Céu de Manaus coberto por fumaça de queimadas em setembro de 2026

Um novo dia chegou, e Manaus bate mais um recorde ….e pode ser “só” o primeiro do dia. Dias de intensa fumaça, que já se tornaram semanas. Hoje, ela veio antes mesmo antes de o sol nascer! Múltiplos fatores atravessam a realidade do manauara hoje: incêndios provocados por curtos-circuitos, decorrentes da alta demanda pelo uso de ar-condicionado; paralisações do transporte coletivo; falta de água em vários pontos da cidade por conta de rompimentos de adutoras; calor extremo por dias seguidos; e a fumaça interminável dos incêndios que se proliferam por aqui e pelo outro lado do rio. As “nuvens” de fumaça são trazidas pelo vento e deixam a cidade completamente cinza! Ficar em casa nem chega a ser uma opção viável, já que o custo de energia está mais alto do que o bolso consegue pagar sem outros sacrifícios. Para os manauaras (assim como em outras cidades, por diferentes motivos), o super El Nino já é uma realidade que não bateu na porta, mas sentou-se à mesa e está revirando a casa inteira. 

Este é o depoimento da Kamila Craveira, pesquisadora do Greenpeace Brasil, que vive em Manaus (AM). Assim como ela, desde o início de setembro milhões de manauaras têm respirado ar duas vezes mais poluído do que o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo pesquisadores do IPAM que integram a RedeAr.

Os pesquisadores do instituto atribuem parte do problema ao El Niño em curso, que estaria enfraquecendo os ventos que normalmente dispersam a fumaça das queimadas para longe da cidade, fazendo a fuligem se acumular sobre a Região Metropolitana em vez de se dissipar. Mas as queimadas não são naturais, e a grande maioria tem origem humana, e em anos de El Niño elas tendem a se intensificar por conta do clima mais seco na região e ondas de calor.

O Greenpeace Brasil vem monitorando o risco de um novo episódio forte de El Niño em 2026, e já temos a previsão de que o El Niño atinja uma intensidade histórica. Isso pode repetir o cenário de 2023/2024, quando mais de 80% dos municípios brasileiros registraram algum grau de estiagem e incêndios recordes atingiram Amazônia e Pantanal.

Cidades na Amazônia que respiram pior que muitas metrópoles do mundo

Essa situação não é novidade e tampouco restrita à cidade de Manaus. O Greenpeace Internacional publicou em novembro de 2025 o relatório “Céus Tóxicos”, que revelou como a Amazônia brasileira vive meses inteiros respirando um ar que ultrapassa, e muito, os limites considerados seguros pela OMS. Durante o pico de queimadas de 2024, os níveis de poluição por partículas finas (PM2,5) em Porto Velho-RO chegou a ultrapassar em mais de 20 vezes o limite diário recomendado e, mesmo em 2025, com um ano de queimadas mais brandas, o excedente ainda passou de 6 vezes o limite. 

O que chama atenção é que Porto Velho não tem um grande parque industrial nem o trânsito caótico de uma metrópole, e ainda assim sua poluição anual por PM2,5 supera a de cidades como Pequim, São Paulo e Santiago. A explicação está no entorno, já que cerca de 75% da área queimada perto da cidade é de pastagem, o que mostra que o fogo ali funciona como ferramenta de manejo do agronegócio, e não como um fenômeno espontâneo da floresta. A fumaça das queimadas e incêndios florestais muitas vezes atravessa quilômetros de distância até chegar nas cidades.

O que fazer quando o ar piora 

Enquanto esse ciclo se repete, existem cuidados que ajudam a reduzir a exposição nos dias de fumaça mais intensa. Os Médicos Sem Fronteiras recomendam:

  • evitar atividade física ao ar livre (ou limitar a no máximo 30 minutos), 
  • manter portas e janelas fechadas, 
  • usar máscaras PFF2 ou N95 ao sair de casa 
  • manter a hidratação em dia. 

Vale redobrar a atenção com crianças, idosos, gestantes e pessoas com problemas respiratórios ou cardíacos, e procurar atendimento médico diante de sintomas como falta de ar, tontura ou náusea.

O que isso tem a ver com as eleições?

A saúde das crianças e idosos diante da fumaça não depende apenas do que cada família faz nos dias de céu carregado. A capacidade de prevenir incêndios, fiscalizar áreas desmatadas, monitorar a qualidade do ar e responder aos períodos críticos também depende de políticas públicas.

