Para evitar a falta de água, quem economiza merece um desconto na tarifa. A medida já funcionou em São Paulo e ajuda a proteger os mananciais em situações de crise.

Diante da ameaça de crise hídrica em São Paulo, com o baixo nível dos reservatórios e a incerteza sobre a regularidade das chuvas sob influência do El Niño, organizações da sociedade civil defendem que a Sabesp retome o desconto na conta de água para quem reduzir o consumo em situações de emergência.

O desconto na conta de quem economiza água fez com que 8 em cada 10 clientes diminuíssem o consumo, protegendo os reservatórios e o abastecimento das famílias durante a crise hídrica de 2014–2015, quando o Sistema Cantareira, o maior do estado paulista, colapsou. 

O incentivo econômico é uma alternativa à medida adotada pela Sabesp há um ano: a Gestão de Demanda Noturna (GDN), que reduz a pressão da água todas as noite para 22 milhões de consumidores (77% de seus clientes), limitando o acesso à água de famílias em bairros elevados, periferias e sem caixa d’água.

“É a falta d’água direcionada à população mais pobre e a quem vive em áreas vulnerabilizadas. O direito humano à água sem interrupção não é atendido, explica Amauri Pollachi, coordenador administrativo e financeiro do Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS). “Não se trata de gestão da demanda, mas de restrição de oferta em que a empresa está entregando menos água do que deveria. A demanda existe, as pessoas precisam de água 24 horas por dia.”

Como funciona o desconto na conta de água da Sabesp? 

Atualmente, a Sabesp não oferece mais desconto para quem economiza água, porém organizações da sociedade civil – como Greenpeace Brasil, ONDAS (Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento), IAS (Instituto Água e Saneamento) e SOS Mata Atlântica –, cobram a retomada do bônus na tarifa de quem economiza água em situações críticas

Na última crise hídrica, em 2014 e 1015, a Sabesp concedeu descontos de acordo com a economia atingida pelo imóvel e 82% dos clientes reduziram o consumo. A média de água consumida por pessoa caiu de aproximadamente 155 litros para 118 litros por pessoa, próximo ao padrão recomendado pela ONU (Organização das Nações Unidas) de 110 litros por pessoa. 

 Quanto maior a redução, mais barata ficava a conta, conforme tabela abaixo.

Economia de Água Desconto na Conta 
10% – 15% de redução no consumo10% de desconto
15% – 20% de redução no consumo20% de desconto
mais de 20% de redução no consumo30% de desconto
Fonte: Sabesp, 2015

“Não é justo que a população pague a conta da crise hídrica. O bônus tarifário é importante para incentivar a economia em momentos críticos e assegurar o abastecimento de todos, assim como a aplicação de tarifas maiores para grandes consumidores industriais e comerciais. As medidas adotadas pela Sabesp devem garantir a segurança hídrica sem transferir a culpa para os cidadãos, principalmente os mais vulnerabilizados”, frisa Rodrigo Jesus, da frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil.

Existe risco de faltar água em São Paulo? E o El Niño?

Sim. Os principais reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo registram os menores níveis desde a pior crise que o estado já viveu, entre 2014 e 2015. Em julho, Sistema Cantareira operou na Faixa de Alerta (volume útil abaixo de 36%).

O El Niño, fenômeno climático que se torna cada vez mais frequente e intenso com a crise climática, aprofunda a seca na Amazônia e afeta os “rios voadores” que equilibram as chuvas no Sudeste. Se as chuvas no período de seca ficarem 25% abaixo da média, o Cantareira entrará em restrição, impondo limites severos de retirada de água, aponta o monitoramento mensal do Instituto Água e Saneamento (IAS). 

Para abastecer o Cantareira, foi autorizado o aumento da transferência de água da bacia do Rio Paraíba do Sul, o principal manancial do estado do Rio de Janeiro, superando os volumes transferidos em 2021 e 2025, quando reforços semelhantes também foram necessários. 

Projeções de vazão (junho a setembro de 2026) e do volume armazenado no Sistema Cantareira até 30/09/2026, avaliando 5 cenários de chuva (de –50% a +25% da média histórica, além do cenário crítico). As simulações consideram a entrada contínua de 8,5 m³/s de água vinda da interligação com o Sistema Paraíba do Sul, conforme as diretrizes regulatórias da ANA e do DAEE. As previsões podem mudar caso haja alterações no volume transferido do Rio Paraíba do Sul ou nas taxas de captação operadas nos próximos meses. Fonte: Cemaden 06/07/2026

O que é a Gestão de Demanda Noturna (GDN)? 

A Gestão de Demanda Noturna (GDN) é a redução da pressão na distribuição de água durante a noite, implementada diariamente pela Sabesp como mecanismo de controle de consumo. Na prática, funciona como um racionamento seletivo, dificultando o abastecimento em bairros altos, periferias e residências sem caixa d’água, onde muitas famílias ficam horas sem acesso à água. A situação fica ainda mais grave no verão, quando relatos e queixas aumentam.

