Levantamento inédito mostra que as máquinas da marca sul-coreana Hyundai estão presentes de maneira ostensiva nas Terras Indígenas

Ação realizada por ativistas do Greenpeace em frente à fabrica da Hyundai em Itatiaia (RJ), para alertar que as escavadeiras ameaçam a Amazônia e seus povos. Foto: Tuane Fernandes/ Greenpeace

O Greenpeace Brasil, em parceria com o Greenpeace do leste asiático, lança hoje (12/04) o relatório “Parem As Máquinas! Por uma Amazônia Livre de Garimpo”, que demonstra de forma clara o papel que as escavadeiras hidráulicas têm atualmente no ritmo de destruição da Amazônia — e a ameaça que elas representam para a sobrevivência dos povos indígenas de nosso país. 

O lançamento do relatório foi marcado pela realização de uma ação pacífica próximo à entrada da fábrica da Hyundai, em Itatiaia (RJ), na manhã de hoje.

Ativistas do Greenpeace Brasil e lideranças indígenas se posicionaram junto a um balão inflável simulando uma máquina escavadeira e seguraram faixas com as mensagens: “Amazônia Livre de Garimpo”, “Parem as Máquinas” e “Fora Garimpo”. Elementos cenográficos como lama, sangue e barras de ouro também foram utilizados para lembrar os danos e prejuízos causados pelas máquinas escavadeiras nas Terras Indígenas. 

As lideranças indígenas participantes da ação pacífica são dos povos Munduruku, Kayapó e Yanomami, que vêm sofrendo há anos com os efeitos do garimpo ilegal. Elas seguraram quadros com imagens da atividade criminosa em seus territórios, junto à mensagem “Fora Garimpo”. 

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No relatório, são identificadas 176 escavadeiras sendo utilizadas de maneira ilegal dentro de três Terras Indígenas, de 2021 até agora, sendo que 75 delas (cerca de 42%) são da marca sul-coreana Hyundai. As Terras Indígenas são a Kayapó (PA), Munduruku (PA) e Yanomami (RR/AM). 

Esses três territórios respondem sozinhos por mais de 90% da área garimpada que existe hoje em Terras Indígenas na Amazônia; e são um retrato dramático do que o garimpo ilegal causa nesses locais: os Yanomami sofrem com malária e desnutrição; e os Kayapó e os Munduruku são vítimas da contaminação por mercúrio, que tem afetado principalmente mulheres e crianças.

Todos esses povos sofrem ainda com o assoreamento e morte dos rios, trabalhos forçados, violências (física, psicológica, sexual) e a desestruturação social que o garimpo provoca nas aldeias e comunidades.

Não à toa, lideranças desses três povos se uniram e criaram a Aliança em Defesa dos Territórios, uma coalizão destinada à luta contra o garimpo ilegal e que hoje conta com o apoio de instituições como Instituto Socioambiental (ISA) e o Greenpeace Brasil. 

Detalhes

Ainda que as máquinas da marca Hyundai tenham aparecido em maior quantidade no monitoramento, outras fabricantes também possuem equipamentos sendo usados em garimpos ilegais. Além da Hyundai, encontramos escavadeiras das marcas: Liugong (China); Caterpillar (EUA); Volvo (Suécia); Sany (China); John Deere (EUA); Komatsu (Japão); Link-Belt (EUA); XCMG (China); Case (EUA); e New Holland (EUA).

As escavadeiras têm exercido um papel importante na destruição da Amazônia: segundo este estudo, uma máquina dessas realiza em um dia o trabalho que cerca de três homens levariam quarenta dias para fazer. 

As notícias de “invasões” dessas máquinas ficaram mais fortes a partir de 2010 — lideranças Munduruku relatam ter visto as primeiras escavadeiras dentro do território em 2014. No ano passado, denunciamos a presença desses equipamentos pela primeira vez no alto rio Catrimani, na Terra Yanomami. O projeto Mapbiomas já divulgou que, em 2021, a área garimpada dentro das Terras Indígenas brasileiras havia aumentado 625% em relação a 2010 – mostrando o tamanho do retrocesso experimentado pela sociedade brasileira.

Registros de escavadeiras encontradas pelo Greenpeace em monitoramento realizado nas Terras Indígenas Kayapó, Munduruku e Yanomami entre 2021 e 2023

Soluções

O relatório “Parem As Máquinas: Por uma Amazônia Livre de Garimpo” mostra ainda como as fabricantes contam com rede de distribuidoras e revendedoras na Região Norte localizadas nas proximidades das Terras Indígenas monitoradas. Ele cita alguns recursos que a empresa pode usar para reduzir essa situação — como o sistema Hi Mate, que permite o controle e sensoriamento remoto das escavadeiras; e o chamado Código da Consciência, que em teoria impediria esses equipamentos de operar em áreas proibidas, como Terras Indígenas e Unidades de Conservação.

O documento aponta também algumas ações que os governos podem tomar para diminuir esse problema e as medidas que as próprias empresas podem pôr em prática para ajudar neste processo — como retirar seus negócios de áreas de alto risco até que possam garantir que as máquinas não sejam usadas para atividades destrutivas; e restaurar ecossistemas e pagar indenizações aos povos indígenas que sofreram devido a suas práticas comerciais.

O levantamento foi feito com base em sete sobrevoos de monitoramento que realizamos nas Terras Indígenas analisadas. Em cada sobrevoo, que pode durar até duas horas, tiramos fotos e vídeos em alta resolução, que foram analisados para dar origem aos dados apresentados. Cada sobrevoo pode render até três mil fotos. 

Chamado às fabricantes

Segundo o porta-voz da Campanha Amazônia do Greenpeace Brasil, Danicley de Aguiar, a ação realizada no Rio de Janeiro e a publicação do relatório são “um chamado às fabricantes de escavadeiras”. 

“Queremos que essas empresas sejam parte da solução, não do problema. Queremos que elas tomem medidas que impeçam ou minimizem os riscos de seus equipamentos serem utilizados em atividades ilegais. A sociedade brasileira exige que lidemos com os garimpos ilegais de outra maneira e todos devemos responder a esse chamado”, disse o porta-voz.

Liderança do povo Kayapó, Bepdjo Mekragnotire afirma que o garimpo ilegal trouxe diversos malefícios para seu povo ao longo dos anos. 

“Eu luto pelo nosso povo, pelo nosso território, pelas nossas florestas. Não posso aceitar a destruição que o garimpo e as máquinas causam na nossa terra”, disse a liderança. Bepdjo é cacique da aldeia Baú, no território indígena de mesmo nome, situado no sul do Pará.

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