Evitando o “fim do mundo”: como a cidade mais indígena do Brasil está enfrentando a Covid-19

Em meio à pandemia, São Gabriel da Cachoeira (AM) vive o desafio de impedir a morte de milhares de indígenas e o desaparecimento de suas “bibliotecas vivas”

Por Luana Lila

São Gabriel da Cachoeira (AM), banhada pelo rio Negro, a cidade mais indígena do Brasil. © Christian Braga / Greenpeace

Desde que a pandemia do novo coronavírus atingiu o Brasil, um sinal de alerta se acendeu para os povos indígenas do país. Diante de uma história de destruição causada por epidemias transmitidas por não indígenas, a Covid-19 trouxe uma assustadora lembrança de um passado que precisa definitivamente ficar para trás e nunca mais se repetir.

Apesar de todos os avisos com relação à vulnerabilidade dos povos indígenas à Covid-19 – a taxa de mortalidade entre os indígenas da Amazônia Legal é 150% maior do que a média nacional – poucas ações efetivas têm sido realizadas pelo governo federal para proteger essas populações frente à pandemia. Recentemente, o presidente Bolsonaro vetou 16 itens do projeto que trata de medidas de proteção social para prevenção de contágio nas aldeias. 

Se a doença chegou ao Brasil de avião, foi principalmente pelos rios que ela se espalhou pelo interior da Amazônia brasileira, onde vivem 180 povos indígenas. Segundo dados da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), até o dia 10 de julho, já havia, nos noves estados da Amazônia brasileira, 9.936 casos confirmados de indígenas infectados pela Covid-19, 411 óbitos registrados e 102 povos atingidos. O Amazonas foi o primeiro a ter a confirmação de indígenas contaminados e concentra o maior número de mortes entre estes povos.  

Em São Gabriel da Cachoeira (AM), o município mais indígena do Brasil, que fica na região conhecida como Cabeça do Cachorro, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, um esforço entre diversas instituições tem contribuído para mitigar os impactos da Covid-19 e tentar impedir um avanço ainda maior da doença pelo interior da floresta, que pode ter consequências catastróficas.

Mapa mostra São Gabriel da Cachoeira, na região conhecida como “Cabeça do Cachorro” devido ao seu formato no mapa brasileiro, que lembra a cabeça do animal
Mapa mostra São Gabriel da Cachoeira, na região conhecida como “Cabeça do Cachorro” devido ao seu formato no mapa brasileiro, que lembra a cabeça do animal.

O Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19, instituído pela prefeitura no dia 18 de março, reúne a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Instituto Socioambienal (ISA), a Secretaria Municipal de Saúde, o Distrito Especial de Saúde Indígena (Dsei) e o Exército, entre outras organizações. Este grupo começou a implementar ações de combate à Covid-19 antes de a doença chegar ao município. 

Entre as ações de prevenção foram realizados esforços de comunicação e informação sobre a doença, respeitando as especificidades locais – São Gabriel tem 3 línguas reconhecidas como oficiais além do português (Nheengatu, Tukano e Baniwa) –, com a produção de cartilhas nas línguas indígenas e com a disseminação de informação via radiofonia e carro de som, realizada pelos jovens comunicadores da Rede Wayuri de Comunicação Indígena, com apoio do Instituto Socioambiental (ISA).

São Gabriel da Cachoeira (AM), banhada pelo rio Negro, a cidade mais iJovens da Rede Wayuri de Comunicação Indígena transmitem informações sobre a Covid-19 para as comunidades indígenas do Rio Negro. © Christian Braga / Greenpeace
Jovens da Rede Wayuri de Comunicação Indígena transmitem informações sobre a Covid-19 para as comunidades indígenas do Rio Negro. © Christian Braga / Greenpeace


Outra ação de prevenção foi a instalação de barreiras sanitárias com o apoio do Exército, para controlar os tráfegos fluvial e aéreo. “Isso fez com que a gente segurasse 37 dias [até o vírus chegar]”, conta Marivelton Barroso, liderança indígena presidente da Foirn e atual presidente do Comitê. “Mas também tivemos desafios, muita gente não aceitava essas barreiras, via como uma coisa precipitada,  e assim começou a vir de forma clandestina. Hoje não sabemos dizer por onde veio a propagação do  vírus, mas, em abril, quando estourou, já apareceu como contaminação comunitária e isso fez com que a coisa fugisse do controle”.

