O Dia da Sobrecarga da Terra chega mais cedo: neste 1º de agosto já consumimos todo os recursos renováveis que o planeta é capaz de suprir a cada ano. E a conta desta dívida acumulada já começa a ser cobrada de nós mesmos

Grande campo desmatado em Sumatra © Daniel Beltrá

A perda de florestas é um dos mais gritantes sinais da pressão que colocamos sobre a Terra © Daniel Beltrá / Greenpeace

Sabe quando a panela de pressão solta o apito de segurança, avisando para você fazer alguma coisa para evitar um incidente maior? Ou quando entramos no vermelho no orçamento doméstico antes do fim do mês? Seguindo estas analogias, esta é a situação na qual vivemos no planeta: um déficit urgente. Este 1º de agosto de 2018 se tornou o Dia da Sobrecarga da Terra (Overshoot Day, em inglês), o momento em que consumimos todos os recursos que o planeta é capaz de renovar. Até o fim do ano, viveremos no cheque especial, consumindo essas reservas naturais e empurrando a dívida para o futuro.

Segundo cálculos da organização internacional Global Footprint Network (GFN), consumimos recursos em um ritmo de 1,7 planeta por ano, em função de um modelo de produção altamente perdulário e desenfreado, acima da capacidade de regeneração da Terra, ou seja, sua biocapacidade. Claro, isso é uma média. No padrão de consumo americano seriam necessários 3 planetas, e o dia de sobrecarga seria 15 de março, enquanto o Vietnã esta data seria apenas 21 de dezembro.

Como só temos de fato um planeta, para todos, é óbvio que a conta não fecha. É por isso que estamos vendo se acentuar os processos de desmatamento, escassez de água doce, poluição, erosão do solo, perda de biodiversidade e acúmulo de carbono na atmosfera. Não temos dado fôlego para a Terra se auto recuperar, e a cobrança desta dívida acumulada já se manifesta tanto nos eventos extremos das mudanças do clima como na poluição que afeta a saúde de milhões de pessoas em todo o mundo.

Para ter uma ideia deste descompasso acelerado, em 1970, o Dia da Sobrecarga havia sido 29 de dezembro. Isso quer dizer que estamos comprometendo rapidamente, ano a ano, este déficit com o planeta. A proposta do alerta é fazer com que a data volte a ser adiada para o fim do ano, ou seja, que saibamos viver dentro dos limites que o planeta pode suprir. Esta campanha ganhou o nome #Movethedate.

“O resultado de 1,7 planeta atual é alarmante e nos mostra como, em cinquenta anos, dobramos a necessidade de recursos naturais para atender às necessidades da população global. Há alternativas disponíveis e factíveis para aumentarmos a eficiência do nosso consumo, seja de energia, como de alimentos, que poderiam corrigir a rota deste futuro, que deixará um triste legado para as próximas gerações”, afirma Ricardo Baitelo, especialista de Clima e Energia do Greenpeace Brasil.

O que é a pegada ecológica?

Lixo plástico cobre a rua de Manila. © Daniel Müller

A poluição é um sintoma da falta de capacidade da Terra absorver sozinha os impactos do nosso estilo de vida. © Daniel Müller / Greenpeace

Nosso impacto neste planeta pode ser medido pelo que os especialistas chamam de “pegada ecológica”. O cálculo ambiental é feito de maneira sistemática desde o ano 2001 e leva em conta nossa demanda por recursos naturais do planeta versus a capacidade regenerativa do planeta. Trocando em miúdos, a ideia é estabelecer a área necessária para produzir alimentos, fibras, madeira, energia, sequestro de carbono e infraestruturas (de transporte à habitação) de forma a suprir nosso estilo de vida e todos os bens e serviços que fazem parte dele.

Segundo Mathis Wackernagel, diretor executivo da Global Footprint Network, as economias mundiais realizam hoje uma prática semelhante ao chamado “esquema Ponzi”, que é um tipo de operação fraudulenta em pirâmide que envolve o pagamento de lucros aos investidores. Isso quer dizer, à custa do dinheiro pago pelos investidores que chegarem posteriormente, em vez da receita gerada por negócios reais.