  • Agosto/2025: redução da pressão já existia, mas foi implementada diariamente por 8 horas (21h às 5h)
  • Outubro/2025 a Junho/2026: redução da pressão ampliada para 10 horas diárias (19h às 5h)
  • Julho/2026: redução da pressão retornou para 8 horas diárias, mas pode voltar a ser amplia conforme o nível dos reservatórios

Recorde de Retirada de Água pela Sabesp

Apesar da queda dos reservatórios, a Sabesp bateu recorde de retirada de água dos mananciais da Grande São Paulo em 2025, captando uma média de 72 mil litros por segundo. Até o momento, não foram divulgados dados públicos que justifiquem essa demanda sem precedente. Essa falta de transparência dificulta o acesso a dados cruciais, como quem são os maiores consumidores industriais e comerciais.  

“O aumento de retirada de água das represas registrado em 2025 é preocupante. É uma taxa maior que o crescimento vegetativo da população. Levantamentos de 2024 apontam também que os usos industriais e comerciais cresceram em taxas maiores que o consumo residencial. Ou seja, a maior retirada pode estar relacionada a usos não residenciais e, em tempos de represas em estado de alerta, é preciso priorizar o abastecimento humano acima de qualquer uso”, destaca Eduardo Caetano, coordenador de difusão e conhecimento do Instituto Água e Saneamento (IAS)

O que a Sabesp precisa fazer a longo prazo para evitar a falta de água?

Além de retomar o bônus na conta de quem economiza água em situações de crise hídrica, a Sabesp também deve fortalecer soluções estruturais. A sustentabilidade do abastecimento de água depende de gestão eficiente, justiça social e restauração ecológica, o que exige:

  • Ampliação do Programa Reserva Certa: Aumentar a instalação gratuita de caixas d’água para famílias vulnerabilizadas, o que minimiza o impacto de reduzir a pressão; atualmente, o programa só atende 2.500 imóveis. 
  • Investimento em Infraestrutura Azul e Verde: Incluir medidas de reflorestamento, recuperação e proteção dos mananciais nos Planos de Contingência. São compromissos de longo prazo baratos e eficazes para assegurar água limpa em abundância e evitar transposição entre rios.

“Restaurar florestas degradadas em nascentes, margens de rios e reservatórios é um investimento direto na segurança hídrica. Afinal: sem floresta, não há água”, conta  Gustavo Veronesi, Coordenador Causa Água Limpa da SOS Mata Atlântica. “Garantir água para as pessoas começa pela proteção das florestas. É nas bacias hidrográficas, especialmente nas áreas de mananciais, que a vegetação nativa mantém o ciclo da água em funcionamento, promovendo a infiltração no solo, a recarga dos aquíferos e a evapotranspiração, que influencia a formação das chuvas.”

The Brazilian population feels the impacts of the global climate imbalance unevenly: intense floods, extreme cold and historic droughts that impact the hydroelectric reservoirs that supply much of the country – causing an increase in the electricity and food bills. And it is in the lives of the most socially and economically vulnerable populations that the bill for all crises falls first, and much more expensively. The consequences of an unequal society force people to choose between buying food or paying the electricity bill and many other debts; and the lack of water, which is already a daily reality in some communities, makes resilience conditions even more compromised in adversity scenarios.
© Teia Documenta / Greenpeace

Conta de água da Sabesp aumentou em 2026? 

Sim, a conta de água e esgoto aumentou em São Paulo. O reajuste nas tarifas da Sabesp foi de 6,11%, entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026 e foi determinado pela Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo). 

Também há relatos de aumento da fatura em mais de 100% após troca de hidrômetros, o que disparou reclamações contra Sabesp e virou tema da Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados de São Paulo. Sabesp lidera o ranking de reclamações no estado paulista, com queixas sobre falta de água e cobranças indevidas quadruplicando em dois anos (média de 19 reclamações diárias no Procon-SP em 2025). 

Faltou água ou a pressão está fraca: o que fazer?

Se você mora em uma região atendida pela Sabesp e enfrenta falta de água ou pouca pressão:

  1. Registre na Sabesp – Guarde o número do protocolo de atendimento.
  2. Relate para o Governo – Se o problema não for resolvido, abra uma chamada no canal da agência reguladora estadual.
  3. Formalize reclamação no Procon-SP – Preste queixa por prestação inadequada de serviço essencial.

Por que a falta de água em São Paulo importa para todo o Brasil? 

Porque a perspectiva de uma crise hídrica não é um problema exclusivo dos paulistas. Com a emergência climática, secas e ondas de calor estão cada vez mais frequentes e intensas. O Brasil é o país com a maior reserva de água doce do mundo, mas a gestão hídrica é essencial para garantir acesso à água potável e proteger dos mananciais contra desperdício, poluição e escassez. 

O desconto para quem economiza água já provou que é uma medida emergencial eficaz: estimula o consumo consciente e reduz a demanda sobre os reservatórios. Solução que pode ser adotada em outras cidades e garantir segurança hídrica para mais gente. 

  • Organizações da sociedade civil defendem que a Sabesp retome o bônus tarifário para quem economiza água durante crises hídricas.
  • Em 2014–2015, consumidores receberam descontos de 10%, 20% e 30%.
  • 82% dos clientes reduziram o consumo e a média por pessoa caiu de 155 para 118 litros.
  • Desde agosto de 2025, a Sabesp reduz a pressão da água todas as noites para 22 milhões de consumidores.
  • Além do bônus tarifário, a segurança hídrica exige taxar maiores consumidores (grandes empresas e indústrias), ampliar a distribuição de caixas d’água e investir na recuperação dos mananciais.

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