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Movidas pela solidariedade, organizações juntam esforços para diminuir os severos impactos da Covid nas comunidades indígenas

A pandemia que o mundo enfrenta hoje é extremamente desafiadora para cada um de nós, por diversos e diferentes motivos. Para as populações em condição de vulnerabilidade, os desafios são ainda maiores. 

Você já pensou como é a situação para quem vive há centenas de quilômetros dos centros de atendimento à saúde, em geral precários na oferta de estrutura, equipamentos e vagas? Ou já pensou nos casos em que as “estradas” são os rios e o transporte é feito apenas por barco ou avião, demandando um tempo ou um capital financeiro na maioria das vezes inexistente? Situações como essas são a realidade para milhares de indígenas dos 180 povos que vivem na Amazônia e, infelizmente, podem impedir o acesso a qualquer chance de conseguir atendimento para a Covid-19. 

Prevendo um contexto desolador, nos últimos meses, uma ampla rede de organizações não governamentais, indígenas e governamentais juntaram suas capacidades para, num esforço coletivo, evitar ou diminuir os impactos do coronavírus nas comunidades indígenas amazônicas. 

Por meio de articulação, doação e distribuição de materiais, instituições como Greenpeace, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Expedicionários da Saúde (EDS), Operação Amazônia Nativa (Opan), Instituto Socioambiental (ISA), Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepe), Amazon Watch e alguns Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei) possibilitaram que o Asas da Emergência já tenha transportado mais de 17 toneladas de materiais hospitalares, de higiene básica e de proteção para o atendimento de indígenas na região Norte

Deste total, 10.323 quilos foram transportados pelo avião do Greenpeace, uma peça fundamental para garantir que as doações cheguem rapidamente às regiões em que a logística de transporte é bastante difícil. “Quando percebemos que a Covid teria um drástico impacto sobre indígenas e que a ameaça de genocídio era real, imediatamente decidimos colocar nosso avião à disposição para garantir que ajuda emergencial chegasse aos povos. A partir de um chamado do movimento indígena, mobilizamos nossa equipe e começamos as articulações com outros parceiros”, explica Carol Marçal, da campanha Amazônia do Greenpeace Brasil.

Avião do Greenpeace transporta materiais e equipamentos de saúde para o combate à Covid-19 em regiões remotas da Amazônia, onde há um enorme desafio logístico para o atendimento às comunidades. © Christian Braga / Greenpeace

Outros  6.740 quilos foram transportados de barco pelas águas do Rio Negro para que uma carga contendo alimentos, cilindros de oxigênio, geradores de energia e equipamentos elétricos chegasse a São Gabriel da Cachoeira (AM). Estes materiais foram encaminhados para as Unidades de Atendimento a Povos Indígenas (Uapi) sendo implementadas pelo Dsei Alto Rio Negro naquela região. 

Do dia 8 de maio até este domingo (21), o Asas da Emergência realizou um total de 23 voos – o que significa um voo a cada dois dias. Cada operação envolve compra de materiais, organização das doações, um rigoroso processo com várias etapas de descontaminação, contínua articulação e planejamento com parceiros e embarque das doações. Tudo realizado em meio a um contexto de pandemia, isolamento social e até mesmo “lockdown” em alguns municípios.

Processo de descontaminação dos materiais transportados pelo Greenpeace para apoiar o combate à Covid-19 no interior da Amazônia. Máscaras, sabão e álcool em gel foram levados de Manaus a São Gabriel da Cachoeira, considerado o município mais indígena do Brasil. © Christian Braga / Greenpeace

Afinal, o que o “Asas” transporta para os indígenas?

Entre materiais hospitalares, de higiene básica, de proteção individual e até colchões, tem sido tanta coisa diferente, que vale a pena especificar o que já foi levado pelo avião: 

  • 25.700 máscaras de tecido (produzidas por ativistas do Greenpeace)
  • 10.000 luvas cirúrgicas
  • 2.000 máscaras cirúrgicas
  • 2.304 frascos de alcool gel
  • 6.750 barras de sabão
  • 80 macacões Tyvec
  • 80 viseiras

Também foram transportados: kits de Equipamentos de Proteção Individuais (EPI); materiais hospitalares (7.500 testes, dezenas de concentradores e cilindros de oxigênio, oxímetros, termômetros, dezenas de caixas de medicamentos); colchões, 8 geradores de energia e diversos equipamentos para montagem das Unidades de Atendimento aos Povos Indígenas (Uapi); máquinas de costura e tecidos para a confecção de máscaras; e materiais de pesca (para evitar que os indígenas tenham que ir para a cidade comprar alimentos). 

Além de tudo isso, equipes médicas, de logística e membros de organizações parceiras também já foram transportados pelo avião. 

Como explica Diogo Giroto, indigenista da Operação Amazônia Nativa (Opan), organização que está atuando em uma frente emergencial para levar materiais de higiene e equipamentos para fortalecer a segurança alimentar dos indígenas, o transporte com o avião garante a agilidade que um momento como o da pandemia exige. Segundo ele, de barco, os materiais levariam de seis a oito dias para chegar de Manaus, capital do Amazonas, à Lábrea, na região do Médio Purus. Desse modo, o avião agiliza a chegada e a distribuição dos produtos para as comunidades.

“Articulações como essa, com o movimento indígena, com órgãos governamentais e com o Greenpeace, que tem contribuído com essa logística extremamente importante para dar agilidade, criam um impacto e trazem segurança maior para os indígenas que estão nas suas aldeias. Eles precisam de maior cuidado e respeito de todos para que se mantenham lá, já que eles têm situações de fragilidade maiores que o resto da população”, constata Giroto. 

