Homem de boné e camisa azul caminha por uma passarela de madeira estreita, empurrando uma bicicleta, entre casas construídas sobre áreas alagadas. Ao redor, aparecem postes, fios, antenas parabólicas e estruturas simples de madeira, revelando o cotidiano de uma comunidade ribeirinha.

Um território que alimenta o oceano e resiste entre a promessa de progresso e a certeza de que o bem-viver não cabe em um poço de petróleo.

Em um lugar onde chega a Shein, mas não chega água potável, é de se duvidar que, caso haja um grande crime ambiental na região, a saúde e o bem-viver das comunidades locais serão priorizados. 

A contradição é gritante: enquanto multibilionárias estrangeiras acessam com facilidade a região, o Estado se mantém omisso diante das necessidades básicas da população. Isso aponta qual caminho está sendo pavimentado nesse território de mar e gente: uma lógica de escassez vendida como “desenvolvimento”, mas que nada tem a ver com prosperidade e vida. Esse lugar é a Foz do Amazonas nos dias de hoje, mas nem sempre foi assim. Nas últimas décadas, a pressão por novas fronteiras energéticas e o avanço das mudanças climáticas alteraram o equilíbrio entre o rio, o mar e seus povos.

Comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas, que têm no território a construção de sua identidade, se veem cada vez mais pressionadas a alterarem seus modos de vida mediante a degradação ambiental de seus quintais drasticamente atingidos pela especulação de grandes petroleiras. 

Pressões externas sobre um território já vulnerável

Esse cenário também tem provocado transformações demográficas perceptíveis em Oiapoque, cidade situada no epicentro da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, onde a promessa de riqueza convive com déficits socioeconômicos históricos e novos riscos sociais e ambientais. A expectativa de desenvolvimento não encontra correspondência nas condições básicas de vida oferecidas à população local.

O município não possui Política Municipal de Saneamento Básico e, segundo o IBGE, 39,02% das famílias vivem sem canalização de água no domicílio, na propriedade ou no terreno. A precariedade se estende a outros serviços essenciais, como pavimentação e iluminação pública, ausentes em diversos bairros.

Nesse contexto, atividades que sustentam historicamente a economia local passam a operar sob ameaça. A pesca artesanal e comercial, uma das principais bases econômicas da região, pode ser diretamente impactada por empreendimentos de alto risco ambiental. Oiapoque e Calçoene formam, atualmente, os dois maiores polos exportadores de pescado do Amapá, uma cadeia produtiva robusta, geradora de renda e trabalho, mas ainda marcada pela falta de infraestrutura mínima, como a inexistência de um terminal pesqueiro estruturado. Um eventual vazamento de petróleo colocaria essa atividade em risco imediato.

Barco branco de dois andares parado à margem de um rio largo e barrento, em frente a uma faixa densa de vegetação amazônica. O céu está tomado por nuvens cinzas e baixas, criando uma paisagem úmida e silenciosa.
Foto: Tais Terra — Greenpeace

Mesmo após três alertas do Ministério Público Federal e de fortes manifestações públicas da sociedade civil, o Ibama concedeu à Petrobras autorização para iniciar a exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, uma das regiões mais particulares em biodiversidade marinha do planeta. Menos de três meses após a liberação da licença, em janeiro de 2026, já houve vazamento de fluido de perfuração na região. Embora a Petrobras tenha alegado baixa toxicidade, o próprio incidente levou a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis a solicitar esclarecimentos, evidenciando os riscos inerentes à atividade. 

Entre o Amapá e a Baía do Marajó, a área abriga sistemas recifais, manguezais e espécies únicas, das quais dependem milhares de pessoas que vivem da pesca, da agricultura familiar e da relação direta com o mar. Diante desse cenário:

Permitir a perfuração significa expor ecossistemas frágeis a riscos reais de contaminação e vazamentos, comprometendo o equilíbrio ambiental, a saúde e o futuro da Amazônia costeira.