Reunião do Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira (AM), realizada na maloca da Foirn, une esforços para controlar a propagação da doença entre os povos indígenas. © Christian Braga / Greenpeace

As notícias sobre os primeiros casos confirmados de Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira alarmaram seus moradores. “Uma coisa é você assistir na televisão a pandemia em outros estados e em outros países, mas, quando chegou e a gente viu a realidade, assustou a gente. Em um final de semana cinco pessoas morreram em casa. Foi desesperador”, lembra Wizer Almeida, indígena Baré, administrador no Instituto Socioambiental (ISA).

O sistema de saúde do município entrou em colapso, com falta de leitos, falta de profissionais e baixo estoque de oxigênio. Na cidade há apenas uma unidade hospitalar, o Hospital de Guarnição do Exército, que não possui Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e, no início da pandemia, contava apenas com sete respiradores para o tratamento de pacientes com Covid-19.

Diante disso, a prefeitura publicou um decreto de lockdown que ficou em vigor do dia 9 de maio até o dia 8 de junho, além do uso obrigatório de máscaras, entre outras medidas. Até o dia 12 de julho São Gabriel da Cachoeira tinha 2.982 casos confirmados, 192 em monitoramento e 47 óbitos registrados.

Para lidar com essa situação, em um cenário que abrange cerca de 750 comunidades de 23 povos indígenas, com enormes desafios logísticos, o esforço de reunir instituições tão diversas, entre autoridades e sociedade civil, tem sido extremamente relevante, segundo Marivelton. “Um trabalho interinstitucional é importante e estratégico na região. Se a gente não tivesse unido esforços a situação poderia estar muito pior. É um modelo que teria que continuar até mesmo depois da pandemia”, diz ele.

Com o tempo, outras instituições começaram a apoiar o trabalho do Comitê, entre elas os Expedicionários da Saúde (EDS) e o Greenpeace, que, com o projeto Asas da Emergência, viabiliza o transporte dos materiais doados, tanto pela própria organização, como por organizações parceiras. 

“É preciso entender com profundidade os desafios de quem vive na Amazônia, que uma pandemia como esta potencializa. Para se ter uma ideia, quem mora em São Gabriel da Cachoeira está a 850 quilômetros da capital Manaus, a única cidade que tem UTI em todo o estado, e isso é realidade também para diversas outras cidades na região” explica Carol Marçal, da Campanha da Amazônia do Greenpeace. “A formação de uma ampla rede de solidariedade é essencial para enfrentar esta situação”. 

Entre doações do Greenpeace e de outros parceiros, a organização já transportou para São Gabriel milhares de testes rápidos para a Covid-19, cilindros e concentradores de oxigênio, geradores e equipamentos elétricos para a montagem de enfermarias de campanha, Equipamentos de Proteção Individual (EPI), máscaras de uso individual, sabão, álcool em gel, cestas básicas e máquinas de costura para as mulheres que estão confeccionando máscaras para doações nas comunidades. Também foram transportados profissionais de saúde para atendimento, avaliação da situação da estrutura de saúde do município, aplicação de testes e capacitação de agentes de saúde.

Projeto Asas da Emergência leva doações para apoiar o combate à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira. © Valentina Ricardo / Greenpeace


Um lugar onde os pacientes indígenas podem se sentir em casa

Um exemplo dos esforços sendo realizados pelo Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19, com o apoio de diversas organizações, são as enfermarias de campanha que estão sendo montadas com o objetivo de atender os povos indígenas no contexto da pandemia. Chamadas de Unidades de Atenção Primária Indígena (Uapi), elas são coordenadas pelos Distrito Especial de Saúde Indígena (Dsei) e atendem pacientes de baixa e média complexidade, proporcionando ambientes adaptados às necessidades desses povos. 

Atualmente são 12 Uapi já instaladas ou em fase de implementação na região do Alto Rio Negro. Idealizadas em uma parceria entre o Dsei-Alto Rio Negro (ARN) e a organização médica humanitária Expedicionários da Saúde (EDS), elas oferecem assistência dentro das comunidades, ajudando a evitar que indígenas com casos menos graves tenham que se tratar na cidade.

