Como as mulheres marisqueiras estão vivendo depois que o óleo invadiu as praias do Nordeste – e suas vidas

As marisqueiras têm uma técnica especial para pescar: elas assobiam para chamar os aratus. Foto: Christian Braga / Greenpeace

O assobio no mangue é a única coisa que se escuta com o vento que vem do mar. A pescadora Rosângela Maria de Lima e Silva, apelidada de Ró, assobia para chamar um bicho. Ela está rodeada de outras pescadoras e de sua família, todos seguidores da mesma profissão. Desde pequena, aprendeu a pescar, não apenas para terminar os estudos, mas por muitos anos, para sobreviver à fome, herança das estruturas desiguais que ainda dominam Pernambuco. Com exceção de seu genro, são todas mulheres no grupo de pesca. Ela é umas das únicas do vilarejo que sabe ler e escrever. 

O aratu segue o assobio doce daquelas mulheres. Ambos pertencem ao mangue. Quando não conseguem vender o pequeno caranguejo vermelho, alimentam-se dele. De pequena, Ró e sua mãe se cansaram de comer siri e agradecem por ter a comida à mesa: “Quando conseguia comprar farinha e mandioca, aí era um banquete… Em época de manga, para não comer siri porque não aguentava mais, a gente comia manga e tomava água até se fartar, depois dormia um bom sono de quem naquela noite não tinha dormido com fome. Mas a manga não tem sempre, e logo o siri voltava pra mesa”, relembra.

A pobreza em Serrambi, praia de Ipojuca, é uma constante. Na beira da praia, ficam os mais ricos; nos mangues, a população toda da pequena cidade, empurrada para longe de suas antigas casas na areia. O vilarejo é parte desse ecossistema, berçário da vida do mar. Cuidam do que dependem para ganhar o pouco que a vida proporciona, o pouco que as faz sorrir e ter orgulho de sua profissão. Como mulheres, vivem a dificuldade do tratamento desigual de saírem do lar para trabalhar. “Sabe como é ser mulher, né? A gente precisa se vestir de homem para ir pescar, a gente se sente mais segura”, diz Ró.

O óleo que chegou não se sabe de onde, sem aviso e sem preparo do governo para recebê-lo, foi mais um fator de mudança para elas. De acordo com Ró, no dia da chegada, todos fizeram vigília na praia, andando de um lado para o outro. Às 4 horas da manhã, o telefone tocou: “O óleo chegou”. Limparam com as próprias mãos as manchas de óleo da praia e do corpo.

A crise lá sempre bate mais forte que em qualquer outro lugar, pois dependem da renda da pesca para comer e para o estudo dos filhos. O lado fraco é apenas econômico, pois a força dessas mulheres é capaz de mover mundos, de rir alto em meio às adversidades, de limpar a sujeira dos outros. 

Ró e sua filha no mangue. É do trabalho de marisqueiras como elas que depende a alimentação de muitos turistas que vistam o Nordeste. Foto: Christian Braga / Greenpeace

Hoje, elas não conseguem vender o aratu, o peixe ou os mariscos. O turista não vem e tem medo de comprar a mercadoria. Quando as acompanhamos, a pescaria foi para que o governo fizesse análise de contaminação, e os dias que a antecederam foram para cadastrar todos os pescadores da vila em busca de um ressarcimento que ninguém sabe de quanto será e nem quando virá. Ró foi quem coordenou o cadastramento de cada um. Para os três pescadores que não foram durante o dia na Z12 de Ipojuca (zona que demarca a colônia dos pescadores) por estarem trabalhando, ela abriu a casa à noite para fazer o cadastro.

Elas são aquelas que pescam o alimento que chega à mesa do turista, são as que precisam ser ouvidas, mas o assobio das encantadoras do mar é barrado pelos altos muros das casas à beira mar. O que se quer é escondê-las no fundo do mangue, lá onde a pobreza não tem por onde sair aos olhos.  

Esconde-se óleo aqui, pobreza ali, mulheres acolá, pessoas logo adiante. Escondem-se os problemas, sem a coragem de resolvê-los. Elas mostraram como driblar adversidades com as próprias mãos, pois nunca tiveram a assistência adequada do governo para isso. Acostumaram-se a limpar todo tipo de sujeira que recai sobre elas, como pescadoras e como mulheres. 

Ró fala forte: “ Aqui a gente vive um dia depois do outro, vendo até quando a gente vai sobreviver”. O balaio se enche de aratu novamente. Enredam-se no mangue de volta para a casa.

Expedição no Nordeste, em Recife com Greenpeace Brasil. Foto: Christian Braga