Número de alertas foi  11% maior que o registrado no mesmo mês de 2019, confirmando a tendência de aumento do desmatamento na Amazônia

Área desmatada com cerca de 1000 ha na região da rodovia BR 163, próximo a Castelo dos Sonhos, Altamira (PA), com alerta de desmatamento do Deter detectado entre Janeiro e Junho de 2020 (© Marcos Amend / Greenpeace)

De acordo com dados divulgados hoje (10) pelo sistema DETER, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), a destruição segue avançando em ritmo acelerado na Amazônia. Em junho, a área com alertas de desmatamento foi 11% maior que o registrado no mesmo mês do ano passado. Com 1034 km², junho foi o mês com a maior área de alertas de desmatamento do ano até o momento, o maior da série Deter-B (nova metodologia adotada em Agosto de 2015) e o pior junho desde 2007, se observarmos o histórico para o mês.

O Deter foi criado em 2004, com o objetivo de gerar informações em tempo real para subsidiar o trabalho de fiscalização e operações de combate ao desmatamento da Amazônia, permitindo que os órgãos de fiscalização e controle planejem com mais precisão suas atividades para coibir o desmatamento e as queimadas. 

O sistema aponta, ainda, a tendência da taxa oficial de desmatamento (Prodes), divulgada anualmente, considerando sempre o período de agosto de um ano a julho do ano seguinte. Mesmo sem o último mês do chamado “período Prodes”, a área com alertas já soma 7.540 km² (agosto de 2019-junho de 2020), 64% de aumento em relação ao período anterior e 10% de crescimento em comparação com o ano anterior fechado (6.844km² entre agosto de 2018 e julho 2019). 

É o maior acumulado para o período Prodes da série Deter-B e historicamente desde 2008. Como resultado já esperado deste cenário, a taxa oficial do desmatamento, que ultrapassou os 10.000 km² em 2019, tende a ser ainda maior em 2020. “Estamos seguimos na direção contrária dos compromissos assumidos na Política Nacional de Mudança do Clima, onde deveríamos reduzir à taxa de desmatamento na Amazônia para 3.900 km² em 2020, os alertas divulgados hoje apontam para a possibilidade de ter uma taxa cerca de três ou quatro vezes maior que a meta estabelecida para 2020, contribuindo negativamente para as mudanças climáticas e com a alarmante perda de biodiversidade”, avalia Cristiane Mazzetti, da campanha de Amazônia do Greenpeace. 


Apuí (AM), próxima a rodovia Transamazônica. À esquerda área em 28/03/2020 e à direita estado da área em 16/06/2020. 

Desmatamento e fogo

O fogo é utilizado frequentemente no processo do desmatamento e os focos de calor também têm aumentado significativamente na Amazônia. Segundo o INPE, junho registrou o maior número de focos desde 2007 e, apenas na primeira semana de julho foram registrados 556 focos, 36% de crescimento em relação ao mesmo período em 2019. 

“Não podemos mais perder tempo, é preciso agir de maneira rápida e efetiva para punir e coibir o crime na floresta, pois se nada for feito, em poucas semanas veremos essas mesmas áreas em chamas”, afirma Cristiane Mazzetti.

Governo têm se mostrado ineficaz

Apesar dos números crescentes, o governo federal segue incapaz de lidar com o problema, sem apresentar um plano efetivo de combate ao desmatamento e dando prosseguimento à sua política antiambiental, que fragilizou órgãos de fiscalização, como Ibama e ICMBio, enquanto prevê um gasto 10 vezes maior que aquele utilizado pelo Ibama para operações militares ineficazes comandadas pelo vice-presidente Mourão.

“Ao optar por não adotar medidas concretas para impedir o desmatamento e as queimadas na Amazônia, além de colocar vidas em risco, o governo brasileiro também aumenta dramaticamente a vulnerabilidade econômica do Brasil”, observa Cristiane Mazzetti. Esta insegurança já se reflete na relutância cada vez maior de alguns países europeus à acordos comerciais com o Brasil, e nas cartas enviadas ao governo brasileiro por representantes de países, investidores e empresas internacionais pedindo ações efetivas para a  defesa da maior floresta tropical do planeta. 

A reação do governo às pressões, entretanto, é esconder o problema atrás de uma cortina feita de campanha publicitária, viagens e ações de fachada. “Mitigar e reverter os danos causados à  floresta e à imagem do país exigirá muito mais. Precisamos de resultados concretos e para isso será necessário um plano robusto para conter tamanha destruição, na linha do que foi o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDam), começando por ações de comando e controle permanentes e executadas por órgãos competentes e bem aparelhados. Este é um caminho já conhecido, mas que este governo infelizmente insiste em ignorar”, afirma Mazzetti. “Os números crescentes estampam a verdade, se enganam aqueles que aceitarem o que foi apresentado pelo governo até então como uma garantia de mudança de cenário”, completa.