Em seu segundo voo para Lábrea (AM), o projeto Asas da Emergência transportou doações feitas pelo Greenpeace e pela organização Operação Amazônia Nativa (Opan), dentre elas estão: máscaras cirúrgicas e de tecido, luvas cirúrgicas, termômetros, oxímetros, sabão, álcool em gel e material de pesca. © Christian Braga / Greenpeace

E para onde vai tudo isso?

O Asas da Emergência tem atuado especialmente nas regiões do Alto Rio Negro, Médio Purus, Alto Solimões  (todas no estado do Amazonas) e do Rio Tapajós (no Pará). Além disso, na última semana foram realizados dois voos para o Parque Indígena Tumucumaque (fronteira entre os estados do Pará e Amapá com o Suriname), onde o impacto da Covid é bastante preocupante, com a confirmação de diversos casos, e existe o registro da presença de indígenas em isolamento voluntário

Até agora já são mais de cinquenta os povos indígenas que irão se beneficiar dos materiais transportados pelo Asas da Emergência: Munduruku, Paumari, Apurinã, Jarawara, Jamamadi, Suruwahá, Deni, Mamuri, Kokama, Tikuna, Kambeba, Kaixana, Kanamari, Witoto, Baré, Tukano, Dessana, Baniwa, Yanomami, Ahpama, Ahpamano, Aipïpa, Akïyó, Akuriyó, Alakapai, Aparai, Arahasana, Aramaso, Aturai, Inkarïnyana, Kahyana, Kaiku Apërën Arimisana, Katxuyana, Kukuyana, Maraso, Mawayana, Murumuruyó, Okomoyana Aramayan, Opakyan, Osenepohnomo Wezamohkoto, Patakaiyana, Piayanakoto, Pïrëuyana, Pirixiyana, Pïropï, Sakëta, Tarëpisana, Tiriyó, Tunapeky, Tunayana, Txikïyana e Upuruiyana.  

Os produtos de higiene básica, como sabão, álcool gel, máscaras de tecido e cirúrgicas e luvas cirúrgicas são destinados às aldeias pelas organizações locais. Enquanto, os equipamentos hospitalares são direcionados aos Dsei – este é o caso dos  cilindros e concentradores de oxigênio, Equipamentos de Proteção Individual (EPI), medicamentos e materiais para a instalação das Unidades de Atendimento. 

Em São Gabriel da Cachoeira, a cidade mais indígena do Brasil, o Asas da Emergência tem apoiado o Comitê de Enfrentamento à Covid-19, que reúne uma ampla rede de instituições para impedir a propagação do vírus entre os povos indígenas do Alto Rio Negro. Dentre os materiais já  transportados estão os mais diversos equipamentos de saúde, além de máquinas de costura e insumos utilizados na iniciativa de produção de máscaras da campanha “Rio Negro, Nós Cuidamos”, coordenada pelo Departamento de Mulheres da Foirn.

“Essa rede articulada com todos os parceiros é que tem permitido resultados positivos, apesar da complexidade que é essa pandemia dentro do nosso território. Se não fosse toda essa rede solidária, a gente poderia ter até um índice muito maior de óbitos aqui na região do Alto Rio Negro”, testemunha Marivelton Barroso, presidente da Foirn, que representa 23 povos e uma população de 45 mil habitantes, divididos em 750 comunidades indígenas.

Reunião do Comitê de Enfrentamento à Covid-19, em São Gabriel da Cachoeira, a cidade mais indígena do Brasil. © Christian Braga / Greenpeace

Cabe ressaltar que toda a distribuição dos materiais para as comunidades indígenas é feita por organizações indígenas, indigenistas ou pelos Dsei. Os produtos são entregues nos aeroportos a representantes destas organizações, que são os responsáveis por fazer as entregas nas aldeias. Para além das diversas etapas de descontaminação dos materiais transportados, o Asas da Emergência cumpre um procedimento bastante rigoroso de segurança biológica de modo a evitar qualquer possibilidade de contaminação dos indígenas.  

Disseminação preocupante, letalidade alta

Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), até o dia 18 de junho, já havia 7.208 casos de contaminação entre indígenas e 332 mortos, de 110 povos atingidos em todo o país. A disseminação tem aumentado de modo bastante rápido entre os indígenas, com um índice de letalidade bastante alto. Um recente estudo da Universidade Federal de Pelotas constatou que a taxa de letalidade por Covid-19 entre indígenas é de 9,6%; maior que a média da população brasileira (de cerca de 6%, no dia 5 de junho).

O cacique do povo Apurinã Zé Bajaga avalia que “é muito importante que todos os povos, os não indígenas, os brancos, os kariwá, como fala na minha língua, vejam a nossa situação agora, dos povos indígenas. Olhem com carinho para nós agora porque estamos passando por um momento difícil”. Resoluto, ele garante: “Mas nós somos povos existentes e resistentes, vamos continuar resistindo”.

Zé Bajaga Apurinã, Cacique da Aldeia Idecora, na Terra Indígena Caititu, conselheiro da COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira). © Christian Braga / Greenpeace

E como temos afirmado, uma pandemia como a que enfrentamos atualmente exige solidariedade e nos estimula a evoluir como humanidade. “Neste sentido, o projeto Asas da Emergência pode ser considerado uma fonte de inspiração. Mas temos consciência de que temos muito trabalho a realizar, junto aos indígenas. Para nós, cuidar da saúde dos povos é cuidar também da saúde da floresta, já que a terra é a mãe de todos nós”, conclui Carol Marçal.

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