Em duas inéditas marchas, indígenas, camponesas, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras, sem-terra e mulheres de diversas outras comunidades tradicionais de todo o país pararam Brasília em defesa da VIDA!

Ao se reunirem, as mulheres se fortalecem espiritualmente e politicamente © Ísis Maria / Cobertura Colaborativa

O país nunca havia vivido um momento como este. Na manhã da última sexta-feira (9 de agosto), Dia Internacional dos Povos Indígenas, três mil mulheres deixaram suas casas e aldeias, despediram-se de seus filhos, netos, maridos e das – muitas vezes extensas – famílias e seguiram para um mesmo destino: Brasília, a capital do país. Com o propósito de realizarem a 1a Marcha das Mulheres Indígenas, elas compartilhavam também uma necessidade essencial: a de lutar pela VIDA, pelos seus territórios e pelos direitos originários e constitucionais que garantem a continuidade de suas existências, respeitando a pluralidade de seus povos e modos de vida.

Após dias em ônibus, barcos e carros para chegar ao ensolarado e seco Planalto Central, com suas pinturas faciais e corporais, seus trajes tradicionais e munidas de seus maracás, essas mulheres indígenas, representantes de cerca de 110 povos, ocuparam os gramados da Funarte, onde estavam acampadas, e a Esplanada dos Ministérios evocando diversos cantos e danças rituais. Produzia-se, assim, uma incrível e singular vivência em que as mulheres compartilhavam entre si a ancestralidade de suas diversas civilizações.

“Este encontro nos fortalece tanto na espiritualidade como na política”, revelou Eunice Kerexu, do povo Guarani-Mbyá, ex-cacica da Terra Indígena Morro dos Cavalos, de Santa Catarina. Era disso mesmo que se tratava, um histórico e inédito ato político, independente de partidos, focado na defesa dos direitos dos povos originários do Brasil.

Com o lema “Território: nosso corpo, nosso espírito”, as mulheres exigiram que a grave ofensiva aos seus direitos em curso seja interrompida, que a demarcação e efetiva proteção aos seus territórios sejam garantidas e que cada um de seus modos de vida tradicionais sejam respeitados.  “Não aceitaremos nenhuma política genocida, etnocida ou ecocida. Em nome da nossa ancestralidade, da nossa Mãe Terra e de toda a vida, seremos sempre mulheres de resistência”, bradou Sônia Guajajara do caminhão de som, na frente do prédio do Ministério do Meio Ambiente.

Sementes de inspiração

As marchas das mulheres indígenas e das Margaridas se pautaram no amor à terra, motivo maior para lutarem pela vida, pelas florestas e águas © Eduardo Napoli / Cobertura Colaborativa

Ontem (14) cerca de 100 mil mulheres, vindas de todos os estados do país, uniram suas vozes às indígenas. Em sua maioria camponesas, elas também eram pescadoras, quilombolas, ribeirinhas, sem-terra, quebradeiras de coco, vazanteiras e membros de dezenas de outras comunidades tradicionais – que a maioria dos brasileiros desconhece. Em sua 6a edição, a Marcha das Margaridas além de colorir a cinzenta – e, nesta época, empoeirada – Esplanada dos Ministérios de diversos tons de lilás, também marcou com urucum e jenipapo – tinturas naturais utilizadas pelas indígenas para fazerem suas pinturas – as ruas de Brasília.

Segundo diversas falas das participantes, as duas emocionantes marchas foram pautadas pelo AMOR.  A repetida mensagem era: “é pelo amor a esta terra, às suas águas, florestas, animais e plantas que nós resistimos a qualquer projeto que priorize a morte, em detrimento da vida. Foi o amor que nos trouxe aqui e é pelo amor que seguiremos, todos os dias, na luta pela vida. Não só pela nossa vida, mas a de todos os seres vivos”.

Sintonizadas, essas mulheres do campo, da floresta e da cidade denunciaram o drástico aumento da violência no campo; o desmatamento da Amazônia e do Cerrado; a entrega dos bens naturais – como água, biodiversidade e minérios – do país a corporações brasileiras e estrangeiras; a paralisação da demarcação das terras indígenas; a invasão e destruição dos territórios tradicionais; a contaminação causada pelos agrotóxicos; a criminalização de lideranças de seus movimentos; e diversas políticas do atual governo que sequestram direitos e as levam a se preocupar com fantasmas como a fome e a miséria, que voltam a rondar as casas de milhões de brasileiros.

Fonte de muita inspiração, apesar dos tantos desafios que tiveram que enfrentar (como o intenso frio no acampamento, a distância da família e algumas não falarem português, dentre outros), essas mulheres ocuparam as ruas da Capital Federal por muitas horas para dizer que há muitas outras formas de se viver, com dignidade, respeito e abundância, quando não se coloca o lucro acima da vida e quando não se transforma tudo-tudo-tudo em mercadoria. Cheias de empatia, elas sugerem priorizar a solidariedade, a agroecologia, o cuidado, o feminismo, a democracia, a soberania, a sustentabilidade.

De netas a bisavós

Diversas gerações estiveram presentes nas ruas de Brasília: a luta começa cedo © Douglas Freitas / Cobertura Colaborativa

Em ambas as marchas, várias gerações estavam presentes, netas, mães, tias, filhas, avós e até bisavós, todas estavam ali. Algumas idosas apoiavam-se entre si durante a marcha. Outras tocavam tambor, intensamente, dando ainda mais brilho aos seus cabelos totalmente brancos. Em um momento em que os direitos dessas mulheres estão sendo retirados, havia uma espécie de vibração diferente, positiva, entusiasmada. Cada troca de olhar trazia força. Cada sorriso transmitia confiança. Cada toque de atabaque, berimbau, maracá empoderava ainda mais aquelas meninas, mulheres, anciãs. Foram momentos de alimentar a esperança.

Vale ressaltar que, especialmente, na Marcha das Mulheres Indígenas, muitas mães amamentavam seus bebês, que estavam, graciosamente, por todos os cantos. Uma percepção sutil, mas que explicita algo bastante real: para os povos indígenas sobreviver significa lutar e, por isso, é preciso que comecem cedo, muito cedo.

Indiscutivelmente, temos muito o que aprender com a sabedoria e a sensibilidade das anciãs indígenas, camponesas e de tantas comunidades tradicionais deste tão sofrido  – e, ao mesmo tempo, tão pluralmente rico – Brasil.

Leia aqui o Documento Final da 1a Marcha das Mulheres Indígenas: “Nosso território: nosso corpo, nosso espírito”