Artigo originalmente publicado pela Thomson Reuters Foundation

15ª edição do Acampamento Terra Livre começou nessa quarta © Christian Braga / MNI

Milhares de indígenas de todo o Brasil estão reunidos em Brasília. Unidos em solidariedade e para defender seus direitos, eles exigem mudanças nas decisões políticas e planos governamentais que ameaçam sua sobrevivência. Nós nos unimos a eles. Eis o porquê.

As tentativas de desmantelar os direitos dos povos indígenas são antigas, mas vêm se acelerando com o governo Bolsonaro. Promessas intolerantes e declarações polêmicas estão diretamente ligadas ao aumento de violentas invasões a terras indígenas e às diárias ameaças de morte e violência enfrentadas por líderes indígenas.

Nós nos unimos aos povos indígenas do Brasil e condenamos a violência cometida contra eles, pois qualquer violência é inaceitável. Nós trabalhamos para que os conflitos acabem e para que as florestas continuem existindo, é por isso que levamos “paz” em nosso nome.

Apoiamos, portanto, a luta dos povos indígenas pelo reconhecimento de seus direitos à terra e sua resistência à destruição da floresta e ao desmantelamento de seu direito fundamental de escolher como querem viver.

A profunda conexão que os povos indígenas têm com suas terras, florestas e lar é algo que deve ser protegido e celebrado – algo que devemos entender e aspirar, porque é uma conexão que a civilização ocidental parece ter perdido.

Essa falta de conexão tem impulsionado uma mentalidade de desenvolvimento que está minando os sistemas de apoio à vida dos quais nós mesmos dependemos para sobreviver. Nós nos tornamos seres desconectados da natureza. Quer trabalhemos para protegê-la ou destruí-la, quer a ignoremos ou amemos, não compreendemos que nós e a natureza somos um e que nossos destinos estão intimamente conectados com o mundo natural.

Para os povos indígenas, a floresta não significa valor econômico. A floresta é vida. Como resultado dessa visão, as comunidades indígenas viveram de forma sustentável na Amazônia por milênios, sem a destruírem.

Indígenas no ATL 2019 © Christian Braga / MNI

E agora, numa reviravolta cruel, o futuro de todos nós está também nas mãos desses guardiões indígenas, porque a luta contra o aquecimento global é o maior desafio do nosso tempo. E uma das soluções climáticas naturais mais fáceis e econômicas para mitigar as mudanças climáticas está nas florestas do mundo e nas mãos daqueles que vivem para protegê-las.

Mesmo que em diferentes graus, as mudanças climáticas já estão afetando a todos nós. Se não agirmos imediatamente, os impactos só aumentarão. Será que vamos limitar o aquecimento global a menos de 1,5 grau ou estamos enfrentando um colapso ecológico? Se não agirmos agora, o colapso da civilização como a conhecemos e a destruição do nosso mundo natural poderão ameaçar a sobrevivência de todos nós.

Também precisamos reconhecer como tudo está conectado, e que mexer em uma peça causa impacto nas outras. Se deixarmos nossas florestas prosperarem, elas não apenas estocarão o carbono da atmosfera, mas também continuarão a ser o lar de milhões de espécies que tornam nosso planeta habitável. A floresta amazônica armazena entre 80 e 120 bilhões de toneladas de carbono, produz ar limpo e está ligada ao ciclo crucial da água, o qual controla os padrões regionais de chuvas, que são fundamentais para manter o clima certo para a produção agrícola no Brasil e em outros lugares do mundo.

No entanto, neste momento crítico do nosso clima e do nosso planeta, os conflitos pelo acesso à terra estão aumentando na Amazônia. O desmatamento está aumentando. Governos, empresas e consumidores não estão agindo de forma coletiva ou rápida o suficiente para zerar o desmatamento ou combater a degradação florestal que ocorre diariamente em todas as regiões da floresta.

Essa expansão da produção da agricultura industrial, pecuária e dos empreendimentos de infraestrutura ameaça as florestas, os povos indígenas e todos nós, porque estamos todos intrinsecamente conectados. O clima, a justiça social e o uso da terra estão profundamente interligados. Estamos finalmente entendendo o que os povos indígenas sempre souberam: proteger a floresta significa proteger o clima e a própria vida.

Os guardiões que estão em Brasília merecem nossa solidariedade global por continuarem a se opor à destruição da floresta. As mudanças climáticas são um teste para toda a humanidade e uma luta que está ligada à causa indígena. Todos nós devemos nos unir a eles hoje – pelo futuro deles, pelo nosso futuro em comum – porque eles também lutam por nós.

Bunny McDiarmid é Co-Diretora Executiva do Greenpeace Internacional