Entenda o que causa a falta d‘água, como evitar a crise hídrica e por que medidas como desconto na conta, proteção dos mananciais e justiça tarifária funcionam.

A falta de água é o resultado da desigualdade social, da crise climática e das falhas na gestão dos recursos hídricos. Mesmo abrigando a maior reserva de água doce do planeta, o Brasil enfrenta situações de desabastecimento que prejudicam a rotina das famílias e encarecendo as contas.
Assine e ajude a cobrar a Sabesp contra falta d’água em São Paulo!
Em São Paulo, por exemplo, diante dos reservatórios baixos, a Sabesp oficializou o “racionamento noturno”, ou seja, reduz a pressão da água durante a noite, interrompendo o abastecimento principalmente nas periferias e bairros altos.
“Muitas famílias já enfrentam a falta d’água em São Paulo, mas a luta é a mesma no país todo. Quem reduz o consumo merece incentivo na conta, quem capta muito precisa pagar de forma justa, e proteger os mananciais é o que garante o direito universal à água”, explica Leilane Reis, coordenadora de Justiça Climática do Greenpeace Brasil.
Em parceria com o ONDAS, IAS e SOS Mata Atlântica, o Greenpeace lançou uma mobilização para cobrar da Sabesp medidas emergenciais contra a crise hídrica, como a retomada do bônus na conta para quem economiza água, endossando as campanhas por consumo consciente. “Cada assinatura aumenta a pressão política. Por isso, essa batalha é sua também”, afirma Reis.
1- O que causa a falta de água?
O acesso à água potável depende diretamente da gestão hídrica e sua capacidade de proteger mananciais, rios e florestas que regulam o ciclo da água. Quando faltam medidas para controle de desmatamento, despoluição, educação ambiental e fiscalização sobre retirada excessiva nos reservatórios, falta água. A recorrência intensificada de fenômenos como El Niño aumentam estiagens e ondas de calor. A tendência é secas mais longas e intensas no Sudeste nas próximas décadas, reforçando a necessidade de rever os planos e normas de gestão hídricas para incluir a crise climática.
2- A conta subiu, mas a água sumiu
A redução da pressão da água diminui o abastecimento principalmente nas casas de bairros altos, periféricos e sem caixa d’água, gerando um prejuízo financeiro direto para o consumidor. Em São Paulo, virou rotina as reclamações sobre os relógios – ou hidrômetros – que, quando a tubulação esvazia, contaminam o ar acumulado, fazendo o medidor girar mesmo sem água. Isso pode fazer com que as famílias paguem pelo ar como se fosse água, aumentando as reclamações no Procon-SP. E quando o fluxo retorna, a alta repentina de pressão pode estourar tubulações, como torneiras e canos, além de danificar a bomba de água do imóvel.
3- Grandes consumidores e consumo desigual
Enquanto a população enfrenta racionamento disfarçado, grandes consumidores industriais e agrícolas operam sob regulações permissivas. Investigações da Agência Pública apontam que 44 grandes empresas são “donas da água” no Brasil, pagam a média de 5 centavos a cada 10 mil litros e têm autorização para captar 4 trilhões de litros por ano, o suficiente para abastecer as populações de MG, RJ e SP. Além disso, dados do Instituto Água e Saneamento (IAS) indicam que o consumo industrial e comercial tem crescido em ritmo superior ao residencial na Grande São Paulo, o que pode ter contribuído para a retirada recorde dos mananciais em 2025.
4- A água é direito, não mercadoria
Ficar sem água impede atividades essenciais como se hidratar, tomar banho e cozinhar, principalmente em um ano sob influência do El Niño, que aumentam as ocorrências de ondas de calor e veranicos. Os impactos são desiguais: famílias que vivem em periferias, áreas altas ou sem caixa d’água sofrem mais com a redução da pressão e com o racionamento. Água e saneamento são serviços essenciais, independentemente de ser privatizado ou não, qualquer modelo de gestão precisa garantir acesso universal, qualidade do abastecimento, transparência e justiça tarifária. O interesse público deve ser prioridade e a água não pode ser tratada como ativo financeiro, especialmente diante da crise climática e escassez crescente.
5- Como evitar a crise hídrica? Soluções práticas e estruturais
Reduzir a pressão na rede pública não pode ser a única resposta do poder público e das concessionárias. Para construir uma verdadeira segurança hídrica, existem alternativas eficientes e comprovadas:
- Desconto na conta de água: Incentivo econômico para quem economiza água é uma medida emergencial que já funcionou entre 2014 e 2015, quando fez 82% dos consumidores da Grande SP reduzirem o consumo.
- Acesso Universal a Caixas d’Água: Ampliar programas para instalação e doação de reservatórios para famílias vulnerabilizadas.
- Taxar Grandes Consumidores: Fiscalizar e cobrar proporcionalmente pela captação de água por grandes indústrias e o agronegócio.
- Restauração e Proteção de Nascentes: Investir na conservação de bacias hidrográficas e matas ciliares garante a recarga contínua dos aquíferos e reservatórios.
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