O mais interessante disso tudo é que podemos fazer o cálculo da nossa própria pegada ecológica, de forma individual, por cidade, região, país, a partir dos hábitos de consumo. Desta consciência, espera-se que cidadãos aos governos adotem atitudes mais responsáveis. Nunca é demais lembrar, por exemplo, que o mundo desperdiça um terço dos alimentos produzidos, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Nesta matemática, foi constatado que 60% do problema estão nas emissões de dióxido de carbono, responsáveis pelas mudanças do clima. No Brasil, vale registrar que 74% de nossas emissões são oriundas do desmatamento e da pecuária (uso da terra), segundo relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima.

O desafio do desmatamento

“Grandes áreas de floresta e cerrado são desmatadas anualmente no Brasil para dar lugar à agropecuária. Tal destruição é responsável por cerca de metade das emissões de gases que causam o aquecimento global. Zerar o desmatamento ajuda a preservar a biodiversidade, garante serviços ambientais para toda a sociedade e é a maneira menos custosa de reduzir as emissões do país”,afirma Cristiane Mazzetti, da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.

Ao zerar o desmatamento, o Brasil daria uma grande contribuição para cumprir com o Acordo de Paris, de limitar o aquecimento do planeta a 1.5 ºC neste século, em comparação aos níveis pré-industriais.

Outro alerta sobre essa pressão sobre o planeta vem da globalização e crescimento populacional associados, com reflexo sobretudo na questão hídrica, que deve ser tratada de forma multidisciplinar.  “Devemos conservar nossas florestas, acabar com o desmatamento e com a poluição das águas, causada por falta de saneamento e uso exacerbado de agrotóxicos”, afirma Fabiana Alves, nossa especialista em Mudanças Climáticas.

Quem não se recorda, por exemplo, das sucessivas falta d’água no estado de São Paulo em função da poluição de córregos e rios e o desmatamento de matas ciliares? Ou do processo de desaparecimento do rio São Francisco devido a diversas obras e hidrelétricas ao longo do seu curso e da erosão das margens?

“É preciso tomar cuidado para não confundir a falta de água por mudança climática com consequências de más políticas hídricas”, diz Fabiana. Para a mitigação (redução de danos) desses problemas, é possível adotar medidas como restauração florestal com espécies nativas no entorno de mananciais. “As matas reduzem a erosão e recuperam a capacidade de produção de água e aumento de nascentes”, explica Fabiana.

Expansão da energia limpa

A planta de energia solar Pha Bong, na Tailêndia. © Christian Kaiser

A expansão da energia solar, limpa e renovável, é um dos caminhos para aliviarmos a pressão sobre os recursos naturais da Terra © Christian Kaiser / Greenpeace

Um setor estratégico nesta matemática de recursos naturais é o de energia. “O Brasil é um dos países com maior potencial para a geração solar e eólica, que são as fontes verdadeiramente limpas, renováveis e seguras. O Brasil e o mundo não podem seguir queimando combustíveis fósseis. Precisamos investir na transição para uma energética 100% renovável até 2050”, alerta Thiago Almeida, especialista em Energia, do Greenpeace Brasil.

Para ter uma ideia, hoje a capacidade instalada de eólica é de 13 GW (7,81%), capaz de abastecer praticamente 24 milhões de residências, e de 1,5 GW de solar na matriz elétrica (mais de 633 mil residências), segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e das associações dos setores.

No Plano Decenal de Energia (PDE) 2026 do governo brasileiro, a perspectiva até é que a solar represente 10% da matriz. “No Relatório Revolução Energética (2016), do Greenpeace Brasil, analisamos que é possível chegar a 15% neste período”, diz Thiago.

A válvula de segurança do planeta está apitando, mas até quando continuaremos ignorando? Reduzir essa pressão sobre o planeta exige hábitos responsáveis no nível individual, mas também mudanças estruturais nas forma como produzimos e consumimos os recursos do planeta em grande escala. Isso só é possível de interferir na esfera política. Por isso, um bom momento de sinalizar caminhos e promover transformações positivas são as eleições, pela oportunidade de eleger candidatos comprometidos com o meio ambiente. Pense nisso na hora de votar.