Este 28 de janeiro é celebrado como o Dia Mundial dos Corais da Amazônia, data em que o mundo conheceu as primeiras imagens deste ecossistema recifal único

Há dois anos, usamos um mini submarino em nossa primeira expedição à bacia da foz do Rio Amazonas, a mais de 100 km da costa do Amapá e mais de 100 metros de profundidade, para registrar uma grande diversidade de vidas, cores e texturas que encantou os cientistas e o mundo. A humanidade se deparava com um novo cantinho do planeta até então desconhecido.

Por dois anos, promovemos uma intensa mobilização em defesa do recife dos Corais da Amazônia, no qual mais de 2 milhões de pessoas ao redor do mundo assinaram uma petição se declarando contra a exploração de petróleo na região, que ameaçava esse tesouro natural que só existe ali. A vitória veio no final do ano passado, com a rejeição definitiva pelo Ibama da licença ambiental que autorizaria a exploração para a petrolífera Total.

Exemplo para o país

Este é um importante alerta e exemplo sobre a importância de se respeitar o processo de licenciamento ambiental. Os técnicos do Ibama avaliaram o Estudo de Impacto Ambiental da empresa por cinco vezes e constataram que ela não tinha um plano de emergência adequado para lidar com um derramamento de petróleo. Se isso acontecesse, poderíamos ter outro grande impacto ambiental como vimos agora com o rompimento da barragem em Brumadinho (MG).

É bom lembrar, além da riqueza dos próprios Corais da Amazônia, na costa do Amapá  está uma das maiores faixas de manguezais do mundo, sendo um berçário e área de alimentação sensível para diversas espécies de peixes, crustáceos, aves e mamíferos. Além disso, diversas comunidades de pescadores dependem dos mares limpos e saudáveis para se manter. Uma operação petrolífera teria fortes perturbações aos animais e, com as fortes correntezas que são comuns nestas águas, um vazamento de óleo causado por qualquer motivo poderia se espalhar rapidamente, chegando mesmo até o Caribe. Levaria anos para que tudo fosse limpo.

Graças à avaliação exigida pelo licenciamento ambiental, um crime ambiental que poderia destruir esse ecossistema pode ter sido evitado; agora é preciso exigir “blindagem política” dos órgãos técnicos © Greenpeace

Por isso, é importante que a mesma seriedade concedida para a petrolífera Total em relação aos Corais da Amazônia seja aplicada na avaliação de todos os empreendimentos no Brasil para evitar que novas tragédias como Mariana e Brumadinho continuem acontecendo. Não podemos continuar permitindo interferências políticas e afrouxamentos das regras, como foi o caso da barragem em Minas Gerais, no qual a licença ambiental foi concedida de forma expressa, apesar dos riscos e avaliações técnicas apontados pela comunidade local, os ambientalistas e técnicos do Ibama.

Mariana Disaster: One Year after the Collapse of the Dam. © Yuri Barichivich

Manifestação por justiça nas ruínas da escola de Bento Rodrigues um ano após o rompimento da barragem de Mariana: falha no rigor do licenciamento ambiental e da fiscalização © Yuri Barichivich

Grupos com forte lobby no Congresso, grupos ligados ao agronegócio, da indústria e da mineração continuam pressionando para mudar a lei. Sob o argumento de que há muita burocracia, querem flexibilizar o licenciamento ambiental, sem considerar que ele é um importante mecanismo de prevenção. Em caso de desastres, os mais atingidos são as pessoas mais vulneráveis e o meio ambiente, e não as empresas. O novo desastre em Brumadinho, três anos após Mariana, mostra que os ambientalistas estão certos em criticar esse “jeitinho”.

Uma tragédia evitada!

Neste 28 de janeiro, vamos celebrar os Corais da Amazônia com o sentimento de dever cumprido. Todos nós que fomos às ruas, que assinamos as petições, que fizemos doações para viabilizar essas importantes expedições, ajudamos a proteger um ecossistema único, e podemos ter evitado também uma tragédia imensurável em uma das regiões mais belas e exuberantes do planeta. Mas precisamos continuar vigilantes. Afinal, aqueles que defendem o desenvolvimento a qualquer custo, em busca do lucro rápido e fácil, não perdem uma oportunidade. Outras empresas estão de olho no petróleo da bacia da foz do Rio Amazonas e podem querer explorar a região.

Assine agora o abaixo-assinado: #ParemAVale