O bombardeio de Hiroshima completa 74 anos, mas quer se trate de uma bomba atômica ou de eletricidade, devemos encarar a verdade que o uso pacífico da energia nuclear é mera fantasia

Pombas da paz - Hiroshima Atomic Bombing 60th Anniversary. Japan 2005. © Greenpeace / Jeremy Sutton-Hibbert

No aniversário de 60 anos da bomba de Hiroshima, voluntários do Greenpeace realizaram ato pela paz, no Japão. © Greenpeace / Jeremy Sutton-Hibbert

Em 6 de agosto de 1945, os militares dos Estados Unidos lançaram uma bomba atômica em Hiroshima, no Japão. Era 8h15 da manhã e a cidade estava prestes a começar o dia. Três dias depois, uma segunda bomba atômica foi lançada sobre Nagasaki.

Após a detonação, a bomba atômica incinerou ambas as cidades. Os efeitos devastadores da explosão – vento forte, raios de calor e radiação – se desenrolaram em torno das regiões e ainda hoje podem ser sentidos profundamente. Em dezembro de 1945, cerca de 140 mil residentes de Hiroshima e 74 mil residentes de Nagasaki morreram, enquanto outros incontáveis ​​continuaram a sofrer as consequências agonizantes da radiação.

Menos de uma década depois, em 1953, o presidente dos EUA, Dwight D. Eisenhower, proferiu seu discurso “Atoms for Peace” (Átomos para a Paz). Em uma tentativa de tornar a energia nuclear mais aceitável para o público, o discurso exigiu seu uso pacífico e controlado. Nessa época, muitos países industrializados, incluindo o Japão, começaram a desenvolver planos ​​para a construção de usinas nucleares.

Em abril do ano seguinte, o legislativo nacional aprovou seu primeiro orçamento de desenvolvimento nuclear para lançar seu império de usinas nucleares. Após a construção da primeira Usina Nuclear comercial do país, em 1966, a Tokai , outras usinas nucleares surgiram como cogumelos em todo o país ao longo dos anos 1960 e 1970.

Apesar do incidente de Three Mile Island em 1979 e do desastre de Chernobyl em 1986, o governo japonês persistiu em seus esforços para aumentar o número de usinas nucleares, enquanto suprimia os crescentes pedidos do público pela desnuclearização.

Em 11 de março de 2011, havia um total de 54 usinas nucleares no Japão, cobrindo 30% das necessidades de eletricidade do país. E neste mesmo dia, uma das catástrofes nucleares mais devastadoras do mundo ocorreu: o acidente da Fukushima Daiichi, da Tokyo Electric Power Company (TEPCO). O incidente forçou mais de 160 mil pessoas a evacuar a área e fugir de suas casas e, mais de oito anos depois, pelo menos 40 mil pessoas, mas provavelmente muitas mais, ainda estão deslocadas.

O nuclear pode ser pacífico? A energia nuclear foi realmente pacífica?

74 e 8: esse é o número de anos que se passaram desde o bombardeio atômico de Hiroshima e do acidente nuclear de Fukushima, respectivamente. Quer se trate de uma bomba atômica ou de uma usina nuclear para geração de energia, suas existências não equivalem a paz. Hoje, devemos encarar a verdade e declarar de uma vez por todas que o uso pacífico da energia nuclear nada mais é do que uma mera fantasia.

O Japão – o único país que sofreu um ataque nuclear durante a guerra e sofreu um dos piores acidentes nucleares da história – deveria abandonar a energia nuclear. O país deveria liderar com uma alternativa realmente pacífica: a energia renovável.

Impulsionar as fontes de energia natural já abundantemente disponíveis não é apenas pacífico e ambientalmente correto, mas também abrirá caminhos para o desenvolvimento econômico regional. Sem dúvida, uma sociedade com 100% de energia renovável já está ao nosso alcance.

*Kazue Suzuki é ativista de Energia no Greenpeace no Japão.