Em pesquisa divulgada pelo Datafolha revelou-se que a maioria dos brasileiros é contrária à exploração de petróleo na costa amazônica. O estudo aponta que 61% dos entrevistados se opõem à extração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, uma das áreas ambientalmente mais sensíveis do país e, ao mesmo tempo, uma das novas fronteiras exploratórias mais cobiçadas pela Petrobras.

Silenciados

Para entender como a costa amazônica começou a ser ameaçada por petroleiras que apostam em explorar regiões ainda sem estudos de impacto ambiental adequados, é preciso olhar para o funcionamento do processo que transforma áreas naturais em alvos da indústria fóssil. Da definição dos blocos aos leilões e às licenças, existe uma engrenagem que, movida por interesses políticos e econômicos, atropela a ciência, os direitos das comunidades e os limites de nossos ecossistemas. 

O silêncio que recai sobre a Foz é o da ausência de consulta ou de voz nos processos decisórios, pois a consulta livre, prévia e informada dos povos indígenas de Oiapoque-AP não foi realizada. Povos que veem suas comunidades, cidades, famílias sendo impactadas, enquanto discursos vazios prometem progresso. São vozes abafadas pelas marés salgadas, pelo barulho dos navios e pela distância de um Estado que pouco escuta quem vive do rio e do mar.

Em Bailique — AP, esse silenciamento ganha corpo e consequência. A comunidade ribeirinha enfrenta a salinização das águas, que avança sobre os quintais, destrói plantações e muda o sabor da vida cotidiana. O que antes era abundância de frutas, verduras e peixes se transforma em escassez. Nos últimos anos, cada família tem recebido apenas um galão de 20 litros de água potável por mês: uma medida emergencial que não dá conta da necessidade diária de quem vive cercado por água, mas sem poder bebê-la.

É nesse cenário que vive Rosilene Ferreira Lopes, agricultora e pescadora da comunidade de Arraiol. Ela conta que o modo de viver à beira do rio tem mudado rapidamente:

“ Com a água salgada, muda o peixe. O jeito de pescar tem que ser diferente, porque os peixes que a gente era acostumado a pegar já não aparecem mais. O peixe-do-mato — tamuatá, apaiari — não tem mais. Agora a gente pega pescada e dourada, mas cada ano muda. Eles trouxeram água potável só uma vez. Se a gente fosse depender disso, já teria morrido tudo de sede. A pesca é a nossa sobrevivência. Quando muda o peixe, muda tudo na nossa vida.

Rosilene explica que a água salgada não serve para o consumo e as famílias dependem da chuva para encher os reservatórios. Mesmo assim, as mulheres são as que mais sofrem com a falta d’água, especialmente nos períodos menstruais, quando precisam usar mais água para o cuidado com o corpo. Algumas delas relatam alergias e coceiras na pele devido ao sal.

O rio, antes sinônimo de fartura e mobilidade, hoje impõe novos limites. Quando o nível baixa, torna-se difícil chegar às roças ou transportar as frutas colhidas. Ainda assim, as comunidades seguem resistindo, sustentadas pela força de mulheres como Rosilene, que enfrentam a crise climática com esperança e trabalho diário.

Passarela de madeira estreita atravessa uma comunidade com casas simples, cercas e muitas palmeiras ao redor. Ao fundo, três pessoas conversam sobre a ponte, uma delas segurando um guarda-chuva rosa colorido.
Foto: Tais Terra — Greenpeace

Diante da decisão do Ibama de liberar a exploração de petróleo na região, organizações socioambientais e movimentos populares recorreram à Justiça para tentar barrar a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. As entidades argumentam que o licenciamento da Petrobras desconsidera lacunas técnicas e viola o direito das comunidades locais à consulta prévia. O movimento busca, agora, reverter a autorização por vias legais e políticas, denunciando a contradição entre a medida e os compromissos climáticos do Brasil. A ação conjunta reforça a responsabilidade do Estado diante da crise ambiental e dos riscos à vida costeira e marinha. O vazamento identificado em janeiro tem relação direta com os alertas apontados pela ação e reforça a urgência de uma decisão de suspensão das atividades na região.

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