Como explica o médico do Dsei-ARN Guilherme Reis Monção, que ajudou a viabilizar essas unidades, elas funcionam a partir de uma estrutura simples, garantindo principalmente o oxigênio, as medicações e o cuidado de médicos, enfermeiros e técnicos de saúde. “Se a gente conseguir dar o tratamento de forma precoce, a gente vai conseguir salvar vidas. Então, essa é a ideia, levar a medicação e o cuidado à comunidade”, diz ele.

Além disso, as unidades facilitam o atendimento ao grupo de risco, já que muitos idosos resistem a ir se tratar nas cidades por medo de nunca mais voltar. “Muitas pessoas não vão querer sair das comunidades. É uma forma de dar mais uma chance de tratamento para eles”, explica Guilherme. 

A perda dos mais velhos é uma das maiores preocupações dos indígenas. Como afirma Marivelton, a região já viveu perdas irreparáveis de anciãos que detinham toda a história e o conhecimento dos territórios e das questões culturais. “A gente chama de uma biblioteca viva que está com a gente. O principal doutor e formador é o conhecedor tradicional. São os mais velhos”, diz ele. 

A reportagem do Greenpeace visitou, no início de junho, a Uapi do Centro de Referência Cachoeirinha dos Padres, que é a única que não fica dentro das comunidades e oferece assistência em São Gabriel da Cachoeira. Localizada na zona rural, em um espaço cedido pela Diocese, as instalações são cercadas de árvores e há até uma pequena cachoeira dentro do terreno. O clima geral é de paz e tranquilidade, com os sons da natureza se fazendo presentes entre os doentes.

“Aqui você consegue tratar melhor o paciente, ele se sente mais em casa”, diz o médico Guilherme. O presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), Jovânio Vilagelin, do povo Baré, concorda: “é uma unidade criada especialmente para a população indígena, que tira o ambiente hospitalar, um ambiente muito carregado para nós”, diz ele. Jovânio explica que em sua língua chama-se “Ajuri” quando as pessoas se unem para ajudar alguém que está precisando. “Com esse ajuri, a união de todos, [foi possível] montar esse ambiente tranquilo, calmo, para que os pacientes possam ficar”, complementa. 

No local, os indígenas ficam divididos em alas. Na vermelha ficam os pacientes confirmados com a Covid-19; na amarela os pacientes suspeitos e na verde ficam os pacientes recuperados, que aguardam para voltar para suas comunidades.

No dia de nossa visita, um benzedor vestindo Equipamentos de Proteção Individual (EPI) realizava o atendimento tradicional aos pacientes, acomodados em redes, ao lado dos médicos e enfermeiros do Dsei. Muitos vêm de longe para prestar esse atendimento.

Unidade de Atenção Primária Indígena em São Gabriel da Cachoeira. © Christian Braga / Greenpeace
Benzedor protegido com EPI ajuda a tratar os pacientes de Covid-19. © Christian Braga / Greenpeace


O médico Guilherme reforça a importância do conhecimento tradicional indígena combinado ao da medicina convencional. Ele ressalta que no contexto da pandemia não há estudo científico para garantir a eficácia desses tratamentos, porém bons resultados têm sido observados. “Não poderia falar se tem ou se não tem [eficácia] sem investigação científica, mas a gente vê um bom resultado. Então, a gente continua com o nosso tratamento e o tratamento deles, e tenta fazer essa fusão do conhecimento tradicional e do conhecimento dos não-indígenas”.

De acordo com o Dsei-ARN, desde que a Uapi da Cachoeirinha dos Padres começou a funcionar, 89 pacientes já receberam alta e puderam voltar para suas aldeias, entre eles uma indígena idosa de 102 anos, cuja recuperação foi amplamente comemorada. Atualmente, o modelo das Uapi está sendo implementado em outras regiões estratégicas do interior da Amazônia, com o objetivo de descentralizar o tratamento e ajudar a diminuir o fluxo de pacientes indígenas em busca de socorro nas cidades.

Faça parte do movimento TODOS PELA AMAZÔNIA!