Há mais de um mês na Amazônia,  pesquisadores do Projeto Mantis presenciam a mudança da floresta com o fim das chuvas e os mitos que sustentam a destruição

Cristalino – As estradas de vida da Amazônia, rios de céu vibrante e florestas exuberantes que precisam ser vividos e provados por todos. Ao nos isolarmos para a Expedição Austral, entendemos que este é o único caminho possível

Quando cheguei à Amazônia do Mato Grosso, em abril, era o fim das chuvas. Aqui na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Cristalino, a tarde sempre reservava o frescor da água caindo sobre a floresta, e o ar se renovava. Passado quase um mês, as chuvas foram escasseando, até que acabaram. Começou a estação seca. 

O rio baixou o nível, surgiram pequenas praias, e partes alagadas da floresta recuaram. O verde seguiu exuberante, um pouco mais amarelado por conta de musgos e pequenas plantinhas que murcham. O trecho chamado de Jardim Secreto perdeu as folhas, típico de florestas de cerrado, que existem nesse mosaico que é a Amazônia. Flores surgiram, outras se tornaram frutos, outras aguardam a chuva voltar. Tudo natural, e naturalmente adaptado a essa mudança brusca, motor de uma diversidade especial. 

As espécies de louva-a-deus que encontro aqui cada vez mais se mostram únicas, um meio termo entre a Amazônia sempre úmida ao Norte e os Cerrados mais secos ao Sul, com espécies de ambos os lados e outras exclusivas desse encontro tão primoroso de biomas. Uma interseção ainda pouco compreendida, mas muito ameaçada.

Há duas semanas, com a expedição Austral já na metade, aproveitamos uma carona de bate e volta à cidade, distante duas horas, uma de barco, outra de carro. Em meus fones a voz de Ney Matogrosso cantava “O Sol que veste o dia, o dia de vermelho, o homem de preguiça, o verde de poeira, seca os rios, os sonhos.” Olho pela janela do carro e entendo pela primeira vez a que se referia essa música que tanto gosto. 

Na estrada de terra, assim que deixamos a área da reserva, as monoculturas se estendem no horizonte infinito. Toda e qualquer planta nas beiradas, incluindo as matinhas singelas que sobraram, são cor de laranja, o verde coberto pela poeira que o carro levanta. A cena se mostra desoladora, um tanto quanto distópica nesse contexto de pandemia. Após estar um mês isolado à beira de um rio cercado por milhares de tons, cantos e formas, olhar a monotonia do milho me põe triste. A realidade da região me atinge em cheio e lembro que aqui faz parte do Arco do Desmatamento, não é à toa.

Certamente Ney não cantava sobre este lugar, nem poderia. A cidade, Alta Floresta, foi fundada depois da música, e completou aniversário durante minha estadia. Meros 45 anos. Quando Secos e Molhados lançaram “O Doce e o Amargo”, aqui ainda era um reino verde completamente vivo e vibrante. Com incentivo do governo militar, a floresta foi sendo derrubada, para virar pasto, plantação, garimpo. Esse modelo predatório foi replicado em todo o Arco. Pela primeira vez, e rapidamente, a poeira tingiu as plantas da floresta.

Incrível a capacidade de destruição do ser humano, penso. Em menos de 50 anos conseguiram devastar tanto quanto o que se fez com a Mata Atlântica em 500 anos. Longe, nas esferas públicas do poder em Brasília, parecem achar pouco. Pegaram o jargão de Juscelino, o famoso “50 anos em 5”, e querem aplicar ao Brasil, chamando desmatamento de desenvolvimento. Se puderem, querem o fim da Amazônia que conhecemos antes de 2022.

Aí me lembro de uma conversa com uma pessoa local. “Saudades do garimpo, naquele tempo tinha muito dinheiro e a gente ia ao cinema.” O garimpo veio, passou, e nada desse dinheiro sobrou. Acredito até que o cinema fechou. O mesmo vai acontecer com as novas promessas de desenvolvimento. O “progresso” que trazem à Amazônia é um trator que tudo destrói e nada deixa, levando qualquer riqueza pra longe, bem longe, onde o povo não alcance, nem sequer sonhe com a existência. Se o garimpo trazia riqueza, para onde foi? A história se repete, ainda mais devastadora, com máquinas de destruição mais modernas e malignas.

