O documentário Cowspiracy expõe o lado destrutivo da pecuária – e, no meio do caminho, levanta dúvidas sobre a atuação do Greenpeace. Entenda o que temos feito a respeito do tema Pecuária na Amazônia

Criação de gado em área desmatada no Mato Grosso. A atividade pecuária ainda é uma das maiores causadoras de desmatamento na Amazônia brasileira

Criação de gado em área desmatada no Mato Grosso. A atividade pecuária ainda é uma das maiores causadoras de desmatamento na Amazônia brasileira © Werner Rudhart / Greenpeace

O documentário Cowspiracy procura expor o lado destrutivo da indústria pecuária intensiva e seus impactos negativos sobre nosso planeta. Foi lançado há cerca de um ano e recentemente tornou-se popular, levantando importantes questões sobre o meio ambiente e nossos padrões de produção e consumo. Porém, infelizmente o documentário traz também equívocos quanto à atuação do Greenpeace.

O escritório do Greenpeace nos Estados Unidos se recusou a participar deste projeto porque acreditava que nossa posição poderia ser distorcida. Infelizmente, a decisão de não participar do documentário acabou dando margem a uma série de interpretações equivocadas. Por isto, achamos importante esclarecer alguns pontos sobre o filme e o trabalho realizado pelo Greenpeace Brasil

Em primeiro lugar, é importante lembrar que o Greenpeace é uma organização independente. Não aceitamos doações de empresas e governos. Somos 100% mantidos por pessoas físicas e, com isso, garantimos a independência de nossas campanhas.

Há mais de dez anos o Greenpeace Brasil mantém uma campanha que busca justamente alertar a opinião púbica sobre a expansão da criação bovina na Amazônia e os impactos desta produção no meio ambiente. Em 2009 publicamos o relatório “A farra do boi na Amazônia“, que deu origem ao Compromisso Público da Pecuária, assinado por alguns dos maiores frigoríficos do país. Esta iniciativa, em conjunto com a Moratória da Soja, foi considerada por pesquisas recentes como uma das iniciativas mais relevantes para a queda do desmatamento nos últimos anos. Além disso, monitoramos incessantemente o avanço do desmatamento na Amazônia, através de análises de dados e expedições regulares, com foco na produção de commodities e os danos associados à expansão do agronegócio sobre a floresta.

O Greenpeace nunca deixou de expor e investigar o problema da pecuária e continuaremos de olho, cobrando e colocando o dedo em todas as feridas abertas da cadeia de produção, até o dia em que árvores não sejam mais tombadas para dar lugar a criação de gado na Amazônia.

Mas existem outros aspectos associados à atividade. A produção intensiva de animais requer enorme quantidade de água e alimentos. O cultivo de grãos para a fabricação destes produtos disputa espaço diretamente com a produção de alimentos para humanos. A atividade agropecuária acaba expandindo suas fronteiras para áreas onde antes existiam florestas e uma enorme biodiversidade.

A produção de gado em escala industrial também gera uma grande quantidade de resíduos, que contribuem para a poluição do solo e dos sistemas hídricos subterrâneos, além de colaborar com a emissão de gases do efeito estufa.

O Greenpeace encoraja as pessoas a reduzir o seu consumo de carne, mas reconhece o direito de cada pessoa tomar decisões conscientes sobre seus estilos de vida e de consumo.

Entendemos que uma dieta baseada em vegetais é melhor para a nossa saúde, para o clima, para nossas florestas, rios e para a segurança alimentar global. Entretanto, tomamos a decisão estratégica, do ponto de vista de campanha, de não focar em defender a eliminação total do consumo de carne e laticínios de uma só vez. O que recomendamos é que as pessoas reduzam e repensem o consumo de tais alimentos, pelo menos até níveis que sejam seguros para a saúde humana e do planeta.

Pensando bem, comer carne é um pouco como o uso de combustíveis fósseis. Muita gente acha que deveríamos pedir a proibição do uso de carros ou aviões. Porém, acreditamos que essa mensagem pode ser, na verdade, contraprodutiva. Afinal, atualmente poucas pessoas estão de fato abertas a desistirem de usar carro pelo resto de suas vidas, mas há um grande e crescente número de pessoas dispostas a considerar usá-los menos.

Ou seja, preferimos focar nossa campanha em convencer mais pessoas a reduzirem e repensarem seu consumo de carne, o que por si só terá enorme impacto sobre o meio ambiente, ao invés de tentar convencer 1% de pessoas a serem veganas. Além disso, já existem grandes e competentes organizações que tratam especificamente do bem-estar animal, uma causa que sempre receberá nosso apoio e admiração.

Esperamos que você compreenda as nossas razões para trabalhar dessa maneira e continue buscando mais informações, questionando os atuais modelos de produção e fazendo o que estiver ao seu alcance para ajudar o planeta.