fatores responsáveis por causar problemas econômicos e o aumento da fome no mundo.  Após uma década de declínio constante, a fome voltou a crescer. Em 2018, mais de 820 milhões de pessoas sofriam de fome. No primeiro semestre de 2019, mais de 10 milhões de pessoas foram deslocadas do lugar onde moravam, sendo 7 milhões ​por causa de desastres como o ciclone Idai no sudeste da África, o furacão Dorian no Caribe, inundações no Irã, Filipinas e Etiópia. 

O relatório da OMM – que complementa os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas -, une-se à voz das populações que têm ido às ruas, ao recente tufão Kammuri e a todos os outros desastres decorrentes do desequilíbrio climático ; fatores que precisam ecoar nas decisões que os líderes globais estão tomando neste momento, na COP25, e que vão impactar diretamente o futuro da humanidade na Terra. Desastres como esses que estão acontecendo agora nas Filipinas são exemplos cruéis de que precisamos de esforços maiores para combater as mudanças climáticas e de que aqueles que menos contribuem com as emissões são os que mais sofrem com as consequências.  

“O aumento das emissões e consequente aumento da temperatura global causam a perda de ecossistemas inteiros resultando em uma também violação dos direitos das pessoas que habitam o local da tragédia. O caso da Filipinas é emblemático: a preservação da biodiversidade, assim como o fim da exploração de energia fóssil em nível global está intrinsecamente ligado ao direitos sociais e individuais”, diz Fabiana Alves, coordenadora do projeto de justiça climática do Greenpeace, que está acompanhando a COP em Madrid.

O Greenpeace lamenta a tragédia decorrente do tufão e exige que mecanismos de perdas e danos para países atingidos sejam deliberados o mais rápido possível.

Durante a abertura da COP25 nesta segunda-feira, o secretário-geral da ONU,António Guterres, lamentou a  lentidão dos países em enfrentar a emergência climática e alertou para a necessidade de uma atuação mais urgente e radical. “Nós estamos literalmente perdendo a guerra contra as alterações climáticas. É fundamental colocarmos o mundo de acordo com o que a comunidade científica definiu como nossos objetivos: limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus Celsius até o final do século, neutralizar as emissões de carbono até 2050 e reduzir as emissões em 45% até 2030.  Infelizmente, continua faltando vontade política. Precisamos aumentar a responsabilidade coletiva e a COP25 é uma oportunidade para que essa responsabilidade possa ser exercida”, disse Guterres, antes de afirmar que os maiores emissores de CO2 “não estão cumprindo sua parte”.

O Acordo de Paris, que continua sendo discutido durante a COP25, precisa endereçar não somente a diminuição das emissões, mas também as injustiças decorrentes da desigualdade mundial, em que o países que menos contribuem para a alteração do clima são aqueles que possuem maior número de perdas em vidas e direitos.