Precisamos entender, e fazer entender, que a maior riqueza da região é a Amazônia viva, suas milhares de espécies de animais, fungos, plantas, onde está o futuro da medicina, da engenharia, da energia renovável. Nosso futuro é a pesquisa e aplicação de todo conhecimento que podemos absorver da biodiversidade mais exuberante do planeta. Como meu companheiro de equipe Lvcas sempre diz, toda vez que mergulhamos assim na floresta, era para estarmos vivendo uma utopia amazônica, mas o que vemos é o oposto. 

O desenvolvimento sombrio que nos apresentam é um fantasma que devia ter sido enterrado com a ditadura, mas pasmem, foi reanimado com o bolsonarismo. Lá vem a boiada passando, levantando o pó na estrada, sufocando a floresta e o povo de poeira, até morrerem asfixiados e sem voz. Lá vem a história da selva indomável, maculando a floresta viva e benevolente. Como modificar uma mentalidade tão arraigada? Nesse infame Arco do Desmatamento, que vai minando a Amazônia pelas bordas e se alastrando feito câncer maligno, ainda perdura a ideia da floresta como perigosa, ainda há mais medo de onça que de caçador, não importa que a realidade mostre o contrário.

A música que ouvia no carro nos sugere uma saída. “Beber o suco de muitas frutas, o doce e o amargo, indistintamente. Beber o possível, sugar o seio da impossibilidade, até que brote o sangue, até que surja a alma dessa terra morta, desse povo triste.” É preciso provar Amazônia, o deslumbre de suas belezas, o medo e respeito por seus mistérios, reavivar a alma desta terra. E é preciso mostrar o sabor dessa Amazônia a quem vive nela. Poucos, além dos povos originários e populações tradicionais, conhecem esse gosto encantador e tão rico. 

A floresta segue ocupada por forasteiros gananciosos e poderosos, que não a conhecem e dela querem extrair destruindo tudo. Junto deles vêm pessoas que só buscam sobreviver. Quando os grandes se vão, elas restam, com saudades da ilusão de tempos passados. Essas pessoas, que se tornam locais, também precisam ser incluídas nos diálogos e mergulhar na Amazônia ancestral. 

Ao assistir a uma palestra para os funcionários da reserva, a querida cozinheira daqui se apaixonou pelos louva-a-deus. Quando chegamos há um mês, ela achava que eles picavam, e os matava, como a maioria faz. Agora, já fez foto com um no braço, quer estampar a foto em uma caneca e sonha em ter alguns nos seus jardins de orquídeas. Isso me anima. Há várias maneiras de combater o obscurantismo que vivemos, e o meu caminho é compartilhar de forma sincera a jornada de um cientista apaixonado pela Amazônia, plantando conhecimento e histórias. Mostrar porque choro ao ver o verde coberto de poeira, e porque imerso nesta floresta, quase me esqueço de tudo, levado pelas belezas ocultas em suas noites. Eliane Brum diz, com razão, que a Amazônia é o centro do mundo. Eu gosto de dizer que também é o coração. Aqui somos realmente vivos. 

É muito difícil ter esperança, até mesmo lembrar o que é isso, após três anos de um governo tão vil. Mas quando ele passar, e vai passar, acredito que pequenas mudanças, geradas por milhares, junto aos grandes movimentos e pressões, serão capazes de pensar um caminho que verdadeiramente dê valor à Amazônia. Quem sabe o Arco do Desmatamento não possa ser convertido no Arco do Reflorestamento? 

Ainda há tempo, mesmo que pouco. Reservas como a RPPN Cristalino protegem as sementes dessa retomada. Por aqui ainda vivem louva-a-deus raros, animais extraordinários e árvores centenárias. Que todos tenham o privilégio e gosto de conhecê-los de perto.