
Berçário, corredor ecológico e refúgio para gigantes do mar, nosso litoral recebe todos os anos espécies que percorrem milhares de quilômetros e dependem de proteção para continuar sua jornada.
Ao longo de milhares de quilômetros, a costa brasileira abriga uma impressionante diversidade de vida marinha, riqueza de nutrientes e habitats variados. Neste dia 19 de fevereiro, Dia Internacional das Baleias, vamos relembrar como nosso mar é rota de passagem e refúgio para diversas espécies de baleias, como a baleia-jubarte, a baleia-franca-austral, a baleia-minke-antártica, a baleia-sei e até, ocasionalmente, a imponentebaleia-azul.
Algumas cruzam o litoral em longas migrações rumo ao sul, enquanto outras permanecem por meses em nossas águas, aproveitando o clima ameno e a abundância de vida que caracteriza o Atlântico Sul.
Entre as espécies que cruzam o litoral brasileiro, destacam-se:
- Baleia-azul (Balaenoptera musculus) — pode ultrapassar 30 metros e pesar até 180 toneladas. Embora de aparição rara, temos evidências científicas de sua existência nas regiões Sudeste e Sul, em busca de correntes ricas em krill.
- Baleia-sei (Balaenoptera borealis) — utiliza o Atlântico Sul como corredor migratório sazonal onde passeia em busca de alimento, descanso e temperaturas mais amenas antes de retomar a viagem rumo à Antártica.
- Baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) — viaja cerca de 5.000 a 8.000 km da Antártica ao Brasil para se reproduzir e ter seus filhotes, especialmente no Banco dos Abrolhos, na Bahia.
- Baleia-franca-austral (Eubalaena australis) — Prefere o litoral sul do Brasil (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) para sua reprodução e amamentação. Lá, elas tem uma Área de Proteção Ambiental (APA da Baleia Franca) todinha para chamar de sua. Infelizmente, essa APA vem sendo ameaçada devido a especulação imobiliária, o que limitaria a eficácia de proteção da espécie.
- Cachalote (Physeter macrocephalus) – As cachalotes vivem em grupos sociais estáveis e se comunicam por meio de estalos rápidos chamados “cliques”. No Atlântico Sul, pesquisadores descobriram, ao estudar essas vocalizações, que existem pelo menos dois grupos distintos na região, cada um usando sequências próprias desses sons — como se cada grupo tivesse seu próprio sotaque.
Entre essas gigantes que visitam o Brasil, duas espécies se destacam por sua relação especial com o nosso litoral: as baleias-jubarte e as baleias-francas-austrais.
São elas que mais se aproximam da costa e protagonizam, todos os anos, um dos espetáculos mais emocionantes da natureza.
Amor com sotaque do Atlântico Sul

Entre julho e outubro é a temporada do amor nos mares brasileiros! É aqui que muitas jubartes e francas engravidam, dão à luz e amamentam seus filhotes. As águas mornas protegem as crias recém-nascidas até que estejam fortes o bastante para enfrentar a longa viagem de volta à Antártica, levando consigo o canto com sotaque brasileiro e o aconchego de nossas águas tropicais.
Essas rotas migratórias são vitais, não só para as baleias, mas para os serviços ecossistêmicos que elas oferecem.
Elas são importantes porque:
- Ajudam a capturar e estocar carbono, contribuindo para a regulação do clima global
- Fertilizam o oceano com nutrientes que fortalecem a cadeia alimentar marinha
- Sustentam o turismo de observação, movimentando economias locais
- Conectam ecossistemas ao longo de milhares de quilômetros
Essa migração entre ecossistemas mostra como o oceano é um só e como o que acontece em um ponto do planeta pode impactar o restante.
Um oceano sob pressão
Apesar do aumento populacional das baleias em nossa costa após décadas de caça comercial, as ameaças continuam. A exploração de petróleo e gás ameaça rotas migratórias com ruídos, poluição e risco de vazamentos. E, mais recentemente, a possibilidade de mineração em águas profundas surge como um novo perigo, capaz de alterar ecossistemas pouco conhecidos e impactar cadeias alimentares inteiras.
Essas atividades se expandem justamente nas águas internacionais, que cobrem quase metade do planeta e não pertencem a nenhum país, mas é de toda a humanidade. Por muito tempo, essas áreas ficaram sem regras claras de conservação, até agora.
Em janeiro de 2026, o Tratado Global dos Oceanos, um acordo histórico para proteger a biodiversidade além das jurisdições nacionais, foi ratificado por mais de 60 países, inclusive pelo Brasil, e entrou em vigor. Ele cria mecanismos para estabelecer áreas marinhas protegidas em águas internacionais, promover o uso sustentável dos recursos oceânicos e garantir que a ciência e os benefícios sejam compartilhados de forma justa entre as nações.
O tratado é uma ferramenta essencial para atingir a meta global 30×30, que busca proteger 30% dos oceanos até 2030. Se implementado de forma corajosa, ele pode garantir um futuro mais seguro para as baleias, para os ecossistemas marinhos e para nós, humanos, que dependemos do oceano para respirar, comer e viver.
E se o Atlântico Sul fosse um santuário de baleias?
Há alguns anos, o Brasil, junto a países parceiros do Atlântico Sul, propôs à Comissão Internacional Baleeira a criação do Santuário das Baleias do Atlântico Sul, uma zona livre de caça e dedicada à pesquisa e à conservação. A proposta, infelizmente, ainda não foi aprovada.
Mas a ideia segue viva. O avanço do Tratado Global dos Oceanos reacende essa esperança: a de transformar o Atlântico Sul num santuário global para as baleias, onde elas possam continuar migrando, namorando e inspirando gerações.
Proteger as baleias é proteger um futuro saudável para o oceano, para as baleias e para toda a humanidade.
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