Essas políticas são influenciadas por decisões tomadas ao longo de todo o ciclo político, desde o orçamento para fiscalização, estrutura dos órgãos ambientais, regras de uso da terra, proteção de territórios, até punições para quem provoca incêndios ilegais.

E tudo isso é definido por quem ocupa um mandato, e a qualidade do ar vai impactar também se uma criança precisa ficar dentro de casa porque não consegue respirar bem, se as escolas precisam adaptar ou suspender suas atividades ou se um hospital recebe mais pacientes por problemas respiratórios.

Nas eleições de 2026, olhar para o histórico dos candidatos significa também olhar para essas decisões. Quem defendeu estruturas de fiscalização e prevenção de incêndios? Quem votou ou atuou para enfraquecê-las? Quem apresenta propostas capazes de reduzir a exposição da população à fumaça? Há algumas ferramentas que auxiliam nessa pesquisa a partir do histórico de decisões tomadas por legisladores, como Farol Verde, da Virada Parlamentar Sustentável e Monitor do Congresso, ((o))eco. 

A escolha do voto pode ajudar a definir quem terá poder para decidir o que acontece antes que o próximo incêndio comece.

Antes de votar, entenda o que está por trás do que você está vivendo. #VotaQueVale sua saúde, a floresta de pé , o clima e seu futuro.

Crianças e idosos são os que mais sofrem com a fumaça

A fumaça contém partículas finas, conhecidas como PM2,5, tão pequenas que conseguem penetrar profundamente nos pulmões e, em alguns casos, chegar à corrente sanguínea. A OMS alerta que a exposição à fumaça de queimadas pode provocar tosse, irritação nos olhos e na garganta, chiado, falta de ar e piora de doenças respiratórias, além de aumentar a procura por serviços de emergência e internações.

E é a saúde das crianças que mais é impactada nesse cenário. Um levantamento citado no relatório Céus Tóxicos, que analisou hospitalizações entre 2009 e 2019 na Amazônia Legal, contabilizou mais de 566 mil internações por doenças respiratórias em crianças e idosos, com picos evidentes logo após os períodos de queimada mais intensa. Em Porto Velho, mais da metade das internações respiratórias entre 2000 e 2016 eram de crianças de até 5 anos, e em anos de seca severa esse número chegou a subir 267%. Em 2019, bebês com menos de um ano representaram uma em cada cinco internações respiratórias ligadas às queimadas na região, e os pulmões que ainda estão se formando sofrem com esse tipo de exposição. O relatório também estima que, se a Amazônia brasileira cumprisse a diretriz da OMS para PM2,5, a expectativa de vida em Rondônia poderia aumentar em quase três anos, uma forma de dimensionar o quanto essa poluição já custa de forma silenciosa.

Aqui no nosso território a gente tem um impacto maior porque a gente tem um clima muito seco. E juntamente com a questão da fumaça, a gente tem um aumento muito importante nos quadros respiratórios. A cada 10 crianças, 6 crianças pelo menos a gente vê um quadro de tosse. E tem aumentado muito. Nós, como médicos, ficamos tentando corrigir algo que está além de nossas possibilidades. É frustrante. Os sintomas imediatos da fumaça são principalmente neurológicos: dores de cabeça e tonturas. Com a exposição prolongada, ficamos propensos a doenças como o câncer, porque a fumaça interfere no funcionamento natural do corpo.

Anderson Torres, médico de Saúde Indígena em Porto Velho, outubro de 2024 . Foto: © Fer Ligabue / Greenpeace

O dia do fogo e a fumaça que atravessou o país

Quem acompanha o tema desde 2019 talvez se lembre do “Dia do Fogo“, quando fazendeiros e grileiros ao longo da BR-163 no Pará, principalmente, atearam fogo supostamente de forma coordenada em áreas já desmatadas. Durante os dias 10 e 11 de agosto de 2019, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) detectou 1.457 focos de calor no estado, um aumento de 1.923% no mesmo intervalo, quando comparado ao ano anterior.

A fumaça viajou mais de dois mil quilômetros e escureceu o céu de São Paulo em pleno meio da tarde. Anos depois, parte dessas áreas virou lavoura e pasto, como se aquele episódio tivesse sido só mais um passo dentro de um processo já conhecido.

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