Nos últimos quatro anos, a expansão do garimpo ilegal na Amazônia provocou centenas de mortes na maior Terra Indígena do país

Protesto de povos indígenas contra o garimpo ilegal no Acampamento Terra Livre em abril de 2022
Protesto de povos indígenas contra o garimpo ilegal em abril de 2022

Neste exato momento, cerca de 20 mil garimpeiros ilegais estão dentro da Terra Indígena Yanomami poluindo rios, destruindo florestas e ameaçando a existência de um povo ancestral, com claros impactos sobre a saúde e o modo de vida desta população. A crise humanitária que assola a maior terra indígena do país – vitimando principalmente crianças – não é novidade e se arrasta desde a década de 70. Nos últimos anos, foram mais de 60 alertas realizados pelo Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana.  

“O avanço da malária e da desnutrição dentro do território Yanomami já foi apontado por diversos especialistas, entre eles os da Fundação Oswaldo Cruz, confirmando a relação direta com o avanço do garimpo ilegal. Além de promover a destruição das florestas e dos rios da TI Yanomami, a atividade garimpeira impacta diretamente na desorganização do modo de vida dos povos indígenas presentes no território, e assim compromete a capacidade desses grupos produzirem seus próprios alimentos”, explica o porta-voz da campanha da Amazônia do Greenpeace Brasil, Danicley de Aguiar, que acompanha a temática há mais de 20 anos na Amazônia. 

O  garimpo ilegal é um inimigo antigo do povo Yanomami, mas em função do discurso pró garimpo e das ações e omissões do governo Bolsonaro, a atividade se expandiu de forma devastadora. Segundo dados levantados pelo Sistema de Monitoramento do Garimpo Ilegal da Hutukara Associação Yanomami, entre 2019 e 2021, a área garimpada irregularmente na TI Yanomami aumentou 1.963%, em comparação com os dez anos anteriores, deixando um rastro de destruição e mortes. 

Expansão estrutural do garimpo dentro da TI Yanomami

No mês passado, em dezembro de 2022, o Greenpeace Brasil esteve na região e denunciou a abertura de uma estrada de 150 quilômetros construída pelos garimpeiros que, ao facilitar a entrada das primeiras escavadeiras hidráulicas, eleva a ilegalidade para um patamar de devastação muito mais grave e aprofunda o desespero dos Yanomami.

Na mesma ocasião também flagramos a abertura irregular de uma nova pista de pouso, com cerca de 1 km de extensão e pelo menos 30 metros de largura, e que está associada a estrada ilegal. Essa nova pista tem a função de garantir o suprimento logístico para o funcionamento dos garimpos na região do alto curso do rio Catrimani.  

Nova pista de pouso ilegal dentro da TI Yanomami descoberta pelo Greenpeace Brasil em dezembro de 2022

Alerta de genocídio 

A fome, a violência e a contaminação por mercúrio acentuadas pela negligência do governo Bolsonaro têm sido fatais. Dados recentes do Ministério da Saúde apontam que, nos últimos quatros anos, 570 crianças com menos de 5 anos morreram por doenças evitáveis e pelo menos 21 ofícios com pedido de ajuda foram ignorados pela gestão do ex-presidente.

Em 2021, a preocupação com o risco de genocídio e o garimpo ilegal chegou a ser denunciada ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Penal Internacional (TPI), mas a negligência federal seguiu e a ilegalidade também, o que fez crescer as facções criminosas e conflitos graves contra indígenas, como assassinatos, estupros e aliciamento de vulneráveis. 

Protesto de povos indígenas contra o garimpo ilegal no Acampamento Terra Livre em abril de 2022

Emergência decretada

No último sábado (21), o presidente Lula esteve no território Yanomami e declarou Situação de Emergência na saúde pública do povo Yanomami. Além do aumento da mortalidade infantil, foram registrados 11.530 casos confirmados de malária só no ano passado. 

O atual governo também se comprometeu publicamente a acabar com o garimpo ilegal que já atinge 273 das 371 comunidades do território Yanomami. A Ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, disse que o Ibama e a Polícia Federal, com auxílio do Ministério da Defesa, vão atuar em conjunto para retirar os garimpeiros e desmobilizar suas estruturas. Seguiremos acompanhando e cobrando para que as devidas providências sejam tomadas. 

Fim do garimpo e a proteção dos direitos indígenas

Considerando a disposição do Presidente da República em reverter o avanço do garimpo ilegal na Floresta Amazônica, é fundamental que o atual governo vá além das ações de combate e controle. Para isso, será necessário um conjunto amplo de políticas socioeconômicas estruturantes e inovadoras, com mais investimentos em tecnologia e ciência alinhados aos conhecimentos tradicionais da região. Somente com essas políticas teremos alguma chance de superar o garimpo e constituir uma nova ordem econômica capaz de conviver com a floresta e garantir os direitos fundamentais dos mais de 28 milhões de brasileiros que habitam a Amazônia.

Se quiser saber mais e ajudar com doações, acesse os portais e as redes sociais das organizações indígenas:

  • APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil);
  • Coiab (Coordenação das Organizações dos Povos Indígenas da Amazônia Brasileiras);
  • Hutukara (Associação Yanomami). 
  • Urihi Associação Yanomami