“As políticas públicas para as comunidades falham quando não partem da visão de quem vive as favelas”, apontam pesquisadores

Vista de Heliópolis, na zona zul de São Paulo (SP). Foto cedida pelo Observatório Heliópolis – De Olho na Quebrada.

O Observatório Heliópolis – De Olho na Quebrada, projeto da UNAS (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região), produz dados e informações a partir do próprio território. A iniciativa é um enfrentamento direto às narrativas que, historicamente, lançaram sobre a quebrada um olhar marcado por estigmas e preconceitos.

Quando os moradores ocupam o centro da produção de conhecimento, o bairro passa a ser reconhecido como espaço de saber, organização e construção de soluções, inclusive diante dos impactos da crise climática.

Criado em 2018, o Observatório é formado principalmente por jovens pesquisadores da zona sul de São Paulo, onde está Heliópolis, a maior favela da cidade. É desse acúmulo de experiências em geração cidadã de dados e resgate das histórias locais que nasce a pesquisa “O clima está mudando e Heliópolis está sentindo”. O relatório traz a perspectiva dos moradores sobre as mudanças climáticas.

Pesquisadores integrantes do Observatório. Foto cedida pelo Observatório Heliópolis – De Olho na Quebrada.

Entender a crise climática para enfrentá-la

Para o De Olho na Quebrada, o desafio de enfrentar a crise climática e suas consequências em uma região marcada pela ausência de direitos e políticas públicas começa pelo próprio entendimento do tema.

“Dentro do nosso território, observamos que muitas pessoas não sabem o que são as mudanças climáticas. Apesar de os impactos já atingirem Heliópolis,  muitas pessoas vêem como algo distante da nossa realidade, ou mesmo nunca ouviram falar desse termo”, explicam os jovens pesquisadores.

O clima já mudou, mas nem sempre é reconhecido

Entre os principais achados da pesquisa está a dificuldade de associar as mudanças climáticas aos impactos vividos no cotidiano, como o calor extremo e as enchentes. Esse distanciamento ficou especialmente evidente durante as atividades realizadas em escolas do território.

“Com as visitas que fizemos nas escolas, tivemos uma certa quebra de expectativa, porque apesar das crianças conhecerem sobre as mudanças climáticas, elas achavam que era algo muito distante da nossa realidade, como as geleiras e queimadas, mas não ligavam ao calor extremo e enchentes na região de Heliópolis.”

Atividade realizada durante a aplicação da pesquisa. Foto cedida pelo Observatório Heliópolis – De Olho na Quebrada.

Dados do território para políticas públicas eficazes

Ao longo dos últimos anos, o De Olho na Quebrada realizou uma série de estudos que ajudam a revelar o que moradores sentem, pensam e vivenciam em seu cotidiano, garantindo a produção e a divulgação de dados confiáveis sobre o bairro. Esses levantamentos abrem caminho para a construção de políticas públicas mais eficazes, baseadas na participação de quem conhece a comunidade por dentro. Como reforça o próprio projeto, não existe política pública que funcione sem a escuta ativa de quem vivencia o território todos os dias.

Racismo ambiental escancarado nas enchentes

A pesquisa também evidencia como a crise climática aprofunda desigualdades históricas e se manifesta por meio do racismo ambiental. Em Heliópolis, esse processo aparece de forma mais explícita nos períodos de chuva, afirmam os pesquisadores:

“O racismo ambiental se mostra de forma escancarada quando diversos pontos da favela são atingidos pelas enchentes

Para o grupo, não se trata de um impacto isolado, mas de uma desigualdade estrutural. “A gente sabe que em Heliópolis e nas favelas do Fundão do Ipiranga as pessoas sofrem muito mais com as consequências da crise climática do que em bairros como São Caetano do Sul ou Alto do Ipiranga – regiões vizinhas onde vivem pessoas de maior renda e com mais acesso a políticas públicas, como obras de contenção de enchentes.”

Em um acervo público, o Observatório reúne uma série de pesquisas realizadas nos últimos anos abordando diversos temas como acesso à internet em Heliópolis; os impactos da pandemia na arte e na cultura local; racismo ambiental – incluindo um mapeamento de pontos de alagamento que não constavam nos mapas oficiais da cidade – , além do livro Renda Digna em Heliópolis, que trata a garantia de condições dignas de vida como um direito, entre outros.

Vista de Heliópolis, na zona zul de São Paulo (SP). Foto cedida pelo Observatório Heliópolis – De Olho na Quebrada.

Periferias como protagonistas da adaptação climática

A pesquisa sobre a percepção dos impactos da crise climática se soma a esse histórico ao demonstrar que a adaptação nas cidades só será possível se as periferias forem reconhecidas como protagonistas, e não apenas como áreas de risco. Os dados produzidos pelo próprio território mostram que enfrentar a crise climática passa, necessariamente, por valorizar e investir no conhecimento de quem já constrói soluções no dia a dia.

“Nós temos, por exemplo, soluções que ajudam a reduzir os impactos das mudanças climáticas no dia a dia, como as hortas comunitárias e também ações do poder público para tirar pontos viciosos de lixo. No entanto, muitas dessas ações enfrentam dificuldades de implementação e não chegam para todo mundo, principalmente pela dificuldade do poder público em reconhecer e atuar a partir das particularidades locais. Ruas e vielas estreitas são um exemplo concreto dos obstáculos que tornam essas políticas mais difíceis de aplicar.”

Geração cidadã de dados como estratégia de transformação

Para o De Olho na Quebrada, enfrentar a crise climática passa necessariamente pela participação de quem vive o território nas decisões públicas.

As políticas públicas para as comunidades nem sempre são eficazes porque não têm a visão correta sobre as favelas”, explicam. “Por isso é fundamental que  as pessoas que moram nesses locais estejam presentes nos espaços de tomada de decisão e que suas ideias e questionamentos sejam escutados.”

A geração cidadã de dados é parte central dessa estratégia. “Para nós, é muito importante nos apropriar da narrativa sobre nosso própria realidade, já que dificilmente o poder público dá ouvidos ao que a população diz, mesmo que ela seja a principal impactada pelas desigualdades sociais. Nós, como moradores de Heliópolis e pesquisadores que realizam a geração cidadã de dados, queremos transformar os desafios que os moradores relatam em dados, para conquistar políticas públicas efetivas para o nosso território”, afirmam. 

Entre os próximos passos da iniciativa está a ampliação de uma parceria com o Insper para a instalação de termômetros em casas de moradores, com o objetivo de comparar temperatura e umidade em diferentes regiões da cidade.

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