Em janeiro de 2024 o número de focos de calor no bioma já é quase o dobro do registrado em 2023. Ainda sob forte influência do El Niño, desmatadores ganharam tempo para destruir

Área recém desmatada e queimada em Porto Velho, Rondônia, em 2023. (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)

De acordo com dados do Banco de Dados de Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de 1 a 29 de janeiro de 2024, a Amazônia teve 45,9% de todos os focos de calor registrados no Brasil. Na comparação com o mesmo período do ano passado, isso significa um aumento de 85,70%, passando de 1.056 em janeiro de 2023, para 1.961 este ano. 

A expressiva alta pode ter sido influenciada, sobretudo, pela ampliação do período seco na região, que viabiliza a queima de pastagens e o processo de desmatamento, em razão dos efeitos do El Niño, que foi intensificado pelas Mudanças Climáticas e deve perdurar por mais alguns meses em 2024.

“Estamos enfrentando uma anomalia em 2024 devido ao El Niño. Esse padrão climático mais seco e quente, além de propiciar o aumento dos focos de calor e o alastramento das chamas,  favorece as condições para que os desmatadores e proprietários de gado e soja queimem. É preciso atenção, pois essa situação deve perdurar até pelo menos março”, avalia Ana Clis Ferreira, do Greenpeace Brasil.

Em 2023, houve um aumento significativo nos focos de calor, principalmente nos meses de outubro, novembro e dezembro, indicando uma intensificação nas práticas de queima. As queimadas, que historicamente são provocadas com mais intensidade em meados de julho e atinge o pico em setembro, foram favorecidas pela extrema seca, resultando em um ambiente mais suscetível ao espalhamento do fogo quando comparado ao mesmo período no ano anterior.

O El Niño atual (2023/2024) é classificado como “Forte”, comparável ao registrado em 2015/2016, o ano com o maior número de focos de calor em janeiro da série histórica. Mas este ano o fenômeno ainda teve uma grande colaboração das mudanças climáticas. Recentemente, uma análise do World Weather Attribution (WWA), que contou com participação de pequisadores do Brasil, Reino unido, Holanda e Estados Unidos, apontou que a mudança climática está reduzindo a precipitação e aumentando o calor na Amazônia, o que foi responsável por tornar a estiagem sem precedentes de 2023 cerca de 30 vezes mais provável do que ocorreria apenas pela ação do El Niño. 

“À medida que o clima se aquece, uma potente combinação de diminuição da precipitação e aumento do calor está impulsionando a seca na Amazônia”, explica a pesquisadora Regina Rodrigues, professora de Oceanografia Física e Clima da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que contribuiu com o estudo. 

O prolongamento do período quente e seco também afetou a agricultura, facilitando a queima de áreas de pastagem e soja para renovação das culturas. Essa prática, muitas vezes inserida no processo de semeadura, pode ter sido prolongada devido ao atraso no plantio causado pela intensa seca no ano anterior.

Mas o fogo também é usado no processo de desmatamento na Amazônia. Os dados revelam que os focos de calor na Amazônia estão predominantemente sobre Pastagem (33,8%) e Formação Florestal (33,5%). Isso significa que cerca de um terço das queimadas no bioma aconteceram em áreas consideradas florestais, indicando possível queima intencional para degradação.

“Já sabemos que o clima ainda permanecerá seco por alguns meses, e que isso facilita o processo de destruição da floresta, portanto não há desculpa para que o poder público, tanto federal como estadual, não se prepare adequadamente para mitigar o problema, intensificando as ações de combate e fiscalização. A crise do fogo e da fumaça ainda não acabou”, alerta Ana Clis. 

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