Entenda o que causa a falta dágua, como evitar a crise hídrica e por que medidas como desconto na conta, proteção dos mananciais e justiça tarifária funcionam. 

A Greenpeace member stands on dried out land holding a banner that reads in Brazilian "No Forests No Water" in Jacareí reservoir, part of the Cantareira water supply system, São Paulo Metropolitan area’s main water supply.
Greenpeace carries out an expedition to the main surface water sources in the south east region of Brazil, where millions of people are threatened by water shortage since 2014.

A falta de água é o resultado da desigualdade social, da crise climática e das falhas na gestão dos recursos hídricos. Mesmo abrigando a maior reserva de água doce do planeta, o Brasil enfrenta situações de desabastecimento que prejudicam a rotina das famílias e encarecendo as contas. 

Em São Paulo, por exemplo, diante dos reservatórios baixos, a Sabesp oficializou o “racionamento noturno”, ou seja, reduz a pressão da água durante a noite, interrompendo o abastecimento principalmente nas periferias e bairros altos.

“Muitas famílias já enfrentam a falta d’água em São Paulo, mas a luta é a mesma no país todo. Quem reduz o consumo merece incentivo na conta, quem capta muito precisa pagar de forma justa, e proteger os mananciais é o que garante o direito universal à água”, explica Leilane Reis, coordenadora de Justiça Climática do Greenpeace Brasil. 

Em parceria com o ONDAS, IAS e SOS Mata Atlântica, o Greenpeace lançou uma mobilização para cobrar da Sabesp medidas emergenciais contra a crise hídrica, como a retomada do bônus na conta para quem economiza água, endossando as campanhas por consumo consciente. “Cada assinatura aumenta a pressão política. Por isso, essa batalha é sua também”, afirma Reis. 

1- O que causa a falta de água?

O acesso à água potável depende diretamente da gestão hídrica e sua capacidade de proteger mananciais, rios e florestas que regulam o ciclo da água. Quando faltam medidas para controle de desmatamento, despoluição, educação ambiental e fiscalização sobre retirada excessiva nos reservatórios, falta água. A recorrência intensificada de fenômenos como El Niño aumentam estiagens e ondas de calor. A tendência é secas mais longas e intensas no Sudeste nas próximas décadas, reforçando a necessidade de rever os planos e normas de gestão hídricas para incluir a crise climática.

2- A conta subiu, mas a água sumiu

A redução da pressão da água diminui o abastecimento principalmente nas casas de bairros altos, periféricos e sem caixa d’água, gerando um prejuízo financeiro direto para o consumidor. Em São Paulo, virou rotina as reclamações sobre os relógios – ou hidrômetros – que, quando a tubulação esvazia, contaminam o ar acumulado, fazendo o medidor girar mesmo sem água. Isso pode fazer com que as famílias paguem pelo ar como se fosse água, aumentando as reclamações no Procon-SP. E quando o fluxo retorna, a alta repentina de pressão pode estourar tubulações, como torneiras e canos, além de danificar a bomba de água do imóvel. 

3- Grandes consumidores e consumo desigual

Enquanto a população enfrenta racionamento disfarçado, grandes consumidores industriais e agrícolas operam sob regulações permissivas. Investigações da Agência Pública apontam que 44 grandes empresas são “donas da água” no Brasil, pagam a média de 5 centavos a cada 10 mil litros e têm autorização para captar 4 trilhões de litros por ano, o suficiente para abastecer as populações de MG, RJ e SP. Além disso, dados do Instituto Água e Saneamento (IAS) indicam que o consumo industrial e comercial tem crescido em ritmo superior ao residencial na Grande São Paulo, o que pode ter contribuído para a retirada recorde dos mananciais em 2025

4- A água é direito, não mercadoria

Ficar sem água impede atividades essenciais como se hidratar, tomar banho e cozinhar, principalmente em um ano sob influência do El Niño, que aumentam as ocorrências de ondas de calor e veranicos. Os impactos são desiguais: famílias que vivem em periferias, áreas altas ou sem caixa d’água sofrem mais com a redução da pressão e com o racionamento. Água e saneamento são serviços essenciais, independentemente de ser privatizado ou não, qualquer modelo de gestão precisa garantir acesso universal, qualidade do abastecimento, transparência e justiça tarifária. O interesse público deve ser prioridade e a água não pode ser tratada como ativo financeiro, especialmente diante da crise climática e escassez crescente. 

5- Como evitar a crise hídrica? Soluções práticas e estruturais

Reduzir a pressão na rede pública não pode ser a única resposta do poder público e das concessionárias. Para construir uma verdadeira segurança hídrica, existem alternativas eficientes e comprovadas:

  • Desconto na conta de água: Incentivo econômico para quem economiza água é uma medida emergencial que já funcionou entre 2014 e 2015, quando fez 82% dos consumidores da Grande SP reduzirem o consumo.
  • Acesso Universal a Caixas d’Água: Ampliar programas para instalação e doação de reservatórios para famílias vulnerabilizadas.
  • Taxar Grandes Consumidores: Fiscalizar e cobrar proporcionalmente pela captação de água por grandes indústrias e o agronegócio.
  • Restauração e Proteção de Nascentes: Investir na conservação de bacias hidrográficas e matas ciliares garante a recarga contínua dos aquíferos e reservatórios.

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